EM SENTIDO FIGURADO

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Concentrou o olhar na pequena caixa em cima da mesa. Deixou-se estar, dentro de si, sentado numa cadeira imaginada a contemplar o receptáculo de algo que desconhecia mas que presumia tratar-se de uma parte significativa daquilo que o compunha.
Algo de que sentia a falta, mesmo sem saber do que se tratava, encerrado naquela caixa pousada numa mesa desenhada pela imaginação dentro de um crânio com arame farpado e um guarda armado para evitar as intrusões. Para sua protecção, incapaz de permitir que algum curioso emboscado pudesse observar em simultâneo o que pressentia como uma revelação.

Tentava controlar as emoções e só aí lhes dava pela falta, a sua reprodução mental sentada num espaço imaginário com fundo cinzento como um horizonte de temporal. A ausência mais notada e a caixa apontada como principal suspeita de conter algo que lhe pertencia, de forma ilegítima. Imoral.

Olhou a caixa com um ar circunspecto, agente secreto, detective particular. Lá dentro a resposta, certamente. E ele antecipava o gosto da vitória pelo desvendar do mistério, mesmo ao alcance da sua mão sonhada naquela figura sentada sem nexo no meio de um ambiente sombrio.
Fantasmas em seu redor, ameaças. Comiam como traças os retalhos de tecido do seu uniforme de soldado desertor. Fugira do amor, em plena batalha, incapaz de pactuar com a disciplina militar que lhe impunham os sargentos instrutores.

Esburacado, como se sentia. E seguramente preferia sentir-se embaraçado perante uma plateia, semi-nu, do que enfrentar o julgamento que se impunha, carrasco e juiz, daquilo que sentia como mais uma pequena facada na carne retalhada da sua esperança em agonia final.
E a caixa, se calhar, continha a sentença que apreciava de fora com os olhos que a sua cabeça inventava para lhe proporcionar o triste espectáculo das suas introspecções num ecrã panorâmico com imagens em três dimensões.

Esticou a mão para a abrir, culpado da loucura que lhe agravava a pena com a vontade irreprimível de se auto-flagelar. Suportava as culpas alheias mais as vinganças merecidas pelas suas reacções. Na caixa as punições que o aguardavam e ele de mão esticada para soltar os demónios dentro de si, outra vez.

Afinal quando a abriu contemplou o vazio.
E cruzou os braços, fatigado, o que em sentido figurado simbolizava as lágrimas que se sentia incapaz de verter.
publicado por shark às 10:29 | linque da posta | sou todo ouvidos