Há muitos anos atrás estive empenhado na obtenção de um lugar numa força da autoridade. Fui submetido a umas quatro ou cinco provas (psicotécnicos) e duas entrevistas pessoais que eliminaram sucessivamente mais de cinco mil candidatos até restarmos pouco mais de noventa para a prova final, os testes de aptidão física.
Tenho a plena consciência de que se algo de impeditivo houvesse na minha carola ou na minha atitude seria impossível essa falha ficar por descobrir naquele crivo apertado ao qual só faltava submeterem-nos a um detector de mentiras. Não havia nada na minha personalidade que pudesse afastar-me do cargo pretendido, o que muito me orgulhou na altura e foi, de resto, o que restou dessa aventura de meses que culminaram comigo a tentar arrastar um calmeirão, sob um sol incandescente em pleno Verão, até ao final de um teste cooper e acabarmos ambos eliminados por menos de um minuto acima do tempo máximo de duração da prova.
Este episódio estritamente pessoal partilho-o convosco por achar que vem a talhe de foice por causa da notícia da detenção do presidente do FMI por abuso sexual de uma empregada de limpeza do hotel onde pernoitou.
E agora perguntarão: que raio de associação de ideias vai na carola marada deste bacano?
É inegável que enquanto existem povos na fase de reclamarem e instaurarem a democracia nos seus países temos a sorte de já estarmos na fase de a renovarmos, de a expurgarmos de todos os males que a atormentam e levam alguns a questioná-la ou mesmo a abandoná-la à sua sorte.
Um dos problemas de que a democracia padece é o fraco nível dos seus protagonistas. Os líderes nacionais (e mundiais) inspiram cada vez menos respeito e confiança.
Episódios como este que me fez recordar a dureza e o rigor das provas a que me submeteram para depois me negarem o lugar por um minuto a mais e nas circunstâncias que refiro, sem terem em conta, por exemplo, os 150 quilogramas que levantei num halter quando 120 teriam bastado ou o facto de ser muito mais importante o meu calibre mental e moral do que o jeito para as correrias, são golpes letais na credibilidade daqueles a quem confiamos a gestão das mais importantes decisões para as nossas vidas.
Em causa está a personalidade dos mandantes e o quanto é determinante podermos confiar nessa gente com tanto poder e afinal capaz de cometer crimes como o que pode levar o Dominique do FMI a umas décadas de céu aos quadradinhos.
A tal associação de ideias nasceu do facto de para um lugar numa força de segurança uma pessoa ser escrutinada até aos artelhos e, apesar de ser cada vez mais óbvia a necessidade de filtrar o sistema nos topos da hierarquia para salvaguardar os interesses comuns, ser possível um fulano com nítida propensão (existe um histórico de antecedentes neste caso concreto e existem exemplos como o de um antigo presidente israelita, provado na mesma culpa, para vermos que a coisa é possível de acontecer) para os excessos na conduta.
Não acredito numa divisão entre o público e o privado quando estão em causa líderes de nações ou de instituições multinacionais poderosas que possam estar envolvidos em actos criminosos ou mesmo que possam indiciá-los.
Assumo: exijo saber se um líder político é pedófilo. É um direito meu. Jamais votaria em tal criatura ou lhe admitiria sequer o acesso aos corredores do poder. Se é crime deixa de ser privado e passa a público por inerência.
Da mesma forma, e porque não advogo caças às bruxas com base naquilo a que grandes economistas da nossa praça chamariam pintelhices, não acho ser meu direito conhecer as preferências sexuais de um político. Não tenho nada a ver com isso até ao momento em que possa interferir de forma directa no exercício da função desempenhada.
Ou seja, a linha que traço entre o público e o privado passa pela que distingue um crime de um acto normal, partindo do princípio razoável de que se um político favorece qualquer grupo de interesses apenas por coincidirem com os seus a título individual isso é criminoso e lá temos que arrastar algo do foro privado para o domínio público.
Assim sendo, não vejo porque os políticos não são submetidos a provas ainda mais rigorosas do que aquelas com que tentaram perceber-me capaz de utilizar uma arma com bom senso ou de tomar uma decisão racional sob circunstâncias extremas. O princípio é o mesmo, evitar que pulhas e outros indesejáveis possam ter acesso a poderes que interfiram de forma directa no quotidiano dos cidadãos.
