Terça-feira, 11.10.05

A POSTA APENAS MAIS UM

Era longe Sharkinho. Tentaram encurtar a distância até nós, ignorantes, coitados, como se alguma vez isso fosse possível, como se alguma vez nos quisessemos apoquentar com estas merdas de mais perto do que o que a televisão nos mostra. Somos cada vez mais uma praga de consciências voyeuristas, cuja culpa se amortiza em comentários indignados como este meu, neste teu post, num blogue da internet. Somos nada assim. Ou talvez alguma coisa, já não a ferida, que essa sente, mas talvez os pensos rápidos com que as tapamos. A nossa consciência é uma farmácia com antídotos onde curamos o incredível com blá-blá-blás de 24 horas, se bem aplicados, até de maior duração ... e bardamerda para este comentário, e para mim.

Publicado por: Eufigénio às outubro 11, 2005 09:09 PM
(a propósito da posta anterior)

Asseufigenio.JPG
O belo cu de um belo homem


Nunca escondi a minha admiração por este gajo, pela sua forma de blogar tão próxima da minha. O Eufigénio é, como eu, um adepto do strip. O que nos distingue é que no fim do show ele nunca despe as cuecas.
Digo eu, que olhando para o comentário acima o vejo todo nu e fragilizado pela sua lucidez. Que é a nossa, ou deve ser.
Abarbatei o comentário e publico-o sem pagar direitos de autor, mas até nem me importava. E faço-o porque assim temos todos a oportunidade de pegar no raciocínio de um blogueiro sensacional e um homem a quem confiaria a educação dos meus filhos e de o utilizar como ponto de partida para algo mais.
Alguns milagres daqueles que nos fazem alimentar alguma esperança nesta merda a que chamamos Humanidade nascem precisamente de desabafos assim.
Eu começo por fazer barulho, somando-o ao berro que o Eufigénio nos ofereceu.
E amanhã tratarei de depositar 25 euros na conta que a AMI me indicar para o efeito.
Se meia dúzia de pessoas seguirem o meu exemplo, a blogosfera já terá valido de alguma coisa neste dia.

Contudo, gostava que utilizassem a caixa de comentários desta posta para oferecerem sugestões de formas ao nosso alcance para, mesmo sem nos agitarmos muito no sofá, sentirmos, nas 24 horas que o Eufigénio nos dá, o prazer de sabermos que se fez alguma coisa de útil com a blogosfera.
E com a consciência de cada um de nós. Apenas mais um pode fazer toda a diferença.

E eis os dados necessários para a questão dos 25 euros:

Donativo Esporádico

Há muitas formas de ajudar a AMI com um donativo esporádico, seja através do Multibanco, dos serviços de Banca Electrónica ou do envio de cheque. Se pretende contribuir para a AMI, escolha a opção que mais lhe convier. No caso de optar por fazer o seu donativo através de AMB, Banca Electronica ou Multibanco deve enviar-nos o comprovativo para envio do recibo respectivo, dedutível fiscalmente.


Pagamento de Serviços
Faça o seu donativo em qualquer caixa multibanco: escolha a opção "Pagamento de Serviços" e digite entidade 20909 seguido da referência 909 909 909, depois basta escolher a importância com que quer contribuir. Se tiver um Pinpad ligado ao computador poderá fazer o donativo através do AMB (Acesso ao Multibanco).


Transferência Bancária

Pode optar por depositar um donativo na conta da AMI nº 015 27781 0009 (NIB: 0007 0015 0027781000979) do Banco Espírito Santo. Se tiver acesso aos serviços de Banca Electrónica do seu banco, poderá poderá fazer a transferência através da internet.


Cheque

Envie o seu donativo em cheque nominal directamente para qualquer uma das direcções da AMI.
publicado por shark às 21:36 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (51)

MURALHA DE AÇO

glimpse of paradise.JPG
Foto: sharkinho

São problemas que nos passam ao lado, no santo dia-a-dia de um país onde até os furacões despassarados decidem imolar-se para não perturbar a paz dos senhores.
Até parece mal falar destas coisas, tão confortáveis que nos sentimos enquanto protestamos contra o aumento do custo de vida que nos priva de substituir o "velho" dvd por um modelo mais recente.
Porém, cerca de 500 seres humanos partiram de diversos pontos de um continente algures na mesma galáxia que habitamos. Tinham por objectivo escapar à fome. Apenas sessenta e cinco conseguiram chegar a Marrocos, a última barreira entre a morte pela fome e uma existência clandestina mas com a barriga cheia. Desses, apenas um (!) logrou alcançar o objectivo sonhado.
Seis terão sido liminarmente abatidos, alegadamente pela polícia marroquina.
Os sobreviventes, de acordo com Pepe Alonso, um advogado de Melilla que não tem mais nada que fazer do que pugnar pelos Direitos Humanos, serão abandonados à fome e à sede no deserto, junto à fronteira com a Argélia.

