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CHARQUINHO

Sedento de aprendizagem, progrido pelos caminhos da vida numa busca incessante de espíritos sábios em corpos docentes. (sharkinho at gmail ponto com)

CHARQUINHO

Sedento de aprendizagem, progrido pelos caminhos da vida numa busca incessante de espíritos sábios em corpos docentes. (sharkinho at gmail ponto com)

30
Abr11

ONDE MENOS SENTIDO FARIA

shark

Nunca tentei esconder a repugnância que me provocam os bombistas, suicidas ou não, muçulmanos ou não, cobardes e desumanos sempre.

Se há causas pelas quais valerá a pena oferecer a vida, não faltam formas dignas, corajosas, de o fazer. Corajosas na força necessária para enfrentar um inimigo olhos nos olhos e com a dignidade mínima exigível a qualquer guerreiro, a suficiente para distinguir um inocente de um deliberadamente hostil.

Quem conhece Marraquexe sabe o quanto as diferenças religiosas, linguísticas ou outras se dissipam naquela mistura constante de marroquinos com europeus.

Também por isso, o atentado bombista que vitimou dezasseis pessoas, tudo indica que um português também, constitui uma traição ao povo de Marrocos e a tudo o que naquele espaço património mundial se construiu ao longo de muito tempo de convivência sã e de enorme importância económica para uma nação de tal forma dependente do turismo e sem muitos dos apelos turísticos de outros países mais evoluídos do magrebe.

 

Um atentado bombista, ainda que envolvendo o martírio de um imbecil qualquer, jamais poderá ser justificado enquanto indispensável no contexto de uma guerra e ainda menos conotado como um acto de coragem merecedor de qualquer tipo de homenagem ao cobarde capaz de arrastar gente inofensiva, civis até do seu próprio povo e com as mesmas convicções, crianças, alvos indiscriminados que afinal são destinados a morrer para alguém chamar a atenção para uma causa que acreditam superior às vidas seja de quem for que esteja no local errado na pior hora.

 

O café Argana era um ponto de encontro da praça Jemaa El Fna, uma passagem obrigatória de todos os roteiros turísticos da cidade agora manchada com sangue que a quem por lá passou só pode chocar pelo nível elevado do patamar do absurdo, pelo contra senso de acontecer uma tragédia assim num local que desmente todos os argumentos com os quais os fundamentalistas recrutam os seus assassinos anónimos.

É uma sensação desconfortável, perceber o golpe que o atentado constitui para aquela terra mais próspera do que muitas em Marrocos precisamente pelas receitas que o turismo lhe traz.

E juntam-se ao nojo a revolta e o desprezo por estes canalhas sem coração que, alegadamente em nome de um Deus que nunca toleraria o assassínio ou mesmo o martírio dos seus fiéis, matam e morrem, sobretudo nestes moldes particularmente desonrosos e cruéis.

 

É que por muito que os cabecilhas terroristas pintem a coisa como uma prova de força para impor pelo medo o respeito que não merecem aos seus alvos ocidentais, esta chacina em concreto visa apenas minar a economia de Marrocos para abrir caminho por entre o desespero das suas gentes até ao poder onde pretendem instalar uma ditadura pior do que as que os povos árabes combatem nesta altura nas ruas com um heroísmo que nunca um cobarde bombista conseguirá exibir perante os outros ou mesmo na memória colectiva dos seus.

29
Abr11

A POSTA À BENFICA

shark

Ser benfiquista implica uma série de características que se fazem reflectir, por exemplo, nos pormenores requeridos a dirigentes, treinadores e até aos próprios jogadores da equipa para poderem gerar empatia com os seis milhões (mais coisa, menos coisa) de adeptos do maior clube do mundo.

 

O Benfica, mais do que tudo, é um estado de alma. Se o futebol fosse música o Eusébio seria o Amálio Rodrigues, pois quase tudo no Glorioso é fado e o fado é acima de tudo emoção.

O público habitual do Estádio da Luz é um sentimentalão, à medida de um clube capaz de erigir uma estátua ao seu expoente máximo em tempo útil, com o homenageado a poder ver com os seus olhos a imagem do culto no qual os benfiquistas são verdadeiramente insuperáveis.