E gostava de conseguir dar um palpite acerca de quantos líderes restariam no activo depois de submetidos a tais provas de admissão, mas porque preciso de acreditar nos mecanismos democráticos acho que iria sempre pecar por excesso...
Assusta-me, esta evidência de que o CDS/PP está mais preparado para ser Governo do que o principal partido da oposição.
Sentia-se no meio de um espaço fechado, de um espaço apertado que sufocava até as palavras por dizer, a revolta por gritar mesmo antes do nó que na garganta entretanto se formou.
Por entre a lividez explodia-lhe o olhar que parecia procurar um ponto de referência, parecia querer agarrar-se a uma tábua de salvação que acabasse com a dificuldade de respirar, um fogo medonho naquele olhar que parecia procurar no horizonte um extintor que apagasse aquele rastilho que sentia queimar, por dentro.
Sentia-se num poço inundado, um poço sem fundo onde caía sem saber se voltaria a pousar os pés em terra firme, a raiva por libertar mesmo no centro do peito que marcava o ritmo a galope num planalto da sua mente e a beira do precipício logo ali, a atracção do abismo a chamar por si e o olhar vidrado, o olhar embaciado pelas emoções condensadas, as lágrimas evaporadas, por dentro.
Sentia-se no meio de um mar agitado, de um mar revoltado pela força do vento e pela corrente do pensamento, o ódio por exprimir mesmo por detrás das pálpebras semicerradas que entretanto fechou.
Precisava pensar direito, tentou encontrar um efeito contrário ao da espiral descendente que arrastava para o centro do remoinho onde se afogava já parte da esperança que não queria soltar à sua sorte, não queria condená-la à mesma morte que acontecia numa parte de si naquele preciso momento, numa parte devastada pelo desgosto que a consumia.
Por dentro.
Se quiserem ler mais um pequeno desabafo inconsequente acerca de um qualquer pequeno drama do quotidiano têm que dar um pulinho ali.
Uma das mais arcaicas sumidades laranja entendeu dar uma pala bloquista a meio de uma entrevista à SIC Notícias, libertando a alma e o discurso até ao nível da mesa de café.
Certamente os analistas saberão dissecar a questão sob o prisma da política, tal como os mais conservadores social-democratas, chocados, já procuram de entre as múltiplas opções preconizadas no seu manual ilustrado de saídas airosas para figuras incómodas e obstáculos de qualquer cor (sem excepções) a mais adequada para Catroga, faltando-lhes apenas decidirem-se entre o exílio partidário temporário ou o asilo político definitivo.
Contudo, a expressão lançada pelo cromo para apimentar o caldo eleitoral (nem o Nobre conseguiria fazer melhor) com a malagueta da sinceridade na língua oferece outras abordagens que não são à direita nem à esquerda mas em pleno cerne da questão.
A primeira polémica directamente associada ao que ficará talvez na história do vernáculo mediático ao mesmo nível dos cornos na Tourada do Fernando Tordo (e talvez até na do Manuel Pinho) consiste na própria grafia da coisa: pentelho para uns, mais puristas, pintelho para outros.
Ainda não tive oportunidade para me debruçar sobre a fonética do termo pela boca de Catroga mas assumo-me desde já integrado na corrente que prefere o ponto no “i”. E a avaliar pelo contexto em que o ex-Ministro parecia cuspir a palavra será essa versão popular (a que mais enche a boca quando pronunciada) também da sua preferência.
Quiçá por esta hipotética proximidade entre as vogais das nossas pintelhices, quase me sinto tentado a desculpar o homem, pegando pela espontaneidade tão rara e assim.
Até porque, bem vistas as coisas, Catroga acaba por introduzir com o seu arrojo uma ligação directa entre a política (cada vez mais enfadonha) e o sexo (cada vez mais), pois é sabida a rapidez de associações de ideias da malta e puxam sempre para a paródia.
Claro que se nestas coisas pela boca morre o peixe, calhou ao Eduardo fugir-lhe a dita precisamente para um termo que remete as mentes mais libidinosas para a oralidade da coisa. Se calhar, maroto, até fez de propósito, conhecedor das tropelias que um simples pelo encaracolado pode provocar num outro domínio que não o da política partidária.