O hemisfério sul começa a incomodar-nos as consciências. Talvez esteja na hora de fecharmos de vez as portas a essa seita faminta que nos pode riscar a pintura do carro novo na sua ânsia de escapar à perseguição que lhes é movida neste nosso paraíso. Ainda por cima é de lá que vêm os maus, os terroristas. E são pretos, o que pode adulterar a longo prazo a nossa alva pureza étnica.

É uma chatice, isto de eles se imolarem nas nossas vedações. O problema tem que acabar, pois as imagens televisivas podem chocar as nossas crianças-anjo incapazes de entenderem porque morrem tantas pessoas nesta migração, em barcos que afundam, em desertos que os desidratam ou sob o fogo dos heróis que nos protegem da ralé.
Talvez instalando uma barreira electrificada um pouco acima do Equador, um anel de segurança que nos poupe a estas exibições grotescas de inveja por parte dos ingratos que não reconhecem o bem que a colonização lhes fez...
publicado por shark às 11:30 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (24)
Segunda-feira, 10.10.05

A POSTA NA SALVAÇÃO

teclista1.JPG
Foto: Mar

É tenue, muito ténue a linha que nos separa da loucura. Em certos momentos, quando a vida nos encurrala em situações aparentemente impossíveis de ultrapassar, quase perdemos a noção da realidade. O desequilíbrio acentua-se a cada sinal contrário à nossa vontade de querer que tudo corra pelo melhor. Aos poucos, é o desespero que se apodera do espaço vago deixado pela nossa incapacidade de raciocinar com clareza. Aos poucos, entregamos-lhe as rédeas e deixamo-nos conduzir por meandros obscuros da nossa mente até ao ponto onde perdemos o caminho de volta à sanidade.

Aconteceu-me por três vezes ao longo da vida. Em cada uma delas, eu que gosto de me acreditar forte e lúcido, estive muito perto de resolver em definitivo todos os problemas que me afectavam e poderiam afectar no futuro de que quase abdiquei.
Olhei a morte nos olhos e ela retribuiu-me com uma promessa de paz. A paz que eu mais desejava, para acabar com a tortura que se desenrolava na minha própria cabeça sem que eu conseguisse controlar o desvario.
Estive muito perto de aceitar esse convite manhoso para o repouso que há anos não consigo encontrar.

É estranho pensarmo-nos assim, capazes de dar um passo tão terrível e absurdo. Capazes de cruzar a tal linha que a vida traça em contornos de infelicidade, desilusão, ansiedade ou depressão. Simples equívocos que se conjugam para nos enlouquecer. Fantasmas que nos passeiam na imaginação, irreais mas corporizados pela nossa fantasia, pelos medos que nos perturbam e nos deprimem ao ponto de deixarmos de nos reconhecer na pessoa desfigurada, tresloucada, diante de um espelho que nos engana ou apenas reflecte o que a nossa cegueira quer ver.

Nesses momentos radicais em que prevalece a tristeza e a desorientação o maior inimigo é a solidão. É uma parceria bem sucedida, em sociedade com a morte feita solução, cheia de exemplos da sua capacidade para nos atrair o corpo para o beiral de um telhado, para o limite de um precipício ou para a linha de um comboio. A sós, é dramática a luta contra o apelo irresistível do fim. Muitos evitaram o pior com uma simples chamada telefónica para alguém que amavam. Ou com o gesto amigo de um estranho que o destino enviou como um anjo protector.
Depois, o choro compulsivo de quem cai em si e reconhece a dimensão da sua estupidez temporária, da sua alucinação.

Envergonha uma pessoa, admitir perante si própria o quão próximo se colocou do outro lado da tal linha imaginária que nos separa de uma dimensão onde deixamos de existir tal como nos conhecemos do lado de cá. Às vezes basta o excesso de pressão, a paranóia, a névoa que se instala e nos priva do horizonte onde podemos descobrir o sentido da vida num simples nascer do sol.

