ORGULHOSAMENTE NÓS

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Foto de autor desconhecido, recebida por email

O orgulho é uma característica simultaneamente rígida e flexível. Verga mas não parte, acompanhando-nos até ao fim e mesmo quando somos enterrados e nos tornamos esqueletos cheios de certezas e de convicções, com um metatarso orgulhosamente erecto a apontar para o céu onde esperamos encontrar tudo menos setenta e duas virgens à nossa espera como prémio para um comportamento exemplar (nos termos d’Ele e não de outros como nós, ou piores).

Quem não se olhou já ao espelho, cheio de orgulho por este ter prevalecido sobre todas as insofismáveis perdas associadas à sua preservação? Que atire a primeira pedra a este incréu.
É visto por uns como um acto digno, corajoso, esse assentar arrais do nosso amor-próprio em detrimento de tudo aquilo de que mais precisamos e nos dispomos a abdicar quando o nosso orgulho está em causa. E por outros como mais uma deplorável manifestação da estupidez humana, responsável por conflitos evitáveis e antagonismos estapafúrdios.
É polémico, então.

Mas consensual nalgumas matérias. É sabido que nós, gajos, somos quase unânimes na forma como sobrevalorizamos o orgulho em temas como o sexo (só para citar um exemplo qualquer que me ocorreu). E depois na vida profissional. E talvez no amor.
Ser desprezado pela amada é péssimo, ser menosprezado pelo chefe é horrível, falhar na cama é uma tragédia de dimensão colossal.
Coisas nossas, nas quais abrimos poucas excepções e sempre nos arrependemos.
Orgulhosos, prezamos a nossa dignidade e tentamos defendê-la das mazelas a que o triunvirato acima nos expõe.

Ficamos uns fulanos sem jeitinho nenhum, quando deixamos vergar demais (e aqui já tou a tomar partidos pela surra, não sei se tão bem a ver…) esse limite para o poder de encaixe de que a natureza nos dotou. E também tem a ver com o resto com que essa Mãe Gaia nos ofereceu na lotaria genética que determina se somos parecidos com o George Clooney, divertidos como o Woody Allen ou simplesmente uns trambolhos que não interessam a ninguém. Assim, na proporção directa dos atributos que nos reconhecem ou acreditamos desesperadamente possuir.
Vergam mais os que precisam, nesta estranha cadeia alimentar de egos e de consciências onde ninguém se assume presa e não faltam candidatos a predador.

O orgulho cega. Eu seja ceguinho se assim não é. Não raras vezes me perdi pelo meio dos intrincados raciocínios e dos comportamentos idiotas que se desenvolvem de forma autónoma como mecanismos de protecção do queixo para a cabeça nunca parar de se erguer. O sexo, outra vez, mas em sentido figurado. A nossa principal ralação. E o chefe, cabrão, a impor-me os galões? Mas eu sou muito homem e não me deixo vergar. E pela companheira também não, era só o que faltava...
Flop, despedimento e divórcio (ou separação). São esses os preços a pagar por alguns excessos nesse particular.
É que ninguém se condói nestes dias por um falso invisual.

E por isso, em jeito de conclusão, afirmo-vos com natural satisfação que me orgulho do gajo que às vezes consigo ser e outras vezes não. E basta-me assim, capaz de fazer elevações sem mãos com o toalhão de banho em dias bons e calar a proeza num sorriso imbecil e solitário ou de me deixar enxovalhar durante algum tempo pelos contornos intensos de um amor sem explicação. Rígido e flexível, em simultâneo, o orgulho tal como o defini mais acima. E eu.
Somos parecidos, afinal.

Não é um bom augúrio…
publicado por shark às 17:38 | linque da posta | sou todo ouvidos