Se calhar, saturado de ter que falar tanto acerca de factos não consumados, promessas, entendeu deixar escapar uma mensagem subliminar para o eleitorado nas entrelinhas e que não poderia arriscar de forma ainda mais frontal, dentro da mesma onda pintelheira:
Eles (PS) só querem falar de pintelhos para vos apanharem distraídos, mas connosco (PSD) não é só conversa. Vão ser mesmo bem fodidos…
Dentro de algumas horas um imbecil país africano prepara-se para abrir um precedente vergonhoso e sem atenuantes na sua estupidez, instaurando a pena de morte pelo crime de… homossexualidade.
Custa a acreditar, mas é mesmo disso que se trata, da consagração legislativa de um comportamento vil (da maioria da população) levando-o ao extremo com a pena capital.
Eu não sou homossexual, mas da mesma forma que não preciso ser mulher para me indignar com algumas atrocidades por elas sofridas em países tão imbecis e cruéis como o Uganda, terra sem lei porque quem a escreve está fora dela, entendo o desconforto de quantos o sejam fora daquele país e o medo dos que lá ficarem. Matar uma pessoa por ser homossexual é exactamente igual a fazê-lo por ser judia, comunista ou preta, como a maioria da população daquela nação que pretende fazer história pela negativa.
Um assassinato não se lava com a respectiva institucionalização. E é de assassinato que se trata, sempre que uma pena de morte é aplicada. Mais ainda quando é justificada pela simples eliminação da diferença, de uma qualquer característica que distinga um cidadão de qualquer maioria. O pretexto não cola, mesmo numa terra sem lei onde um jornal se deu ao luxo de publicar com destaque os rostos e as identidades de pessoas alegadamente homossexuais, marcando-lhes a ferros a existência de uma forma mais eficaz do que a das tristemente célebres braçadeiras nazis que identificavam nas ruas os judeus.
É isso que pode vir a acontecer no parlamento do Uganda se não conseguirem adiar a votação dessa lei por 48 horas, no final das quais ficará para sempre inviabilizada.
E se isso vier a acontecer e esse país de imbecis não sofrer sérias consequências por parte dos países mais poderosos teremos reaberto o caminho de regresso ao que o mundo tem de pior para mostrar de si, sobretudo se a moda alastrar a outras terras sem lei e com falta de argumentos dos seus lideres para se manterem no poder.
Teremos mais um sinal claro de que está tudo doido e antes que a coisa descambe é urgente encontrar soluções para manter alguma ordem e bom senso neste manicómio global.
Por muito que existam tentativas débeis (zonas de construção a custos controlados) ou simplesmente desastradas (implantação de bairros sociais em pleno tecido urbano) por parte dos municípios citadinos, a tendência é inevitável: os habitantes menos abastados acabam por se verem obrigados a procurar habitação na periferia, numa espécie de selecção natural sistemática que consolida nas grandes cidades uma elite com alguns direitos acautelados com muito maior acutilância do que a empregue nos dos cidadãos dos subúrbios, por norma entregues a autarquias próprias e, aparentemente, sem a mesma capacidade de intervenção.
Dúvidas que existam acerca do pressuposto acima começam por dissipar numa constatação fácil de obter na Grande Lisboa: fale-se em construir (ou mesmo manter em funcionamento) uma fábrica num bairro da capital e aqui d’El Rei. No entanto não é preciso ultrapassar muito os limites de Lisboa para encontrarmos unidade fabris poluentes paredes-meias com urbanizações dos arredores.
Por outro lado, basta inquirir qualquer cidadão se preferiria residir na Rinchoa ou no Parque das Nações para percebermos que só mora nos subúrbios quem não possui o poder de compra necessário para morar na própria cidade onde trabalha e provavelmente até nasceu.
Esta realidade, ignóbil no que toca aos milhares de fogos desabitados no centro da cidade por via das questões jurídicas e económicas que estagnam o mercado de arrendamento, suscita, para além da evidente e aparentemente inevitável separação das águas média e média-alta (com tudo o que isso implica, porquanto decorrente do normal funcionamento destas coisas do mercado), a desertificação progressiva das grandes cidades e subsequente sobrepovoamento dos seus subúrbios.
Os resultados desta fé imensa no livre funcionamento da economia já estão à vista em muitas zonas da periferia e só não se fazem sentir com maior intensidade nos bairros citadinos porque manda que pode e pode quem paga ou possui a influência necessária para fazer acontecer o que é preciso no seu quintal.