Envergonha, de facto, mas é coisa tão séria e real que nos vemos forçados a partilhar com outros essa fraqueza que nos minimiza aos olhos de quem nos quer bem, para denunciarmos essa verdade difícil mas que pode bater à porta de qualquer um. Sentimo-nos obrigados a dar aos outros a informação que os pode salvar um dia, que pode evitar o desnorte que nos leva ao pior.

É estranho constatar como, por vezes, a nossa vida depende apenas do som de uma voz. Às vezes, dentro de nós.
Mas quando a vida parece encaminhada para nos torpedear as ilusões, as melhores soluções encontram-se na única resposta para todos os males. Numa simples oração.

O amor é a minha religião.
publicado por shark às 13:42 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (58)
Domingo, 09.10.05

A POSTA NA ALEGRIA COSTUMEIRA

portugal profundo.jpg

Chove a potes lá fora. Será húmida a festa dos vencedores.
Eu não festejo coisa nenhuma. Assisto na televisão ao discurso vitorioso de um cacique que parece contar com um propagandista do tipo Heinrich Himmler na sua prole de assessores, esganiçado. Já assisti à reacção amarga e elucidativa de um outro da sua laia, talvez pior, sacudindo a culpa do seu revés para os ombros de um pato bravo da construção civil.
Ainda faltam outros dois, retumbantes na sua confirmação de que pouco interessam os partidos políticos quando os figurões controlam a cena.
A democracia expõe-se em directo ao ridículo da sua actual condição.

No resto, o costume. O partido no poder perdeu pouco e, no meu entender, perdeu onde mais merecia (pelo nível dos seus candidatos de merda). O maior partido da oposição ganhou onde precisava mas já tinha perdido onde os seus rebeldes se impuseram. O partido que nunca perde voltou a não perder e ainda pode invocar algumas surpreendentes vitórias. O partido desfeito parece, nesta altura, ter recebido a f(r)actura das portas que se fecharam nas costas do seu novo líder. O partido tudo-ao-molho recebeu uma clara indicação de como ninguém deu pelo efeito do seu aumento parlamentar e apenas obteve aquilo que se previa, presenteando a Câmara alfacinha com um vereador no qual se depositam esperanças legítimas. E os partidos dos quais mal se conhece o nome permaneceram na sombra.
Tudo na mesma, portanto.

Desconheço ainda o nível da abstenção. Mas pouco alteraria o desencanto com que encaro mais esta exibição de como a política já não se compadece de ideologias. As estruturas partidárias esfalfam-se por mobilizar outros que não os directamente interessados no resultado final da coisa, na tacharia. Não conseguem, como a pálida campanha eleitoral confirmou. E isso aplica-se a todos por igual.
Apodrece aos poucos, o sistema, abandonado pela maioria. Deixado à mercê das hienas, como um pedaço de carne putrefacta que dividem entre si enquanto rosnam. Pela melhor parte do festim, a ocupação dos lugares em disputa, por troca com as aves de rapina espantadas pela vontade popular.
A falta de entusiasmo tresanda.

A chuva é muito desmotivadora.
Nem sequer festejámos em condições a qualificação da nossa selecção de futebol para o Mundial da Alemanha...
publicado por shark às 22:40 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (12)

A MANTEIRA DEZ MIL

diabroria.JPG

Bem Sharkinho, é a 1ª vez que entro no teu blog, via circular ;) e que surpresa este sítio, que texto tão intenso, li até ao fim de rajada, como se fosse um amor à 1ª vista. E sim, acredito e sinto que se sabe quando aquela pessoa é 'a tal'. A minha dúvida é se existe 'a tal' ou várias 'a tal' em vários momentos da vida, de acordo com as nossas necessidades interiores. Sinceramente acho que dava muito menos trabalho e chatice apaixonarmo-nos uma vez para a vida toda :)

Publicado por: vague às janeiro 6, 2005 08:36 PM


Este foi o primeiro dos muitos comentários com que a Vague contribuiu para as 10.000 entradas que este blogue recolheu ao longo de cerca de onze meses de actividade. Aconteceu na Posta Romântica, no início deste ano, um momento mágico da existência deste blogue que culminou no mais bonito evento blogueiro em que participei. O Encontro das Mantas, que reuniu um grupo de gente decidida a transpor para o real aquilo que o virtual alimentou, contou com a presença dela e isso confere-lhe um estatuto especial aos meus olhos. Esse Encontro também se revelou determinante na minha vida, pois marcou a certeza de uma paixão que ainda hoje tenho o privilégio de viver e acabou por resultar na união entre o esqualo e o seu elemento natural.
Um marco importante a que a minha amiga Vague, uma romântica inveterada, ficará ligada em definitivo.

