A POSTA CONTUSA

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A pele. A segunda camada, escondida por detrás de uma capa de si. A pele vestida de desejo e coberta por um fino véu de pudor. Que se rasga no meio do calor da fricção apaixonada, vale tudo, sentidos em alerta mesmo à sua flor. Arrepios, inevitáveis. E gritos abafados, interiores, da pele em carne viva que cobre o coração de alguém que se entregou.

Os olhos. A alma à janela por causa do barulho, a espreitar a razão do sururu lá fora e a explicar a agitação no seu interior. Por detrás das cortinas que a ocultam, o medo mais a dor mais o resto que a acorrenta e a proíbe de voar. À janela, a sonhar, reflectida numa lágrima ao canto da abertura da sua cela, de felicidade aquela água salgada por todo o invólucro efémero, a água que sabe não ser chuva porque a chuva não possui tempero algum.
A faísca que emana da alma alada imita o clarão da tempestade. Lá fora, a acontecer. O mundo parado e o chão a tremer. A libertação, olhos fechados e a alma a voar, as asas a roçar na outra a seu lado, voando as duas em formação.

O cheiro. Como o da terra húmida depois de um aguaceiro de Verão, intenso e familiar. Dois cheiros num só, fragrância de vida soprada pela respiração, o ar que rareia no topo da montanha mais próxima do céu, impregnado pela essência de um perfume feliz. Valioso. O rasto a seguir, odores gravados a ferros na lombada do arquivo das sensações, o corpo a exigir (de novo) a fusão.

O som. Um saxofone à distância, sensual. Sussurros masculinos. Os tambores que rufam ao ritmo que as vozes inspiram. Devagar. Um gemido a soar, baixinho, uma nota de violino no silêncio quebrado pela melodia composta a dois. Sem pauta. Cacofonia no instante de magia. Ilusionismo para ouvir. Palavras de amor, algumas, ou gritos contidos de uma espécie de dor agradável, paradoxo, ou algo que soa parecido com um coro de anjos a cantar.
Divinal.

A pele outra vez. Molhada. Como que borrifada por gotículas de suor, lábios colados na impressão digital dos dedos cravados num pico de prazer. O cume da montanha onde as almas suspendem o voo para recuperarem as forças, talvez. Nódoa negra numa anca, pancada, uma marca na pessoa magoada.
A pele contusa.

E um beijo suave, de reconciliação.
A pele de outra boca a pedir-lhe perdão.
publicado por shark às 10:21 | linque da posta | sou todo ouvidos