Na minha visão do futuro que esta evolução indicia as grandes cidades transformar-se-ão aos poucos em fortalezas resultantes da proliferação de condomínios fechados com segurança máxima e do nivelamento por cima de todos preços praticados no interior desses bastiões de uma forma de vida que os pelintras só atrapalham, uma espécie de efeito “consumo mínimo obrigatório” que acaba por afastar da cidade os que não o possam suportar.
E se é fácil apontar a dedo este tipo de problemas, expostos aos olhos de quem os queira ver, qualquer tipo de solução aventada adquire contornos ideológicos por contrariar ou favorecer pressupostos tão gratos ao binómio esquerda/direita a quem competem as decisões políticas e se anulam reciprocamente pela antítese resultante da aplicação prática das mesmas.
Ou seja, enquanto os decisores de direita rejeitarem qualquer tipo de limitação séria ao livre funcionamento e auto-regulação do mercado não há forma de evitar o fluxo que acima descrevo e enquanto os decisores da esquerda não forem capazes de nivelarem a defesa dos interesses da população menos abastada com a cedência moderada (ponderada também servia) às pressões da especulação imobiliária e outros fenómenos e grupos poderosos vamos assistir à evolução imparável desses anéis por rendimentos, a estratificação garantida, e confirmar que se o país fosse um corpo e a cidade fosse as suas costas, os subúrbios ficariam mais abaixo e seriam, pela lógica do raciocínio acima, o fundo das mesmas.
Passos Coelho acaba de afirmar no seu debate com Jerónimo (aproveitando a ausência de Sócras) que o Partido Socialista está a fazer terrorismo político.
Ainda antes daquele que será sem dúvida o debate mais propício para combater insónias posso avançar com um resumo da coisa:
vamos ter um a manter a tradição de só falar acerca daquilo que já se sabe e outro a manter o hábito de só falar daquilo que não percebe.
Um jantar à luz de velas não consegue ser tão romântico se isso se dever ao corte de fornecimento de energia eléctrica por atraso na liquidação da factura.
Um dos argumentos que habitualmente me esfregam nas ventas de cada vez que arrisco assumir o meu eurocepticismo é o de que enquanto entraram os milhões que melhoraram a nossa condição de vida não refilei.
Por acaso até refilei, quando percebi que investimos os ditos em cursos de formação da treta enquanto outros apostavam na dinamização da economia onde ela mais precisava. Mas isso não evita deixar-me sempre em maus lençóis perante aqueles que acreditam numa Europa unida e até federada.
Jamé, digo eu, a essa ideia tão peregrina aos meus olhos como a de uma Ibéria que me revolve as entranhas por lhe perceber a única e mesquinha motivação económica, equivalente em muitos aspectos às que impulsionam os euroentusiastas.
No entanto, e mesmo podendo alongar esta posta até quase à fronteira com Espanha com uma argumentação mais sustentada, existem alguns fundamentos que acredito razoáveis para esta minha aversão a qualquer tipo de fusões ou de federações ou mesmo de uniões que transcendam a simples associação de interesses económicos e financeiros, com Schengen e tudo mas sem o alinhar pela mesma bitola dos outros em matérias que dizem respeito apenas à soberania nacional da qual não abdico, ainda que muitos a dêem por perdida na sequência dos nossos problemas com o pilim.
Eu não acredito no modelo europeu de tendência federalista e jamais o levarei a sério enquanto nos Estados Unidos da Europa não deixarem de existir coisas tão estapafúrdias nesse contexto federal como haver diferentes salários mínimos nos Estados-Membro. É como imaginar salários mínimos distintos na Estremadura e no Alentejo.
Também não papo o grupo de uma Europa federada com exército comum enquanto houver países como a França e o Reino Unido a intervirem na Líbia tendo a Alemanha a manifestar o seu repúdio para quem a queira ouvir.
Aliás, isso deixa-me até de pé atrás quanto ao discernimento dos nossos parceiros europeus em caso de conflito de interesses directo entre dois ou mais dos restantes países da União. Basta uma seca prolongada para a questão das fronteiras mudar de figura e percebermos o que vale de facto esta subordinação a um poder central europeu.
Claro que toda a gente adivinha o apocalipse subsequente a deixarmos de pertencer a essa árvore das patacas que afinal produz euros, mas eu sou daqueles que gostam de acreditar que é na adversidade que os portugas mostram o seu melhor e recuso-me a aceitar a noção de que somos um país de putos incapazes de se orientarem a sós e sem a mão que nos embala o berço, sem esses tutores que, de resto, nem se têm revelado tão incólumes assim aos abanões externos desta maravilha que é a economia global.