A Vague é uma comentadora única, autora de alguns dos maiores "lençóis" que o charco conheceu. Tem, como referi por diversas vezes, uma musicalidade que a distingue. Basta olhar de relance para a caixa de comentários de qualquer posta para identificar uma entrada desta blogueira. Pelo tamanho, na maioria dos casos (embora com um ritmo menos intenso nos últimos tempos), e pelo tal jeito muito dela de tropeçar nas palavras sem se desequilibrar.

E a Vague "analógica" bate certo com a sua imagem virtual, como nas Mantas se provou. Igual a si própria, coerente. E simpática, dona de um sorriso discreto mas inequívoco no que concerne à essência da sua personalidade bem disposta. Uma pessoa que gosto de poder visualizar fora do âmbito destes nossos retratos feitos de palavras, de poder recordar com um rosto enquanto debito esta prosa que lhe é dedicada.

Acho que lhe assenta bem esta coincidência que a associa outra vez a um momento (para mim) especial deste blogue. Não pelo número em si, uma "barreira psicológica" como chamam a estas coisas, mas pelo que ele representa. A caixa de comentários do Charquinho é uma das minhas alegrias diárias.
E fico contente por ficar simbolizado por uma das "manteiras" que mais contribuiram para que se viesse a concretizar, organizado por mim e pela Mar (malhas que o destino teceu), o ponto mais alto da minha existência blogueira.

Maré alta para ti, amiga! E obrigado pela tua constante e indispensável presença nesta realidade que ajudas a construir.
publicado por shark às 00:07 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (31)
Sábado, 08.10.05

MANIPULAÇÃO GENÉTICA

pago por mim.JPG
Foto: sharkinho

De vez em quando vejo-me confrontado com decisões ligadas a um dos problemas que há mais tempo infernizam a minha existência. Decisões difíceis, que me encurralam entre um estúpido compromisso moral com alguém que nunca o soube merecer e o meu instinto natural para preservar a auto-estima.
Em causa estão pessoas a quem me vinculam laços que há muito deixaram de fazer sentido, considerando a prática e suas evidentes exibições de um fim há muito anunciado. Deixei, à custa de imensas desconsiderações, de gostar daquelas pessoas. De as sentir de alguma forma ligadas a mim, tal como hoje sou, muito diferente de uma outra pessoa que lhes tolerava tudo em função do tal cumprimento de um dever que elas não assumiram a partir do momento em que optei pelo homem que sou. Quase uma antítese do que esperavam de mim, do vegetal que apreciariam na sua salada de parasitas com molho de dependência financeira.

Essas pessoas já me tiveram na mão. Fugi. Reneguei a sua influência na minha vida e nas minhas decisões. E quando deles precisei, na maioria das raras ocasiões em que sucumbi, cuspiram-me no rosto a recusa traiçoeira, a falsa promessa, ou o estatuto de mendicidade psicológica que lhes apraz cultivar.
Em troca de uma proximidade artificial deixam tombar esmolas no chão. Ou apresentam-nas como um facto consumado, como uma manobra diplomática e cheia de preços a pagar. E eu, saturado da sua soberba e do seu oportunismo hipócrita, do seu faro para os momentos menos bons que lhes favorecem a limpeza da sua imagem real, asquerosa, hesito enfiar-lhes a caridade pelo cu por via do respeito que não justificam mas sinto como uma obrigação.

Cresci à margem dessas pessoas, estranhos à minha forma de sentir. Escapei ao seu controlo, à sua vocação para a chantagem emocional e a factura traduziu-se num abandono total. Disfarçado aqui e além com um ritual forçado de sublimação do estatuto que há muito deixaram de possuir na minha ideia e na dos muitos que lhes viraram as costas perante a sua atitude merdosa e que sempre me embaraçou. Isso mais uma data de escarradelas na minha dignidade que os apoquenta.
Preferiam-me mais dócil, mais frágil, mais dependente da sua generosidade moldada à subserviência dos que dela possam depender. Constituo nessa matéria a mais profunda das suas desilusões, uma batalha perdida na sua guerra de conquista das pessoas com a arma mais digna da sua falta de formação: o dinheiro com o qual jamais alguém me comprou.

