FAZ-TE BEM, AFASTARES-TE DE MIM

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Disse-lhe ele em tom paternalista, descontraído, mais uma vez. E ela esboçou o sorriso amarelo possível a quem não pode protestar sem ao mesmo tempo experimentar uma estranha forma de humilhação. Mas engoliu a pasta viscosa de indignação com tristeza mais a revolta batida em castelo, tão clara como a certeza que ele acabava de lhe (re)transmitir.
Sem réstia de fé, ela prosseguiu com a explicação do afastamento temporário como consequência de inúmeras partidas que a falta de empenho dele lhe pregava. Magoada pelo desmazelo, gritava-lhe em voz baixa, inaudível, que lhe pedisse para ficar perto, que lhe pedisse desculpa, humilde, por aquilo que ele desvalorizava, por sistema, como simples lapsos ou distracções que deixava cair a toda hora em cima dos dedos dos pés imaginários de um amor já sem pernas para andar.

E ele insistia, deixa-te disso e bute curtir. Numa boa, assim o queria, brincamos ao faz de conta e a coisa resulta na mesma. Mas não era assim que ela pretendia. Pedia-lhe respeito e cortesia e ele refugiava-se na sua falta de pachorra para as formas mais sérias de fazer as coisas.
Aligeira, dizia ele, que tudo correrá melhor.

E ela abria o jogo, lutava. Por aquilo que acreditava ser indispensável para justificar uma relação digna de tal nome. Mas perdia. Vezes sem conta, goleada, pontapés na boca virtuais. Até a esperança lhe chamar maluca e abandonar o ringue de forma voluntária.

Aconteceria quando ele menos esperava, sem hora marcada, sem qualquer agitação. Apenas a constatação da influência que ele exercia, levada à letra, mas nos termos que ela decidisse impor. O fim absoluto das ilusões romanescas, a ligação descomprometida e livre dos condicionalismos que tanto o atormentavam, liberal, quando ela os defendia. A faca de dois gumes para a arrogância masculina, expressa na resposta que ela escondeu por detrás de um sorriso ligeiro, no meio de um pensamento que pela primeira vez a invadiu, quando finalmente caiu em si.

(Não perdes pela demora…)

E não perdi. Pouco tempo depois, há cerca de vinte anos, descobri a minha pequena costela conservadora.
publicado por shark às 21:50 | linque da posta | sou todo ouvidos