Por isto e mais uns pós não embarco no grande sonho europeu. Não o acredito viável, não o acredito indispensável e não o acredito capaz de sobreviver aos extremos da adversidade, tão evidentes os nacionalismos à flor da pele.
E por isso, mais uma questão de instinto que me diz ser mesmo uma má ideia e a hesitação finlandesa comprova, só aceitaria uma ligação europeia isenta de interferências em assuntos que, em última análise e com ou sem tratados, quando toca a doer cada país trata dos seus.
Eu sou um português em aflição e mesmo assim sinto-me capaz de tratar dos meus.
Depois de um fim de semana absolutamente anormal, com o Benfica a ganhar, o Porto a empatar e o PSD a apresentar um programa de Governo, eis-nos em mais um início de ciclo com nada menos do que cinco dias úteis para podermos ajudar a Nação a sair da crise com uma produtividade doidona.
É uma maravilha ou não é?
Sempre investi no optimismo moderado no que respeita ao efeito da circulação acelerada da informação na internet. Se, por um lado, as revoluções já iniciadas e as que não tardarão a produzir-se em nações onde tal seria impensável, com as redes sociais a assumirem um protagonismo que me favorecia a melhor expectativa, acabam por constituir uma vitória para valores que nos são gratos, liberdade e democracia, não é menos verdade que a internet pode constituir uma ameaça real para qualquer cidadão pela crescente credibilidade atribuída a tudo quanto circula sem filtro na rede que apanhará sem dúvida muito peixe graúdo pela exposição dos seus esqueletos ocultos mas da mesma forma poderá conferir golpes irreversíveis em reputações comprovadamente imaculadas.
O dilema existe e já deu origem a algumas intervenções do foro jurídico, primeiras investidas do longo braço da lei no mundo virtual onde impera, pela própria dinâmica da net, a da selva. Os mais habilidosos têm ao dispôr uma ferramenta onde estão agora a entrar, depois da fornada inicial de gente maioritariamente jovem ou com formação superior, pessoas de todas as idades e percursos, fascinadas pelo fenómeno e sem o calo que as defenda das múltiplas armadilhas tão fáceis de criar por qualquer espertalhão.
A opinião pública, cada vez mais determinante nas opções dos decisores políticos a nível mundial, está pela primeira vez na História a fazer-se fora do âmbito dos media ou da propaganda tradicionais e já existem sinais claros do quanto cresce a influência deste novo meio na evolução das ideias e na formação de opiniões.
É aqui que entramos no terreno movediço do embuste, da bombástica divulgação de factos e até de alegados documentos cuja autenticidade ninguém pode validar, coisas que acabam por se desmascarar por questões de pormenor tão infantis como os seus criadores. O problema é que os diversos poderes podem dispor dos melhores e a neblina do anonimato é fácil de arquitectar.
Ou seja, é perigosamente fácil dar início a pelo menos um boato suficientemente propagado para obter o efeito da mentira mil vezes repetida e que no caso concreto pode ecoar junto de milhões.
Parece uma questão irrelevante, uma ameaça hipotética. Mas não é. A net, ironicamente um símbolo moderno da liberdade de expressão, é uma ameaça tão séria para as democracias que a promovem como para as ditaduras que a tentam silenciar.
Se para os tiranos em funções a internet pode assemelhar-se a um aríete capaz de fazer desmoronar a muralha da desinformação sempre tão eficaz na subjugação dos povos, para os aprendizes de feiticeiro que tanto se esforçam para dominarem os media pode antes surgir como a chave da porta para a propagação de elementos fulcrais para influenciarem com igual eficácia as multidões necessárias para, por exemplo, alterar o sentido de voto num plebiscito eleitoral.
E se os meios se distinguem em tudo, nos fins existe um paralelo assustador e para o qual o único mecanismo disponível, o recurso à Justiça, assume quase sempre o rosto do papão para a liberdade sagrada que os cibernautas exigem mas em última análise podem com essa euforia libertária hipotecar.
É impressão minha ou hoje anda muito mais gente de trombas na rua do que no dia seguinte ao do anúncio das medidas de austeridade impostas pelo FMI?
É compreensível que no contexto de degradação crescente da imagem da que se convencionou apelidar de classe política, particularmente notória no hermetismo das estruturas partidárias que os produzem e albergam, as ideologias comecem a perder protagonismo no momento das decisões eleitorais.
