Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

CHARQUINHO

Sedento de aprendizagem, progrido pelos caminhos da vida numa busca incessante de espíritos sábios em corpos docentes. (sharkinho at gmail ponto com)

CHARQUINHO

Sedento de aprendizagem, progrido pelos caminhos da vida numa busca incessante de espíritos sábios em corpos docentes. (sharkinho at gmail ponto com)

09
Set08

A POSTA NA ANESTESIA LOCAL

shark

Via com clareza no universo que se expandia o aumento da distância entre si e a pessoa mais próxima. E nada podia fazer contra isso, combater nas duas frentes, a sua e a de outrem, tão mais perto no dia de ontem e cada vez mais distante nos amanhãs que se sucediam num banho de pequena desilusão que provocava a inevitável corrosão das amarras de outrora.

 
Os dias passavam diferentes agora, com o silêncio a preponderar sobre o desconforto que viam instalar-se de permeio entre os dois. Os dias cansavam e depois só queriam dormir para ainda mais silenciar uma estranha forma de angústia conformada na aparência de uma cordialidade que sabiam forjada na lava que anunciava erupção.
A tampa colocada em cada noite passada pelas bocas que cada vez menos se conseguiam beijar, com a distância a aumentar também entre os corpos inanimados pelos tons desanimados que assentavam nos lençóis, tão precária na sua função de reprimir o furacão capaz de deitar tudo a perder.
 
A indiferença a prevalecer sobre a vontade de insistir numa causa que se gritava perdida em surdina, reflectida no tom baço e na fadiga que aos poucos ocupava o seu espaço naqueles olhares.
As revoltas abafadas que surgiam de surpresa por detrás dos mais disparatados pretextos, as janelas abertas nos peitos com o vento das palavras por soprar penduradas numa corrente de ar tão quebrada nos seus elos de ligação.
Libertação esparsa de uma energia tão diferente da que o passado lhes dera a conhecer antes da vida acontecer de uma forma menos feliz.
 
Tudo aquilo que a mais se diz, braços dados com o muito que fica por dizer. O coração que pára de bater na sua dimensão romantizada, uma artéria entupida pelo colestrol da saturação. O tempo a passar e as decisões adiadas, as palavras como chicotadas nas costas de uma esperança tão resignada e no entanto estupidamente determinada a ser a última a morrer no campo de batalha onde jaziam os cadáveres irreconhecíveis de um contingente de emoções.
 
As partilhas das divisões nas assoalhadas que evitavam ocupar em simultâneo, nas suas cabeças entretidas a sós, ameaçavam fazer ruir o frágil edifício daquilo que soava já a pura acomodação.
A perda da razão a cada esquina das frases secas e ríspidas arremessadas, despejadas sem tratamento na placenta da violência doméstica embrionária, psicológica, e contudo letal para a fé nos sucessivos recomeços, falsas partidas, com que desistiam de todas as corridas que a coexistência quase forçada transformava aos poucos em lutas insanas, verbais, perante um público pequeno e incapaz de entender aquele bizarro vazio do poder insinuado em estéreis disputas por uma liderança qualquer.
 
Via com nitidez no firmamento a morte do sentimento na sua própria avaliação das estrelas enquanto simples pontos patéticos de luz fria condenados à separação no espaço do universo a expandir imparável, a cada instante, na crueza de uma análise distante às profecias que os astros pareciam conter.
O futuro a acontecer no céu, para alguém observar depois, mesmo por cima do inferno de uma vida a dois cozinhada em lume brando sobre brasas ateadas pelas fagulhas incandescentes trazidas pelo vento, as palavras, da sua pira emocional.
 
Tudo aquilo que correu mal, as mentiras e as culpas, os desmazelos e as multas que agora surgiam para pagar no acerto das contas, a roupa suja estendida para secar depois da chuva de lágrimas secretas cujas nódoas jamais poderiam sair.
A chuva a cair do lado de dentro das janelas agora fechadas, pombas brancas escorraçadas pelas reacções a quente exploradas em tribunal sob as asas das aves de rapina que a vingança exigiu quando a chama se extinguiu na lareira diante da qual abdicariam ambos da tentativa de reconciliação.
Abdicaram também do perdão que pudesse acautelar uma proximidade razoável, apenas o bastante para se acertarem as agulhas nos aspectos mais elementares.
 
A custódia perdida dos filhos ou da razão, no calor da erupção adiada por tempo demais. O património dividido à facada numa solução arquitectada por gente de fora, a soldo, com base em critérios alheios a uma ponderação racional.
A esponja à bruta no passado que se exige apagado, impossível, que se apresenta conspurcado pela imagem terrível dos monstros que o orgulho ou o despeito, o desgosto instalado no peito sem aberturas para a respiração, apresentam aos outros no lugar dos personagens de ficção, sorridentes, retratados em álbuns de fotografias exilados para um mundo de pó no ponto mais afastado do universo em remodelação.
 
A vida em reconstrução sobre os escombros de uma aposta já muito distante no tempo, independência.
A obrigação do contacto à distância, por interpostas pessoas, retransmissores das combinações impostas pelo lastro de qualquer relação com laços filiais.
A descrença nos ideais que alimentam a esperança e sustentam a confiança em dias melhores com rostos sucessores que brilham sempre na comparação mas personificam a ameaça potencial de uma repetição desnecessária, de um desfecho igual.
 
O fim de uma ilusão legítima porque alicerçada pela paixão, nas ruínas fumegantes de um passado que se vê incinerado nos olhos descrentes de quem tenta, contraproducente, renegar o seu efeito reconstrutor mantendo-se algo distante seja de quem for.
 
Sem pressa de sentir as emoções. Sem coragem para ceder às tentações.
 

Com medo da dor.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Pesquisar

Arquivo

    1. 2025
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2024
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2023
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2022
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2021
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2016
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2015
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2014
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2013
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2012
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2011
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2010
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2009
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2008
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2007
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2006
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2005
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2004
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D

Já lá estão?

Berço de Ouro

BERÇO DE OURO