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CHARQUINHO

Sedento de aprendizagem, progrido pelos caminhos da vida numa busca incessante de espíritos sábios em corpos docentes. (sharkinho at gmail ponto com)

CHARQUINHO

Sedento de aprendizagem, progrido pelos caminhos da vida numa busca incessante de espíritos sábios em corpos docentes. (sharkinho at gmail ponto com)

15
Jun21

Muito para além de ti

shark

Um nome.

Duas datas.

Um espaço em branco.

 

E o silêncio em redor de tudo aquilo, como se fosse preciso calar a vida para lá dos muros bem altos que o cercavam agora.

Muros brancos, muros limpos de palavras, silenciosos eles também como guardiães de um território que era terra de ninguém quando a noite aparecia e fechavam os portões à vida que os visitava, os nomes, as datas e os espaços em branco que durante o dia muitas pessoas tentavam ali preencher, com lágrimas, com sorrisos, com memórias, com emoções que eram histórias por contar.

 

Um nome.

Duas datas.

 

A pessoa arquivada no ficheiro terminal, o dia do início da caminhada mais o dia da transição final. Ou talvez não. E entre esses dias toda uma vida que é agora o espaço em branco entre datas que contraria a escuridão que a saudade obriga a pintar.

Mas cada lembrança é um pedaço de cor, um conjunto de palavras que podem ser gravadas na pedra com o cinzel da imaginação.

Histórias de vida com nome e com rosto, lágrimas e sorrisos, memórias e emoções acontecidas lá fora, para lá daqueles muros brancos que a noite escurecia como se a luz tivesse naquele lugar o mesmo efeito perturbador que o som.

 

Um nome.

  

Escrito com tinta preta mesmo por cima do espaço (em) branco onde ninguém conseguiu resumir tudo aquilo que se passou com aquela pessoa entre as duas datas que a identificam enquanto pedaço de tempo com um princípio e com, talvez, um fim.

O amor que lhe dedicaram, os ódios que inspirou. Tudo aquilo que se passou entre datas, experimentado por quem lembra e por quem já possua também duas datas depois do nome e de um espaço por preencher com o desgosto de uma mulher ou de um homem esmagados com o fardo de resumir o que aquela pessoa valeu, tudo ou nada, agora que se perdeu, num espaço reduzido que não serve o propósito quando a pessoa em vida se agigantou entre a data que marcou o início da jornada e a data em que acabou a estrada que aquela existência percorria.

 

E para contar a sua história, um só livro não bastaria.

11
Jun21

A posta que essa pessoa é minha conhecida

shark

Quão frágeis, as ligações estabelecidas. Barcos atracados ao porto por fitas de embrulho com lacinhos no fim, amarras simbólicas à mercê da minha ligeira ondulação. Aglomerados em função de rituais indispensáveis de cujo cumprimento depende o benefício da integração num grupo qualquer.

Muito fraca, a sustentação da estrutura assente nos pés de barro que alicerçam a construção de uma farsa obrigatória, de uma fachada aceitável para exibir. Exposta à pressão de cada momento, ao sopro permanente do vento levantado por murmúrios coscuvilheiros e sussurros mal contidos que podem a todo o instante as paredes têm ouvidos, descambar num vendaval.

Preferível ensurdecer, ou mesmo nem querer ver a realidade como ela se apresenta. Maquilhada em profusão, escavacada por detrás. Danificada pela erosão que atribuem ao tempo entretanto passado e no qual, na verdade, prefeririam ter permanecido a sós.

 

 

 

07
Jun21

A posta nos afectos

shark

De entre os vários medos inspirados pela pandemia, um dos que mais me suscitam aversão é o da perda de relevância de uma simples carícia. Uma carícia de forma genérica, espontânea e instintiva, daquelas que se dão, com o devido tom, a um filho, a uma amiga, a um parceiro de vida, a uma pessoa vulnerável cujo caminho com o nosso se cruzou. Apenas o gesto, com o que transmite e com o que representa.

A carícia é dos mais elementares gestos de amizade ou de amor traduzidos num toque. Tem um efeito poderoso nas pessoas. É imprescindível no contacto humano, a qualquer nível. E a pandemia tornou-a numa espécie de ameaça. É isso que me assusta, demasiada gente, demasiado tempo, privada de carícias e a entendê-las sob o estigma de um contágio possível. A aprender a dispensá-las.