É isso o que explica o facto de muito boa gente se preparar para ir votar contra o Sócrates e não a favor de qualquer alternativa em concreto.
A armadilha, como a sentem muitas pessoas e depois de centralizadas as atenções não nos partidos mas nas respectivas lideranças, consiste numa ausência de opções credíveis de entre as alternativas ao mau da fita da moda.
Ou seja, as pessoas começam por se despolitizarem para poderem concentrar-se no perfil de um Primeiro-Ministro alternativo ao que todos querem ver pelas costas e dão consigo perante um cenário confrangedor.
Se pusermos de parte as ideologias, embora tal não faça muito sentido se queremos levar a Democracia a sério, podemos de imediato apontar baterias para dois dos cinco candidatos com maiores hipóteses de virem a governar o país.
Claro que só mesmo a brincar poderíamos considerar Louçã ou Jerónimo para o cargo de PM, sobretudo desde que, ao recusarem falar com o FMI, confirmaram que os seus partidos emparceiram numa estratégia (e numa ideologia) que em termos práticos faria com que a eleição de qualquer deles implicasse o imediato isolamento do país relativamente à União Europeia. Não há mesmo hipótese de conciliação entre as propostas de ambos e a realidade factual como nos é imposta.
E se Jerónimo, por muito boa pessoa que pareça, é um líder refém do seu Partido e da inegável (e indispensável, por uma questão de sobrevivência) ortodoxia que mantém coesa a casa comunista, por outro lado é fácil de adivinhar a sua transfiguração caso se visse confrontado com a necessidade de implantar em todo um país o pulso de ferro que mantém em sentido o seu eficaz aparelho partidário, sem abébias para a contestação individual dos superiores interesses do colectivo. É assim, e gostos não se discutem.
Já de Louçã, a pessoa, a poucos portugueses ouvi referirem ser uma figura que inspire confiança. Existe algo de escorregadio na atitude e na expressão do forever young e é difícil acreditar que alguém o leve a sério como potencial PM deste país, ademais tendo-se colado à birra comuna relativamente à discussão do futuro imediato do país com os de fora que ajudaram a chamar.
Restam três.
O homem das feiras e o das barrac(ad)as
Começo por Paulo Portas que com tanto calo nisto dos confrontos se tornou aos poucos num encanto de imagem, um encantador de serpentes que a maioria já topou como serpente encantadora e que apenas se coloca a jeito, braços abertos para recolher as sobras laranja, os votos dos que já perceberam que têm um líder passaroco e que o dirigente dos populares é o único à altura da outra raposa destas andanças, Sócrates, que já se provou ter na mão o seu Partido e o eleitorado socialista.
A Paulo Portas, pelo Partido a que pertence e por toda a gente já ter percebido que é um grande músico, pouco mais se pedirá do que alargar a bancada parlamentar do CDS/PP e servir de emplastro para qualquer dos outros dois sem maioria absoluta. Para governarem com um mínimo da estabilidade que é mais do que nunca exigível terão provavelmente que levar com ele.
Passos Coelho até parece ser um gajo porreiro, ao ponto de já andarem os abutres a cravar-lhe facadas em forma de recusa de convites ou de bocas foleiras a partir dos comentadores televisivos nos seus poleiros de consolação.
Porém, há qualquer coisa de ingénuo naquele olhar de menino doce que alterna com o do estadista to be que não lhe assenta bem. E depois há meia dúzia de calinadas, de escolhas desastradas, de pequenos enormes detalhes que não queremos ver no fulano que se sentar em São Bento para obrigar a malta a fazer o que o FMI manda.
E resta quem? Pois claro, resta o Grande Satã, o homem de que ninguém gosta mas o único que revela em simultâneo a rodagem necessária para o desempenho do cargo que tem ocupado, a evidente habilidade para lidar com os parceiros europeus com quem precisamos muito de manter contacto próximo e amigável nos próximos anos e a tenacidade imprescindível para qualquer líder de um país que tem que andar na ordem.
Ou então não faz sentido falar do seu poder absoluto num PS com tradição no produzir de dissidentes desbocados (e despeitados), de vozes do contra que só se calam quando lhes falha a argumentação. É uma coisa ou é a outra.