Um erro primário de avaliação que me cobriu o dorso com a pele da ovelha ranhosa, do rebelde que urgia deserdar aos poucos, pecúlio esbanjado nos mimos e nos caprichos de quem se agachou numa vénia, quem se deixou dominar.
Lutei sozinho contra as partidas que a vida me pregou, sempre sob o camartelo de um agoiro que as suas profecias não deixaram de me lembrar. Vais falhar, diziam. E quase conseguiram acertar, uma vitória que lhes seria saborosa, quebrada pela espinha a minha vontade de os contrariar pela positiva. De fazer do meu orgulho o suporte da contestação à sua forma despudorada de enfrentar uma realidade que a sua espécie de gente conspurca.
Ainda não abdiquei dessa convicção.

E por isso a minha decisão difícil afinal está tomada.
Antes mesmo de se colocar à minha apreciação.
publicado por shark às 15:57 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (12)
Sexta-feira, 07.10.05

A POSTA DESCONFIADA

amigos do peito.jpg

A traição, como deixo transparecer em muito do que escrevo neste blogue, é uma das minhas mais vincadas obsessões.
E não falo apenas do clássico par de cornos que tanto terror inspira, mas que vale pelo que vale desde que um gajo não saiba ou, sabendo, não se importe. Neste exemplo concreto, para além da premissa de que depois de lavado e enxuto fica tudo como novo, a responsabilidade da coisa pode ser sempre atribuída à condição humana (a monogamia é um conceito muito escorregadio) e não ao fraco desempenho do(a) encornado(a). A tentação pode surgir ao virar da esquina...

Ao longo da minha existência a confiança que depositei nos outros foi sistematicamente abalada por episódios susceptíveis de a minarem de forma quase irreversível. O resultado, ao fim destas quatro décadas de aprendizagem à bruta, foi a consolidação de um critério que não dispenso nas minhas relações com as outras pessoas: toda a gente é suspeita até prova em contrário.
Ou seja, parto sempre do princípio que a cada entrada de alguém na minha vida corresponde mais uma potencial desilusão.

Não é fácil assumir as coisas desta forma, até porque colide com a posição oficial da maioria das pessoas. É mais frequente a malta seguir a onda de bute lá e logo se vê. Eu já vi, mais vezes do que desejaria. E por isso desconfio e fecho-me em copas. Ou disseco o alvo da minha estima até à exaustão, para me certificar da sua integridade de carácter antes de abrir a matraca e entregar à sorte as minhas confidências ou, mais complicado ainda, até me permitir amar sem reservas.
É um processo penoso e exigente, para mim e para quem se aproxime deste gajo cheio de nóias.

E não julguem que falo por falar. Quem conhece de perto a minha história sabe que já reuno uma lista apreciável de pequenas e de enormes traições no meu currículo, episódios que me provocaram grandes perdas e transtornos. Senti na pele a dor de dezenas de falsidades, mentiras, omissões ou meras tábuas rasas aos príncipios que prezo e nunca escondi a ninguém. E esta expressão (dor) não é utilizada à toa: dói mesmo, sentirmo-nos atraiçoados por alguém. Insisto: não estou a falar (principalmente) de cornos.

Sentimo-nos vulneráveis, sempre que alguém nos desilude em matéria de confiança. A segurança com que enfrentamos os outros depende sobremaneira das marcas que a vida nos deixa. Isso bastaria para tornar a lealdade (fidelidade? Nem ao meu cão posso exigir tal garantia...) um ponto assente na essência de qualquer relação de amizade ou de amor. Mas não é.
Nem preciso do meu exemplo, basta-me testemunhar as facadas nas costas dos outros para nelas (re)ver as minhas. Com os valores mais relevantes transformados em empecilhos arcaicos e a pedirem reforma, o mundo não está a evoluír no sentido de me acalentar esperança de encontrar ao longo do caminho meia dúzia de pessoas capazes de me desmentirem o pressuposto.
Em cada nova relação antevejo uma inevitável desilusão. E ajo de acordo com essa perspectiva pessimista.