Uma carícia, como reacção imediata à necessidade de alguém ou apenas como manifestação do nosso carinho, do nosso afecto, do nosso amor, do nosso desejo por outro ser humano. Pode ser um afago como um abraço. Pode ser um beijo ou um sorriso. Mas é vital, para mantermos a proximidade, a necessidade uns dos outros que nos trouxe até aqui. Nada de que possamos abdicar, nada que possamos considerar descartável em qualquer contexto vindouro.

É um poder muito humano que até os animais apreciam e do qual seríamos tolos ao prescindir. Faz toda a diferença numa existência dita normal e ainda mais numa das outras. É balsâmico, revigorante, um alicerce de confiança entre as partes envolvidas. 

À flor da pele, essa sede de contacto de que quase todos padecemos, ou antes à distância prudente de um sorriso ou de um olhar. Mas com tudo aquilo que pode e deve implicar, respeito pelo que de melhor conseguimos encontrar em nós próprios para partilhar com os outros. 

E essa é uma forma de contágio da qual nada temos a temer.

03
Jun21

A posta na excelência camuflada

shark

Sempre que algo no país funciona menos bem, a tendência corrente é para culpar "os portugueses" no seu todo, numa espécie de atestado de incompetência generalizado em matéria de capacidade e de desempenho.

Contudo, sempre que nos é exigido o melhor damos ainda mais. Basta acreditarmos no objectivo e respeitarmos a liderança. Os resultados obtidos no processo de vacinação a partir da entrada em cena do Contra Almirante Gouveia e Melo ilustram isso mesmo, na perfeição.

 

Os dias da bagunça ameaçaram tornar-se no maior aliado dos negacionistas, dos anti vacinas que, dessa forma, puderam descredibilizar as vacinas e ainda acrescentar a desconfiança em todo o processo e nos respectivos responsáveis. Era mais um exemplo da tal alegada incapacidade tuga para se organizar, para se disciplinar, para conceber e aplicar métodos eficazes seja no que for.

O desempenho das nossas gentes no estrangeiro é reconhecido como notável, sob qualquer perspectiva e desde a execução de funções de limpeza, passando pela arte e pelo desporto, até ao mais alto nível académico. Louvam-se os méritos portugueses em todos os cargos de responsabilidade pelo quais passaram. E depois, em Portugal, parece existirem outras pessoas, sistematicamente depreciadas pelos seus conterrâneos e descrentes em si mesmas, nos outros e no próprio país.

Gouveia e Melo, pelos traços de carácter e pela disciplina intrínseca do raciocínio militar, está a fazer o que é preciso para extrair da nossa população o que ela tem de melhor. Liderança forte, imposta pelo acerto nas decisões, pela firmeza nas posições e pelos resultados práticos que não tardaram.

Devidamente organizados, com a consciência do seu papel no funcionamento global de uma estrutura e com objectivos traçados para cumprir, tem dado gosto assistir a todo o processo de vacinação e enche-nos de vaidade o esmero com que o país está a tratar da nossa protecção. Sim, muito acima do que tantos países "tão melhores" do que o nosso se têm mostrado capazes.

A bagunça a que o coordenador pôs termo, sem agitação ou alarido, quase de um dia para o outro, era o tal país disfuncional de que nos queixamos. A organização quase imaculada, a estratégia que designou e esquematizou, são o país que mostramos lá fora quando puxamos pelos brios que nos fazem querer provar-nos tão bons ou melhores do que os outros e nos enchem a boca de orgulho quando falamos de Portugal.

 

É essa, no fundo, a receita ganhadora para virar do avesso o nosso país a partir de dentro. Com os que cá estamos, com os que vejam criadas as condições para que possam regressar e fazerem tão bem ou melhor pelo nosso o que fazem nos países dos outros, com os de fora que entendam este pedaço de paraíso como uma Pátria a abraçar. 

Liderança respeitada e reconhecida, planeamento e organização, objectivos audazes e nenhuma margem de manobra para quem os tente boicotar de alguma forma, por interesses individuais ou de pequenos feudos perniciosos. Orgulho no papel individual na construção de um projecto colectivo que a todos sirva, vontade de mostrar ao mundo do que somos capazes quando arregaçamos as mangas e confiamos no que e em quem nos manda fazer.

 

É essa, no fundo, a mensagem transmitida pela actuação de quem, no SNS e sob pressão esmagadora, tanto tem brilhado, como noutros sectores vitais que não nos falharam em plena pandemia, como no que de simbólico restará no rasto deixado, no legado que o Contra Almirante nos prepara, para aprendermos o que exigir a quem confiamos a responsabilidade de nos liderar.

Ninguém nos agarra.

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