CONTO COM UM FINAL FELIZ

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O velho Baptista, muito tempo depois, ainda frequentava todos os dias o tasco onde ambos se encontravam anos atrás. E ela também.
Cruzavam-se em silêncio, magoados. Estavam separados pelas divergências inconciliáveis de uma relação que nunca deveria ter acontecido. Mas aconteceu, para desassossego dos dois.

Não voltaram a falar depois, mas todos os dias cumpriam o estranho ritual ressentido. Ele sofria e não sabia se com ela se passaria igual. Nenhum deles encontraria uma forma de contornar a situação derradeira, aquela que os havia empurrado para longe um do outro, como carrinhos de choque em permanente rota de colisão. Batiam e fugiam, batiam e fugiam. Até que a última volta chegou.
Um dia os seus feitios embateram sem pára-choques e os danos não se ficaram pela mossa habitual. Foi perda total e a pista fechou.

O velho Baptista, no entanto, olhava para o tempo que restava e torcia-se por dentro de cada vez que a observava sem poder trocar uma palavra sequer. E aquela mulher, tudo em si o gritava, tornara-se uma parte importante, essencial até, do seu quotidiano. Algo que não conseguia explicar, vinha de dentro, incontrolável. Achava-se cheio de razões para nada mais querer daquela pessoa e entendia que assim fosse também do outro lado da questão.

Um dia entrou pelo tasco cheio de determinação. Passou de raspão pela mesa dela, linda como sempre, e deixou tombar sobre o tampo um pedaço de papel.
Depois saiu, mirando à distância a expressão desdenhosa que ela exibira quando lera o que ele havia escrito, antes de o amarrotar e deitar para o chão.
O papel dizia apenas “Não”.

Dias depois, o velho Baptista repetiu a graça.
Outro papel amarrotado, outro esgar incomodado. Mas ele não desistia do que abraçara como uma missão. Trazia o papel na mão, saturado do afastamento que entendia como um cruel castigo.
O segundo papel dizia “Consigo”.

Durante uns tempos, o ancião não apareceu no tasco e ela temeu o pior. Mas não deixava transparecer, orgulhosa, mantinha-se ciosa da sua razão.
Recordava cada uma das asneiras que ele cometera na sua perspectiva. E não reconhecia a sua parte da culpa. Pelo menos não a admitia.
Mas também ela sentia a necessidade de o ver de vez em quando, sozinho, numa mesa qualquer daquele espaço comum.

Disfarçou a alegria que sentiu quando o viu regressar, com um ar abatido, estivera doente talvez. E ele passou pela mesa devagar, olhos nos olhos dela, e deixou o terceiro recado com uma expressão de dor.
Dizia apenas “Viver”.

E ela, intrigada, fingiu-se amuada e machucou-o como aos anteriores enquanto ele espreitava pela montra e seguia o seu caminho habitual.

No dia seguinte ele apareceu outra vez. Parecia desanimado, mas insistiu. Com um aspecto cansado, aproximou-se sem pressa e parou durante uns segundos a curta distância, como que a contemplá-la. Ela fez de conta que não percebeu, conversou com o parceiro da mesa do lado e ignorou o velho Baptista como se ele não estivesse ali.
Pela primeira vez ele não deitou de imediato o papel na mesa. Dirigiu-se ao balcão e pediu uma caneta emprestada, vermelha, e escreveu algo no papel que no caminho de saída deixou tombar mais uma vez.
A última, percebeu ela quando reparou que pela primeira vez eram duas as palavras sem sentido que ele lhe entregava, uma a vermelho e a outra de cor azul.
Esta mensagem dizia “Sem Ti”.

Nos dias que se seguiram ele voltaria, como sempre, ao tasco para a ver. Mas já não escrevia coisa alguma, apenas se sentava em silêncio e bebia o seu café.
Depois saía e olhava-a por detrás do vidro antes de seguir.

Cada dia que passava ela notava o esforço que ele fazia para insistir na sua presença naquele local, vexado e visivelmente desgastado pela ausência de uma reacção.
Ele perdera a esperança, dias depois da última entrega do que considerava uma tentativa de aproximação. A possível, naquelas circunstâncias.
Notava-se no seu olhar perdido numa esquina da mesa ou nas pontas dos pés, na sua apatia, a tristeza que lhe provocaria a incerteza de ela ter entendido ou não o seu recado infantil.

Ela resistia, teimosa, mas sentia-se receosa que ele deixasse de aparecer de vez.
Nessa tarde decidiu oferecer-lhe algo em troca, um sinal qualquer que lhe desse a entender que talvez houvesse uma forma de reatarem a comunicação.
Levantou-se da mesa depois de escrever algo num guardanapo e de o embrulhar em torno de algo que falaria por si.

Passou de raspão na mesa do velho Baptista e deixou cair o guardanapo com um gesto gracioso. E seguiu para a porta, altiva, sorriso nos lábios que dissimulou no momento em que o espreitou enquanto ele abria o guardanapo que dizia apenas “Prova-o” e quatro pedaços amarrotados de papel espalhados à sua frente lhe arrancaram o primeiro sorriso que lhe via desde o dia em que se haviam beijado pela última vez, demasiado tempo atrás.
publicado por shark às 00:41 | linque da posta | sou todo ouvidos