Isso torna-me mesquinho, rigoroso, atento e desconfiado. Difícil de aturar. Mas é um preço que me obrigo a pagar, para manter alguma margem de cautela. São os meus mecanismos de defesa, nascidos como uma reacção espontânea (e talvez legítima) ao mal que os outros podem fazer-me quando lhes abro as portas. Cada vez menos, aliás, pois um tipo satura-se de lidar com os desgostos que a deslealdade acarreta.
Tenho plena consciência de que não arranjarei muitos amigos com este feitio...

Um dos aspectos que a minha forma de estar mais influencia é o da coerência. E por isso, porque são muito importantes para mim as vossas opiniões em tão delicada matéria, reabro nesta posta a caixa de comentários onde tanto me têm dado a aprender e a pensar.
Aliás, qualquer pretexto serviria para acabar com esta verdadeira tortura... :-)
publicado por shark às 11:12 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (62)
Quinta-feira, 06.10.05

A POSTA NUM DIA MELHOR

brilho no olhar.JPG
Foto: sharkinho

Esses momentos passam-nos pela vida como relâmpagos numa trovoada de Verão. Distraímo-nos e só nos apercebemos do clarão, não chegamos a saborear na retina a beleza e a intensidade da descarga luminosa que adivinhamos magnífica.
Depois, só depois, escutamos o som imponente do trovão e ficamos com a certeza de que aconteceu algo especial. E passou-nos ao lado porque não estávamos atentos ao céu.

São irrepetíveis os lapsos de tempo nos quais temos a sorte de experimentar sensações e emoções únicas, de participar directamente no melhor que a vida nos dá. Por isso nos devemos concentrar nesses instantes mágicos, agarrar a rara oportunidade de conhecer a felicidade e de a desbundar em pleno do princípio ao fim. Enquanto ela durar, pois o infinito é uma ilusão nestas coisas.
A faísca que rasga o ar e lhe arranca um estampido de celebração só acontece uma vez. Quem não a vê só sabe que aconteceu pelo barulho, pelo ruído de fundo da magia que nos escapou. Só então corremos à janela em busca de uma reprise e deparamo-nos com uma sequela, apenas parecida com o original que só por milagre será alvo de uma reposição.

Sentado no balcão, tento prescrutar o céu para não perder pitada. Absorvo cada milésimo de segundo de duração daquele encanto que os meus olhos registam para memória futura. E esta a disparar ao ritmo de uma máquina fotográfica profissional, de uma caçadeira de repetição, ansiosa para recolher as imagens e as impressões que nos fazem as recordações que valem a pena gravar.

Reflectido no mar adiante, o raio multiplica-se por dois e amplia o estímulo visual, o impacto da explosão de luz e de som.
E eu, feliz, reclino-me na poltrona para aguardar, com saudade do que passou, o próximo momento em que a vida fará mais sentido para mim.

Na linha do horizonte, a noite já se veste com os tons garridos do sol que me ilumina mais um dia. Quero presenteá-lo com um sorriso.
Partilho-o convosco nestas palavras. Tenham um dia memorável, cheio daquilo que nos faz beijar o ocaso por prenunciar um amanhã que mal conseguimos aguardar. É assim ou não é?
publicado por shark às 11:32 | linque da posta | sou todo ouvidos
Quarta-feira, 05.10.05

A POSTA ESTUPEFACTA

manda quem pode.JPG

Rui Rio, candidato do PSD à presidência da Câmara Municipal do Porto e actual titular do cargo, visitava uma idosa centenária no âmbito da versão pimba de qualquer campanha eleitoral. Entusiasmado por não choverem impropérios ou manifestações de desagrado pela sua presença, deixou-se embalar pelas delícias que o poder proporciona.
Em directo, diante das câmaras que também gostaria de controlar (as da tv), sacou de todo o seu vigor e logo ali afirmou que "não fazia uma promessa, o telhado da casa da senhora iria ser reparado sem demora". Pela rapaziada da Câmara, rapidamente se deduz...
Ou seja, ficamos todos a saber quem manda e o quanto é valioso ser o Presidente em exercício quando se entende natural utilizar os argumentos de peso que os contribuintes proporcionam.

