AMIGOS DE PENICHE

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Foto: Shark

É algo que não muda com a alteração aos costumes que o progresso impõe. Uma amizade mostra o que vale nos maus momentos e não nos bons. Porque para curtir os dias porreiros a amizade de quem nos acompanha é dispensável. Quando a coisa dá para o torto, aí sim: os amigos estão lá e os conhecidos batem em retirada.

Conheço um tipo que atravessou pouco tempo atrás um daqueles períodos em que todos os amigos fazem falta. Do seu círculo habitual faziam parte várias pessoas, entre as quais um fulano que tudo indicava ser o mais próximo dele de entre aquele grupo de que faço parte por coincidência.
Todos notávamos as alterações no comportamento do rapaz, cada vez mais incapaz de manter o tom afável e bem disposto que lhe reconhecíamos, mas ninguém se sentia motivado ou legitimado para o questionar. Tirando o tal fulano, Sérgio (segundo creio), os restantes tinham o estatuto de acompanhantes de borga e pouco mais.

Após alguns episódios desagradáveis, o grupo foi-se desmembrando até restarmos quatro ou cinco. Eu seria talvez o gajo mais “de fora”, alinhava porque eles eram uma boa companhia para uma noite de copos pontual. E porque entendia o problema daquele tipo, saturado que parecia de aturar os outros e a si próprio, algo em que me revejo aqui e além.
O tal Sérgio também parecia entender, mas as suas reacções aos maus dias do outro eram cada vez mais extremadas e insensíveis. Claro que nós homens não podemos ter “mariquices” uns com os outros e raramente damos o braço a torcer com as nossas fraquezas, mas eu sentia que a ligação entre eles merecia algum empenho adicional.

Na última vez que saí com eles, éramos apenas um trio. Eu, o Sérgio e o mister X (que o meu escasso anonimato recomenda prudência).
Encontrámo-nos num café da zona do Parque das Nações e seria um serão como os do costume se não fossemos apenas três pessoas, o que me deu a entender que o X estava a ficar cada vez mais isolado. Valia-lhe, julgava eu, o consolo de contar comigo, na condição de ouvinte outsider, e com aquele amigo que o acompanhava desde há anos na rambóia.

Claro que no meio da conversa o X acabou por ter uma das suas intervenções exaltadas, a propósito já nem sei de quê. Eu abstive-me de reagir, embora me sentisse desconfortável pelo que me soou já a desespero, a um pedido de ajuda de um homem em franca degradação psicológica. A vida corria-lhe mal. E aguardei as palavras de apoio do outro, amigo do peito, que o escutava com ar enfadado de quem só estava ali pra ver a bola e tinha mais o que fazer do que aturar choramingões. Um duro, claro…

O X insistia, exaltado a propósito de nada. E o outro, cada vez mais distante, fazia cara de mau. Mas era fácil de ver que o X requeria naquela fase alguma paciência suplementar e alguém disposto a dar-lhe a volta, a apoiá-lo naquele período menos bom.

O Sérgio escutava e rosnava, até ao instante em que se levantou da mesa com brusquidão e disparou à queima: “Ò meu, vai mas é arranjar alguém com quem conversar que eu não te aturo mais.”. E basou.

Ficámos, eu e o X, em silêncio na mesa por alguns minutos. Pouco depois, ele olhou para mim e eu reconheci naqueles olhos um apelo a que não tinha meios de responder. Dei-lhe uma palmadinha nos ombros e confortei-o como pude, tentei desvalorizar a situação.
E li-lhe a tristeza profunda que o invadiu perante aquela deserção infame e de todo inesperada e injusta.

Enquanto percorria o caminho em sentido oposto ao dele, no regresso a casa, senti-me incomodado com a constatação de que a maioria das relações entre as pessoas são assim, ligeiras e superficiais. Duram enquanto não surgem desafios que as expõem na sua futilidade e fachada.

Porque afinal a onda é apenas curtir uma boa.
Cada um na sua.
publicado por shark às 10:58 | linque da posta | sou todo ouvidos