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CHARQUINHO

Sedento de aprendizagem, progrido pelos caminhos da vida numa busca incessante de espíritos sábios em corpos docentes. (sharkinho at gmail ponto com)

CHARQUINHO

Sedento de aprendizagem, progrido pelos caminhos da vida numa busca incessante de espíritos sábios em corpos docentes. (sharkinho at gmail ponto com)

31
Out25

A posta na pista

shark

Uma súbita vontade de abraçar a liberdade e de com ela dançar pelas ruas, imune aos olhares de tantas almas nuas de fulgor, incapazes de entenderem o amor que lhes soa ridículo, invejosas, as pessoas maldosas amarradas a grilhões que lhes amordaçam os corações ao ponto de desdenharem a felicidade de alguém que dança em liberdade a euforia de viver.

 

Um desejo irreprimível de dizer as coisas que afirmam ser impossível permitir porque podem colidir com sensibilidades estapafúrdias de quem odeia verdades proibidas pela lógica fria da mais vulgar hipocrisia que preferem abraçar, tristeza, no lugar da livre expressão da beleza de um sentir mais espontâneo.

 

A alegria do amor instantâneo, à primeira vista, por algo ou alguém que de repente nos conquista com um olhar fascinante ou com palavras que funcionam como semente para uma flor que oferecemos no meio da pista de dança onde abraçamos a confiança que nos transmite, sermos livres sem que se hesite no usufruto de uma paixão ou de qualquer outra emoção, rejeitando uma forma clandestina que satisfaça quem olha e desatina com o sorriso aberto mais a chama no peito de quem dança, sem restrições, as suas almas livres e as convicções gritadas nos orgasmos mentais dos que nunca acham demais o amor.

 

Um tango dançado no meio da estrada, um abraço apertado e uma boca beijada, tudo aquilo que se escreve ou se diz acerca da simplicidade de ser feliz quando a liberdade mais pura ordena.

 

Emudecida a censura, rompida a clausura, mesmo depois de a chuva começar a cair.  

nevergiveup2.jfif

Foto: Shark

30
Out25

A posta na costela madeirense

shark

rodape.jpg

 

Falamos de raízes como se fôssemos árvores. De onde vim? De quem vim? Valorizamos os antecedentes, os antepassados, as pessoas e os lugares que nos moldaram antes de a vida tomar a seu cargo essa missão.

O que somos é determinado por pessoas, por lugares e por circunstâncias aleatórias que desenham os caminhos que percorremos e a forma como nos entendemos ao longo do percurso. São uma referência, quase uma explicação para o que somos enquanto mistura genética.

brutal.jfif

 

Por iniciativa da minha marafilha pude celebrar a minha entrada numa nova etapa, agora sou sexagenário, no último espaço físico relacionado com os meus ancestrais que me faltava pisar: a terra de origem do meu avô materno, a ilha da Madeira.

Nada do que ouvi dizer, nada do que vi em imagens, nada do que imaginei me preparou para o que experimentei neste calhau no meio do Atlântico onde nasceu e cresceu um madeirense de cuja fuga para o continente viria a resultar um amor proscrito, clandestino, com a mulher extraordinária que foi a minha avó Rosa.

 

Das três filhas que esse amor tão intenso quanto dramático produziu calhou ser eu o primogénito da sua primogénita, a mais velha das herdeiras bastardas a quem só daria o apelido na fase final da sua existência. Foi a fase em que o conheci, já adolescente, e ele já velho e doente em busca da redenção.

Reneguei-o, como ao apelido que acrescentou aos nomes das filhas deixadas por criar à minha avó quando entendeu regressar à primeira família que desertou no dia em que deixou a ilha, mulher e um filho, para a sua aventura continental. Vi-o duas vezes e em ambas apenas lhe exibi o meu desprezo pelo repúdio que me causou a sua história de vida, pela traição como a senti pelo que fez à única pessoa da família com a qual até hoje mais me identifico e me revejo. A minha avó Rosa ficou sozinha, num país brutalmente conservador, sem nunca ter tido um emprego, com três filhas nos braços e um estatuto que a sociedade da época considerava marginal.

rasgosdefe.jfif

Contudo, o tempo cicatriza rancores e, por outro lado, o manto de silêncio envergonhado com que as peripécias do Manuel Henrique foram cobertas pela família nunca me permitiram uma análise rigorosa e justa ao comportamento, para mim indesculpável, daquele homem cujo sangue me corre nas veias e cuja memória sempre me serviu de exemplo a jamais seguir. É fácil julgar, é fácil condenar quando apenas sabemos da verdade uma parcela. E a parcela mais marcante foi a que li nos olhos da mulher que ele abandonou mas a quem ela amou até ao último suspiro.

