SEGUROS DE NÓS

Eu gosto da publicidade sincera. Como aquele anúncio de uma seguradora, por exemplo, em que se chama a atenção do consumidor enfiando-lhe uma flecha no cu, olha que barato meu parvalhão, mesmo sabendo que se calhar quando houver bronca leva uma flechada no coração…
Pelo menos assim ninguém pode dizer que não conhecia as armas com que se atingem os tolos. As mesmas que convertem os clientes em imbecis, figuras patéticas, potenciais compradores de uma merda qualquer que sendo (parecendo) uma pechincha só pode tratar-se de embuste ou de produto barato para gente palerminha e sem capacidade de decisão ou vontade própria.

Gosto acima de tudo quando as corporações desenfreadas se pegam umas com as outras e desatam a descobrir carecas. Os outros vendem a xis e a gente faz a coisa pela metade. Os outros têm aquilo a menos e a gente tem isto a mais. Os outros enganam o público e nós nem aderimos a esses esquemas. E por aí fora, connosco, os patos, a aprender nesses momentos como somos endrominados pela compra por impulso ou por preguiça. Uma flecha enterrada no traseiro, em cada prateleira ou catálogo onde deitamos a mão à pior opção só para não esbanjarmos o tempo nas necessárias análises e comparações.

Enfiamos os barretes mesmo quando se torna evidente que bastaria percorrer mais uns metros, mais umas páginas, mais não sei o quê que nos pouparia um prejuízo ou, no mínimo, uma enorme desilusão.
E o mesmo se passa relativamente às nossas escolhas em matéria de pessoas. Tanta opção ao alcance e tanta gente a embicar para as escolhas menos acertadas, impossíveis até. Apenas porque sim.

A flecha do Cupido, directa mas insegura, que nos tolda a perspectiva e nos arrasta para alvos que não podemos atingir. Os alvos somos nós, da nossa distracção que impede a visão clara e objectiva do que se passa à nossa volta e nos empurra como carne tola para o canhão dos desgostos evitáveis.
Claro que os há fiéis à marca, publicidade outra vez, encostam-se ao tronco mais próximo e deixam-se dormitar nas emoções falhadas à sombra da luz que tudo revela se não tentarmos encobri-la com uma peneira qualquer. Ou os que se sentem bem servidos e não pretendem experimentar incógnitas para (re)confirmar as suas decisões ganhadoras.
Na verdade existem sinais inequívocos que bastam para nos reencaminhar a chamada para outro número qualquer, disponível, onde se possa encontrar uma alternativa cabal do outro lado da linha em vez do sinal de ocupado que constitui sempre uma frustração.

A publicidade faz de nós o quer, como uma posta mal interpretada, e pode mandar-nos serradura para os olhos.
Mas não podemos ignorar as contra-indicações bem claras nas letrinhas pequenas da embalagem que nos (a)trai.
publicado por shark às 17:41 | linque da posta | sou todo ouvidos