A POSTA NA BELEZA INTERIOR

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Foto: Shark (foi só para afinar o zoom da máquina...)


Quando cheguei à mesa da esplanada onde as minhas duas amigas me aguardavam, o debate incidia sobre o facto de um pénis ser mais belo erecto ou em repouso.
Percebi de imediato que iria ser arrastado para um assunto onde a minha intervenção só poderia baralhar ainda mais as conclusões possíveis.
No meu caso concreto existia a certeza inabalável da ausência de um critério estético a propósito desse controverso rolo de carne que faz toda a diferença numa data de merdas mas que, no meu modesto entender, não prima pela beleza sob prisma algum.

A maioria das pessoas com as quais debati a mesma questão acerca da vagina e do seu impacto visual apontou invariavelmente no sentido de que “são todas iguais”. Nunca concordei, como é óbvio, e só mesmo quem nunca olhou com olhos de ver consegue afirmar tal coisa.
São todas diferentes e algumas bem bonitas até. Tem a ver com uma data de aspectos que não vou aqui referir para não me tornar exaustivo e estender-me num inacabável lençol.

Contudo, as minhas amigas falavam de pilas e aí já a minha porca torce outro rabo. É que embora seja evidente que as pilas não são todas iguais (a minha, como já referi, tem uma inclinação à esquerda e outras têm inclinação à direita, existem as que inclinam para cima ou para baixo e ainda há as que raramente inclinam seja em que sentido for), para mim são todas igualmente feias. Acho até que uma parte do corpo tão importante para a felicidade de tantas pessoas merecia ser bonita, deslumbrante.
Mas não é.

E foi isso que joguei sobre o tampo da mesa encharcada de cerveja entornada e da água que escorria do exterior dos copos de imperial. Desculpem lá, dizia eu, mas é inócuo discutir se o Quasímodo é mais ou menos horrível a dormir ou acordado.
É feio, ponto. E quanto a isso, batatas…

A primeira reacção delas foi consensual. Qual quê, qual feio, e porque assim e porque assado e cada uma tentou reproduzir em poucas palavras a sua convicção da beleza do penduricalho que fica tão bem na estatuária mas, tenham dó, surge a meio do corpo masculino como um apêndice sem nexo. Talvez ainda mais absurdo quando arrebita as orelhas e se assume como uma espécie de morcela com manias de periscópio.
(E aqui lixei-me, pois caçaram-me na manifestação de um pendor e assumiram-me a tomar partido pelo belo escalope ao pendurão em detrimento do encantador galho de pessegueiro que desponta à toa um nadinha abaixo do umbigo de uma pessoa).


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A conversa ainda rendeu algumas tiradas que proporcionaram gargalhadas das que se gosta nestas ocasiões. Porém, até elas acabaram por se render em parte ao facto de, feio ama bonito lhe parece, uma pila só poder ser dotada de algum tipo de beleza interior, oculta, que nasce na cabeça de quem a usufrua de facto ou apenas o anseie.
Eu gosto da minha porque se tem revelado capaz no exercício das funções que lhe estão consignadas. Nunca por achá-la digna de figurar num álbum de fotografias ou de justificar alguma espécie de louvor ao quanto fica bem vista de perfil.

Ainda assim, gostos não se discutem e tal, fico sensibilizado com o carinho que o coiso inspira em quem até consegue admirá-lo por atributos que manifestamente não possui. É saudável e só dignifica quem aprecia dessa forma empenhada o todo de que qualquer parte se faz.

Mas falando de assuntos sérios, já repararam bem na conjugação perfeita dos elementos de que uma vagina é composta? A harmonia, a beleza discreta, a analogia tão fácil, à primeira vista, com um beijo quente e acolhedor, com um abraço terno ou com as flores que embelezam o mundo inteiro?

Isso sim, é um assunto acerca do qual vale sempre a pena trocar umas impressões.


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Foto: Shark
publicado por shark às 12:39 | linque da posta | sou todo ouvidos