Olhava de vez em quando para o raio de sol que entrava pela janela com grades da sua prisão.
Na maioria do tempo olhava para o chão e tentava fugir à esperança de escapar à custódia impiedosa dos seus carcereiros. Tentava reprimir por si próprio a ânsia que o torturava muito mais do que aqueles lacaios de um regime cruel, aquela voz doce como o mel que misturava com o som do vento que soprava nas grades da sua janela interior.
Sabia-se enfraquecido pelo castigo do delito de opinião. Falava a voz da razão, incomodativa, e um dia falou alto demais aos ouvidos de quem bufaria depois.
Gritava a palavra proibida quando o arrastaram pelo chão do café e não a calava quando o mordia um bastão, nas costas, zurzido por um fiel, um cão, a soldo de um mandante ditador.
Mas os dias que passavam, terríveis e iguais, os dias que faltavam nos seus projectos pessoais de felicidade negada pela luta sem fim, já faziam sentir os efeitos da sua acção.
E ele vedava o coração à saudade como o isolava do amor, negava a esperança para concentrar o resto da vontade na força das convicções.
A resistência possível no antro da besta temível que perseguia sem cessar os seus inimigos identificados, os clandestinos desmascarados por uma infeliz coincidência ou pela denúncia, inconsciência, de um vizinho cobarde ou mesmo de um familiar, era o silêncio rasgado com um grito desesperado, a palavra proibida a galope no som de cada dor.
Era esse o desafio que o obrigava a viver para poder combater aquela praga maldita que tresandava a decadência, mal disfarçada pelos sorrisos de circunstância nos meandros do poder civil. Uma elite empenhada em silenciar os protestos, em conter os insurrectos que ameaçavam sair do quartel para acabar com os excessos cometidos em nome de uma causa sem valor.
E por isso olhava de vez em quando para o raio de sol que entrava pela janela cujas grades lembrava hoje como um símbolo do que jamais voltaria a aceitar, a palavra proscrita, a liberdade maldita para os que encarceravam a de expressão, o direito de falar.
O sol que brilhava no céu quando alguém surgiu para o libertar.
No dia em que a revolução finalmente aconteceu.