 

A terra do meu avô é o Portugal mais intenso que até hoje conheci. A natureza não facilitou a vida a quem decidiu ou se viu forçado a criar as tais raízes no meio das muitas já existentes do arvoredo que pintou um borrão verde no meio de uma imensidão azul. O suor de muitas gerações madeirenses que encaixaram à força as vidas neste pedaço tuga insular está ilustrado pela disposição do casario debruçado sobre barrancos, construído a custo no espaço inclinado à beira-mar ou, ainda mais surpreendente, no meio do cenário agreste entre montes onde um continental lisboeta consideraria impensável morar alguém.

verdeazul.jfif

A terra do meu avô tem muitos sítios de cortar a respiração pela imponência e outros de encher o peito de ar puro e a vista com horizontes sem fim. E tem gente rija, endurecida pela necessidade de enfrentar os desafios de uma topografia arisca ao longo de séculos com um grau de abandono ainda maior do que sofreram e ainda sofrem muitas zonas do interior continental.

Porém, são gentes aparentemente sisudas mas com um sorriso fácil de suscitar. Basta um cumprimento afável para revelarem a natureza bem nossa que nos torna grandes anfitriões para os de fora, como sempre merecemos ser entendidos por via da distância que nos permitimos criar com este tão diferente e tão impressionante pedaço de nós, portugueses que somos e facilmente nos reconhecemos por detrás da pronúncia vincada e das características próprias de quem tanto precisou de lutar para conquistar esta terra inóspita e muitas vezes hostil.

A Madeira é um jardim porque as portuguesas e os portugueses que a habitam a fizeram assim, sustentados apenas pela força a que sempre foram obrigados pelos chamados custos da insularidade e pela fé. Sinto um profundo respeito por estes compatriotas e entendo-os agora como um motivo de orgulho e de vaidade, a vaidade que sinto por partilhar os genes, a mesma origem deste povo que me faz sentir em casa depois de uma vida sem os olhar com a mesma atenção que prestei aos que tinha mais à mão.

A terra do meu avô fez-me explodir de emoção, fez-me rir e fez-me chorar, fez-me mergulhar ainda mais fundo no sentir português como o defino.

cascata.jfif

 

Estou deslumbrado com tudo o que vi nesta ilha, do Curral das Freiras à Fajã da Ovelha, do Caniçal à Ponta do Pargo, do Funchal a Porto da Cruz. Estou deliciado com tudo o que comi e bebi, das lapas às espetadas, das bananas às picadas. E a poncha, ai a poncha…

Estou também impressionado com a arte e o engenho destes tugas para ultrapassarem obstáculos, com a tenacidade necessária para construir uma vida neste ermo que transformaram numa das mais aprazíveis regiões de Portugal.

doceu.jfif

 

Conhecer a Madeira permitiu-me também reconciliar-me com a memória do meu avô, por entender parte das circunstâncias que o influenciaram a tomar decisões com que ainda não concordo mas consigo interpretar à luz do que conheço agora da terra linda, mágica e intensa que o formou.

E acrescentou-me ainda mais amor ao país que partilhamos e à essência do que somos, qualquer que seja o espaço onde a alma tuga decida assentar.

Fotos: Shark

30
Out25

A posta no refúgio

shark

De casa principal este espaço passou a casa secundária, como tantos outros. Assim uma espécie de casa de campo confortável mas demasiado distante para a frequentarmos com frequência.
Sente-se a falta deste sossego, desta possibilidade de escrever como dantes, sem limitação de carateres, e agora sem a agitação de outrora.
Uma casa secundária onde venho de vez em quando limpar o pó, abrir as janelas para sair o cheiro a mofo e matar as saudades.

E para fazer pequenas reparações, a ver se o imóvel não desaba.

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