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Falamos de raízes como se fôssemos árvores. De onde vim? De quem vim? Valorizamos os antecedentes, os antepassados, as pessoas e os lugares que nos moldaram antes de a vida tomar a seu cargo essa missão.
O que somos é determinado por pessoas, por lugares e por circunstâncias aleatórias que desenham os caminhos que percorremos e a forma como nos entendemos ao longo do percurso. São uma referência, quase uma explicação para o que somos enquanto mistura genética.
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Por iniciativa da minha marafilha pude celebrar a minha entrada numa nova etapa, agora sou sexagenário, no último espaço físico relacionado com os meus ancestrais que me faltava pisar: a terra de origem do meu avô materno, a ilha da Madeira.
Nada do que ouvi dizer, nada do que vi em imagens, nada do que imaginei me preparou para o que experimentei neste calhau no meio do Atlântico onde nasceu e cresceu um madeirense de cuja fuga para o continente viria a resultar um amor proscrito, clandestino, com a mulher extraordinária que foi a minha avó Rosa.
Das três filhas que esse amor tão intenso quanto dramático produziu calhou ser eu o primogénito da sua primogénita, a mais velha das herdeiras bastardas a quem só daria o apelido na fase final da sua existência. Foi a fase em que o conheci, já adolescente, e ele já velho e doente em busca da redenção.
Reneguei-o, como ao apelido que acrescentou aos nomes das filhas deixadas por criar à minha avó quando entendeu regressar à primeira família que desertou no dia em que deixou a ilha, mulher e um filho, para a sua aventura continental. Vi-o duas vezes e em ambas apenas lhe exibi o meu desprezo pelo repúdio que me causou a sua história de vida, pela traição como a senti pelo que fez à única pessoa da família com a qual até hoje mais me identifico e me revejo. A minha avó Rosa ficou sozinha, num país brutalmente conservador, sem nunca ter tido um emprego, com três filhas nos braços e um estatuto que a sociedade da época considerava marginal.
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Contudo, o tempo cicatriza rancores e, por outro lado, o manto de silêncio envergonhado com que as peripécias do Manuel Henrique foram cobertas pela família nunca me permitiram uma análise rigorosa e justa ao comportamento, para mim indesculpável, daquele homem cujo sangue me corre nas veias e cuja memória sempre me serviu de exemplo a jamais seguir. É fácil julgar, é fácil condenar quando apenas sabemos da verdade uma parcela. E a parcela mais marcante foi a que li nos olhos da mulher que ele abandonou mas a quem ela amou até ao último suspiro.
A terra do meu avô é o Portugal mais intenso que até hoje conheci. A natureza não facilitou a vida a quem decidiu ou se viu forçado a criar as tais raízes no meio das muitas já existentes do arvoredo que pintou um borrão verde no meio de uma imensidão azul. O suor de muitas gerações madeirenses que encaixaram à força as vidas neste pedaço tuga insular está ilustrado pela disposição do casario debruçado sobre barrancos, construído a custo no espaço inclinado à beira-mar ou, ainda mais surpreendente, no meio do cenário agreste entre montes onde um continental lisboeta consideraria impensável morar alguém.
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A terra do meu avô tem muitos sítios de cortar a respiração pela imponência e outros de encher o peito de ar puro e a vista com horizontes sem fim. E tem gente rija, endurecida pela necessidade de enfrentar os desafios de uma topografia arisca ao longo de séculos com um grau de abandono ainda maior do que sofreram e ainda sofrem muitas zonas do interior continental.
Porém, são gentes aparentemente sisudas mas com um sorriso fácil de suscitar. Basta um cumprimento afável para revelarem a natureza bem nossa que nos torna grandes anfitriões para os de fora, como sempre merecemos ser entendidos por via da distância que nos permitimos criar com este tão diferente e tão impressionante pedaço de nós, portugueses que somos e facilmente nos reconhecemos por detrás da pronúncia vincada e das características próprias de quem tanto precisou de lutar para conquistar esta terra inóspita e muitas vezes hostil.
A Madeira é um jardim porque as portuguesas e os portugueses que a habitam a fizeram assim, sustentados apenas pela força a que sempre foram obrigados pelos chamados custos da insularidade e pela fé. Sinto um profundo respeito por estes compatriotas e entendo-os agora como um motivo de orgulho e de vaidade, a vaidade que sinto por partilhar os genes, a mesma origem deste povo que me faz sentir em casa depois de uma vida sem os olhar com a mesma atenção que prestei aos que tinha mais à mão.
A terra do meu avô fez-me explodir de emoção, fez-me rir e fez-me chorar, fez-me mergulhar ainda mais fundo no sentir português como o defino.
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Estou deslumbrado com tudo o que vi nesta ilha, do Curral das Freiras à Fajã da Ovelha, do Caniçal à Ponta do Pargo, do Funchal a Porto da Cruz. Estou deliciado com tudo o que comi e bebi, das lapas às espetadas, das bananas às picadas. E a poncha, ai a poncha…
Estou também impressionado com a arte e o engenho destes tugas para ultrapassarem obstáculos, com a tenacidade necessária para construir uma vida neste ermo que transformaram numa das mais aprazíveis regiões de Portugal.
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Conhecer a Madeira permitiu-me também reconciliar-me com a memória do meu avô, por entender parte das circunstâncias que o influenciaram a tomar decisões com que ainda não concordo mas consigo interpretar à luz do que conheço agora da terra linda, mágica e intensa que o formou.
E acrescentou-me ainda mais amor ao país que partilhamos e à essência do que somos, qualquer que seja o espaço onde a alma tuga decida assentar.
Fotos: Shark