Manuel Maria Carrilho, candidato do PS à presidência da Câmara Municipal de Lisboa e ex-Ministro, fazia não sei bem o quê a propósito da versão pimba de qualquer campanha eleitoral. Tinha sido divulgado há poucos dias o facto de existir um claro benefício das autarquias da mesma cor política do Governo (PS ou PSD), em matéria de atribuição de verbas e outros benefícios que o Estado controla para, afinal, utilizar em função de critérios partidários.
Em directo, diante dos microfones que o privam da sua melhor (leia-se "mais boa") vantagem eleitoral, afirmou que Lisboa só teria a ganhar com "uma Câmara da mesma cor do Governo em funções".
Ou seja, ficamos todos a saber que desvirtuar as regras da Democracia passou a constituir um argumento válido no entender de quem, assim, não só confirma o teor dos números divulgados e da vergonha neles implícita mas ainda se dá ao desplante de os invocar como uma excelente razão para votar no Partido Socialista.

Estou cada vez mais distante desta escória que me desgraça. No bolso e no amor aos valores democráticos, pois vejo-me na contingência de ir votar por respeito aos que lutaram e sofreram por esse direito tão grato mas com a clara noção de que apenas contribuirei para legitimar o poder desta corja que, na prática, merecia era uma abstenção arrasadora.

E nem preciso referir as mais que certas vitórias dos caciques da moda, travestidos em independentes.
Já percebi que nestas eleições que se avizinham há fortes hipóteses de eu nem pegar na caneta...
publicado por shark às 20:35 | linque da posta | sou todo ouvidos

A POSTA SEM PAPO

Dei comigo, inadvertidamente, a reparar no contador de comentários. Isto aconteceu dias atrás e dei conta do facto de estar próximo do comentário dez mil. Um número giro, redondo, mas que traduz realidades que não se compadecem de contabilização. São as minhas e as vossas intervenções, motivadas pelas postas que escrevi ou pelos diálogos magníficos que se estabeleceram. Essa é a parte que me estimula, que me incentiva a continuar, e não a estupidez de me deixar guiar pela aritmética.

Fiquei envergonhado da minha pequenez e decidi, não me levem a mal, afastar-me por uns tempos desse ardil que nos leva a perder o norte das nossas reais motivações. Vi-me a perseguir recordes...
Seguindo o exemplo de diversos colegas que pelo mesmo ou por outros motivos suspenderam as suas caixas de comentários ficarei, a partir desta posta, acessível apenas por email (shark_inho at yahoo.com.br).

Durante o tempo necessário para ganhar juízo e deixar-me de tentações que me inferiorizam e de vaidades que nunca soube merecer.
Espero, contudo, justificar na mesma o privilégio da vossa visita.
Fazem-me falta as pessoas. E nunca os números que elas possam representar.
publicado por shark às 17:29 | linque da posta | sou todo ouvidos

OUVI DIZER...

...Que um dos meus blogueiros preferidos gosta muito de telhados. Em sua homenagem, seguem alguns. Só não consigo uma fotografia dos meus telhados de vidro, pois não consigo esticar os braços o suficiente para a máquina os focar. :-)
(ah, fotos: sharkinho...)

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publicado por shark às 16:15 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (10)

A POSTA NA BOA ONDA II

Na política aprende-se depressa a não confiar em demasia nas alianças de circunstância. O amigo de hoje pode ser o feroz adversário de amanhã, bastando alterar-se a conjuntura que o aproximou da nossa causa. E nada invalida que essa conjuntura possa repetir-se amanhã...
Mas isso também se aplica às relações humanas, onde muitas vezes basta confrontar os nossos aliados com alguma prova de fogo para lhes expor as renitências. E estas surgem muitas vezes em pleno contar de espingardas, quando chega a hora de sabermos com quem podemos efectivamente contar.

O mal, se calhar, está em depositarmos demasiada esperança na capacidade das pessoas abandonarem as suas lealdades do passado (ainda que dedicadas a quem as desiludiu), talvez por não conseguirem renegar os aspectos positivos que lhes podem preservar uma boa memória de eventos que lhes desagradaram.
É incorrecto forçarmos alguém a fazer escolhas. Por ser injusto para quem se vê no meio do fogo cruzado e porque nos expomos a profundas desilusões quando fundamentamos as nossas expectativas numa espécie de chantagem emocional.

Já incorri por diversas vezes nesse erro ao longo da minha vida e dei-me sempre mal. Questionei quem não devia, magoei por desconfiar. Quando afinal o que está em causa é uma manipulação da solidariedade dos outros, um falsear das suas verdadeiras emoções.

