A POSTA QUE É TUDO MUITO BONITO, MAS...
Para além da tragédia que afectou o país, o acontecimento provocado pela imprevisível mãe natureza no Haiti vai servir de case study acerca de como as pessoas se comportam num contexto de ausência de poder institucional e em cenário de crise.
Se já existiu um precedente nunca o descobri. O terramoto no Haiti deixou todo um país entregue a si próprio, depois de demolir a frágil estrutura que representava um poder diametralmente oposto ao que produziu aberrações como os tonton macoutes de Duvalier.
Ou seja, a população haitiana viu-se obrigada a enfrentar a catástrofe dias a fio sob um vazio absoluto de poder.
E isso, muito por culpa da palhaçada internacional, dos jogos de poder que atrasaram irremediavelmente a chegada do auxílio necessário. O mesmo poder que agora se confronta com a resposta relativamente ordeira e pacata de cidadãos de um país miserável entregue ao caos e à mais pura anarquia.
Claro que ao fim de cinco dias de choque, de sede e de fome começam a surgir os primeiros sinais de que a lei da selva tentará impor-se. Os grupos armados, depois de feito o balanço e o luto subsequente a um sismo que deverá ter atingido de uma forma ou de outra uma significativa percentagem das famílias haitianas, já se organizam no sentido de ocuparem o vácuo deixado pelo colapso da missão da ONU na sequência desta calamidade brutal.
Ainda assim, apostava sem receios que em igualdade de circunstâncias qualquer país alegadamente mais desenvolvido demoraria bem menos a produzir as suas milícias espontâneas do salve-se quem puder a que tais situações conduzem as pessoas.
É um palpite, sem dúvida, mas basta atentar nos fenómenos locais sempre que se proporcionam os tais vazios de poder. Basta recordar as pilhagens na terra onde o Katrina deixou rasto...
Contudo, a população de um dos países mais pobres do planeta e que enfrentou a transição violenta de uma ditadura para um arranjinho precário, um simulacro de poder num país sem exército ou uma polícia à altura de conter o desespero da pobreza extrema, essa gente desesperada deixou correr os dias entre cadáveres espalhados pelas ruas e sem qualquer sinal de uma autoridade, de um poder central organizado, enfrentando a fome, a sede e o abandono sem sobrepor mais uma camada de pandemónio sobre aquele que o terramoto instalou.
Numa cajadada, a população mártir do Haiti provou que o poder serve acima de tudo como uma cooperativa que possa acudir em caso de aflição e de organizar os serviços indispensáveis para o funcionamento de um Estado e não como disciplinador das massas e, por outro lado, ficou exposta a falta de capacidade de reacção mundial a catástrofes que deixem os seus líderes sem interlocutor válido no centro das operações.
O que fica desta tragédia, para lá do horror de que uma Imprensa bem mais rápida e eficaz do que a ajuda humanitária deu conta, é a exibição prática de que a propalada globalização funciona como uma erva daninha no que diz respeito ao sistema financeiro mas ainda se revela mais prejudicial no que concerne às expectativas criadas numa capacidade de resposta a situações tão desesperadas como a do Haiti e que nos exibem a inépcia dos meios que pagamos a peso de ouro e petrificam diante de cenários que envolvam países exteriores à realidade milionária deste Ocidente mesquinho e, acima de tudo, a necessidade de se entenderem entre si quando está em causa a urgência de uma intervenção eficaz.
E foi esta última prioridade que deixou os aviões carregados, inúteis, num aeroporto em ruínas, enquanto para lá das vedações milhares de pessoas sofriam e morriam à espera de um auxílio que vai, para muitos, chegar tarde demais.