O Sócrates à Mourinho
Sim, José Sócrates é uma rata velha, um raposo, um furão capaz de comer Coelhos ao pequeno-almoço em matéria de talento para o ofício. É essa a maior frustração dos sociais-democratas, terem o pássaro na mão e calhar-lhes na rifa um lapino sem tino que está em vias de o espantar.
Claro que o povo só pode desconfiar de um gajo assim, esse Sócrates à Mourinho, mau feitio, atrevidote, bem parecido o bastante para não dar muito trabalho ao Luís. E com presença suficiente para manter na ordem os seus, chefe mas muito, verga mas nunca parte como o fizeram alguns dos seus antecessores.
É bom demais para ser verdade e por isso é muito conveniente acreditá-lo ladrão, vigarista, embusteiro, maricas até.
Mas tem-os no sítio e contra isso nada a fazer. E se calhar é mesmo por isso que o Povo, coração generoso e enorme capacidade de perdão, cairá em si e como o voto é secreto lá irão botar a cruz no partido do gajo de quem disseram cobras e lagartos nos desabafos de cabeleireiro ou de esplanada e continuarão a dizer, negando a sua escolha para não parecer mal.
É esse um cenário cada vez mais possível neste Portugal que já desistiu de esperar por D. Sebastião e começa a aterrar num mundo real onde faz falta uma liderança firme que, por ironia, de todos os candidatos mais habilitados o menos desejado é o mais capaz de inspirar.
Depois de tanto folclore em torno do buraco que se esperava (ansiava, a avaliar pela visível desilusão de alguns) e que iria ser revelado depois do rastreio dos inspectores do FMI (cuja capacidade ninguém questionou até ver), a hecatombe não vai acontecer com a dimensão que até a Comunicação Social, na sua especulação desenfreada, tentou empolar.
Nem o subsídio de férias, nem o subsídio de Natal, nem as pensões dos mais desfavorecidos. Só uma réplica bastante aproximada do tal PEC que a oposição em bloco rejeitou (fazendo agora, se as contas não me falham, figura de burra).
Deve ter sido um rude golpe (mais um) nas ambições laranja de poderem entrar em cena como os salvadores da Pátria em face do tal buraco que chegou a mais de 100 mil milhões (afinal o que são pouco mais de 20 mil milhões de erro num cálculo senão um mero detalhe, não é?) que passou a 78 mil milhões e sem uma única tragédia a que a malta do PSD mais o jornalismo fatalista se possam agarrar.
Aos poucos vão caindo por terra os mais sólidos argumentos de uma oposição pateta e, a confirmarem-se estes factos inconvenientes, irresponsável que se deixou embarcar numa sanha persecutória a um fulano com o qual não conseguem ombrear, o culpado do costume, de uma forma tão intensa que acabaram convencidos de um qualquer apelo quase unânime da sociedade civil no sentido de correrem com o mau da fita.
Um tiro no pé do Bloco de Esquerda, cada vez mais enterrado no trambolhão eleitoral que as sondagens prenunciam, outro no pé do CDS/PP que só agora começa a revelar o tino que na altura lhe faltou, mais um na muleta do PSD (os pés já eram, transformados em passadores) que bem pode preparar-se para uma aflição na hora do acerto de contas nas urnas e mais uma grande vitória da esquerda democrática para o PCP que afinal agiu na defesa dos interesses dos trabalhadores, dos reformados e da tradição comunista de ser do contra.
É isto que se desenha no flope que constitui a brandura das tais medidas terríveis que afinal, e em face das catástrofes anunciadas com base nuns esqueletos e mais não sei o quê, pariram um rato.
Dos pequenos.
Se até hoje mantive uma prudente reserva quanto à realidade dos factos por conhecer, a que poderia desmentir um Governo alegadamente aldrabão (e afinal nem um embustezinho como o dos gregos, uma falcatrua nas contas ou assim se arranjou) e confirmar o acerto da tal oposição unidos demitiremos que nos teria salvo de uma outra suposta hecatombe que o FMI não validou com o calibre das suas medidas, agora parece-me lógico e razoável tirar conclusões que não favorecem nada a quadrilha que nos obrigou a envolver estrangeiros na implementação das mesmas medidas recusadas, peito feito, pelos arautos da desgraça que não conseguiram provocar com o espalhafato que melhor os serviria nas estratégias eleitorais.
Por tudo isto parece-me óbvio que as favas contadas serão apenas uma: a que saiu, azar do camandro, logo ao republicano mais conotado com o seu gosto voraz pelo bolo-rei.