 

Essa forma de estar dos lampiões, generosos a mimarem os “seus”, os que conseguem ser da casa em tudo o que isso representa, constitui de resto a única característica que consegue superar o nível de exigência encarnada, como se viu pelo entusiasmo moderado pela conquista da terceira Taça da Liga que, para todos os efeitos, é um troféu irrelevante no contexto da mentalidade benfiquista: mais de quarenta anos depois ainda nos sentimos campeões europeus como se tivéssemos ganho a taça no ano que passou…

 

A mística que Jorge Jesus não compreende nem respeita

 

Ou seja, no Benfica é prática corrente apostar de forma sistemática nos meninos de ouro que arrebatam a paixão benfiquista, jogadores raçudos, empenhados, orgulhosos de envergarem a camisola pela qual lhes é exigida uma disponibilidade só comparável à dos gladiadores de um outro império que entretanto se eclipsou.

É essa a forma de estar e por isso jamais um benfiquista a sério poderá aceitar que um lagarto como Jorge Jesus desrespeite os códigos de conduta benfiquista ao ponto de ser óbvia a perda daí resultante em termos de ligação dos adeptos à equipa e mesmo, só isso explica a oscilação no rendimento dos jogadores que mais se identificam com o Benfica à antiga, nos resultados obtidos.

E nesse, o da esmagadora maioria, o que Jorge Jesus tem feito, por exemplo, ao Nuno Gomes constitui uma traição aos tais valores que o clube não dispensa e sem os quais acabará por definhar.

 

Ontem estive na Luz para assistir a esse momento histórico de termos duas equipas portuguesas numa meia-final de uma competição europeia de futebol, algo de impensável alguns anos atrás, mesmo quando Benfica e Porto conseguiam quebrar a hegemonia das mais poderosas nações do mundo do futebol.

O primeiro mau augúrio que me saltou à vista revelou-se quando anunciaram a constituição da equipa e dei pela falta do homem do jogo na mais recente final que a equipa disputou.

Moreira, o guarda-redes que ofereceu talvez o único troféu que o SLB ganhará nesta época desportiva até agora merdosa, não mereceu da parte do treinador o prémio da participação no momento especial que a sua presença no plantel muito ajudou a merecer.

 

Foi mais uma exibição clara do quanto a única relação entre o lagarto Jesus e o grande clube que o contratou é a que deriva da sua postura chunga, sempre do agrado dos adeptos benfiquistas (temos um fraquinho por reguilas, sim, mas menos do que nutrimos por gente com verdadeiro amor à camisola e ao emblema da instituição), e o facto de ter conseguido à rasca um título de campeão nacional (que tem sempre o condão de sensibilizar a multidão benfiquista).

 

O espectro do descalabro

 

Contudo, esse divórcio entre a insensível mesquinhez do falso louro burro (falso na parte do louro) e a generosidade do público benfiquista para com quem exibe em campo a tal alma fadista feita de empenho, de entrega, de autêntica luta por uma causa como a entendemos faz-se sentir no ambiente vivido no interior do Estádio, triste, animado de forma artificial por locutores nos altifalantes, por barulho de luzes que não bastam para iluminar a alma benfiquista, algo que colegas de profissão de Jorge Jesus, como Vilas Boas, no Porto, conseguem interpretar na perfeição, logrando sucessos que derivam da tal mística que fulanos como o actual treinador do Benfica jamais conseguirão inspirar ou sequer entender na sua visão pequenina do que faz um grande clube nacional.

 

Jorge Jesus não tem alcance para perceber o que está em causa, para seguir o exemplo de outro lagarto, um dos poucos ontem em campo que personificam aquilo em que os benfiquistas acreditam. Carlos Martins, tantas vezes deixado de fora pelo treinador do Benfica, era, a par de Luisão, Fábio Coentrão, Javi Garcia e Pablo Aimar, um dos poucos jogadores que jogam à Benfica, movidos pela corrente que se gera na magia da ligação entre adeptos e o seu clube e a sua equipa que querem composta de putos capazes de chorarem por marcarem um golo ao Benfica e de virarem a cara a pequenas fortunas para acabarem a carreira no clube do coração, como Rui Costa.

 

E é por isso que muitos benfiquistas como eu, sabedores do esmagamento por parte do FCP a uma das melhores equipas do futebol do país campeão mundial, não conseguiram evitar olhar para a vitória escassa sobre o Braga como, às tantas, uma oportunidade de não passarmos à final e assim se evitar, num confronto directo com exposição a nível mundial, a repetição das humilhações já sofridas ao longo de mais uma época que só não será para esquecer se acontecer um milagre daqueles de que só Jesus, o Outro, seria capaz.

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