Julgo que aprendi a lição. E não repetirei a gracinha, para não correr o risco de olhar em volta e perceber-me só numa luta sem justificação.
Contento-me com a certeza de que a ambivalência não me priva da estima de quem gosta de mim.
Prefiro assim. E desisto em absoluto de qualquer conflito que me oponha seja a quem for. Não o alimentarei, para não fomentar o desconforto entre os que se vejam encurralados nas teias da lealdade dividida, pelo respeito que lhes merecem os dois lados em disputa. E basta que haja juízo na carola de um dos opositores.
Espero que todos(as) quantos(as) me sintam como um adversário aceitem esta oportunidade para enterrarem os machados de guerra.

Afinal, se eu não retorquir deixa de dar luta...
publicado por shark às 15:46 | linque da posta | sou todo ouvidos

A POSTA GREENPEACE

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Nunca nutri qualquer espécie de animosidade contra os Estados Unidos da América. Reconheço até as similaridades "ocidentais" que nos aproximam de alguma forma e chocam-me as tragédias sofridas por aquele país como as ocorridas em qualquer outro ponto do planeta.
Todavia, quando o furacão Katrina despejou a ira da natureza em território norte-americano não consegui afastar um raciocínio muito simples: se este tipo de fenómenos tem na origem a negligência humana, então que prejudiquem os que mais contribuem para o destrambelhamento da coisa e que ainda por cima boicotaram Quioto. Ou seja, na óptica do utilizador-pagador...

Isto não é ironia e eu nunca brincaria com coisas sérias. São as vidas de pessoas comuns no prato desta tenebrosa balança. De um lado os todo-poderosos interesses económicos (e sociais, convenhamos) e do outro o irreversível caminho para o fim da civilização tal como a conhecemos. Na raia do absurdo, ao boicotarem as medidas de que o Mundo necessita para evitar o apocalipse os americanos privilegiam, por exemplo, a utilização desregrada dos seus magníficos automóveis. Para os verem arrastados pelos ares ou por caudais incontroláveis na sequência das catástrofes naturais que exponenciam com a sua incúria.
No final, contas feitas aos rastos crescentes de devastação e suas repercussões na indústria seguradora, no turismo e em basicamente quase todas as actividades económicas, é a galinha dos ovos de ouro a devorar-se aos bocadinhos.
E todo o planeta a suportar, directa ou indirectamente, a mais pesada das facturas.

made in hell.JPG
Foto: sharkinho


Só para terem uma ideia das proporções que isto já assumiu em 2005, avanço com uns factos associados às mais recentes catástrofes mediáticas. Da passagem do Katrina e do Rita, resultou aquilo de que todos temos apenas uma noção aproximada. Resultou o caos. Entre estas duas tempestades violentas, o Atlântico produziu outras cinco de igual teor. Não fizeram notícia porque não chegaram à costa.
Todos os anos, o National Hurricane Center prepara uma lista de 21 nomes para baptizar as "anomalias" que o clima produz. Para acautelar um ano menos bom, a partir do vigésimo-segundo o nome consiste numa letra do alfabeto grego. No momento em que escrevo esta posta, em plena época alta dos furacões, já só restam quatro nomes na lista e isso faz prever que não tardará a entrar em cena o furacão Alfa. O que não se verifica há 52 anos...

Os dados acima são públicos e vêm escarrapachados na Time desta semana. Depois de passado o efeito do choque provocado pelas imagens dantescas do que se passou em Nova Orleães, começam a surgir as vozes dos que associam estas borrascas de grau 5 em catadupa ao desrespeito pelos sábios conselhos dos ambientalistas.
Cientistas de renome arriscam, em nome do bom senso, apontar o dedo à relação causa-efeito entre esta fúria crescente dos elementos e a insensatez que nos ameaça com o aquecimento global (e posterior era do gelo) real e irreversível.
E não arriscam pouco, se tivermos em conta o pânico dos mandantes na nação mais abastada do planeta e a sua relação próxima com o tecido empresarial de primeira linha que, nos EUA, financia boa parte da investigação científica. Um dilema cruel para quem tenha escrúpulos e conhecimentos científicos ou dados quanto baste para corroborar as piores previsões.

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Foto: sharkinho

Em 1970 o número médio de tempestades de grau 4 ou 5 era de dez por ano. Desde 1990 esse número quase duplica (18). E é aqui que reside a fonte de preocupação: não se trata de uma questão de frequência mas de intensidade dos furacões. Os que acontecem são cada vez mais devastadores e surgem na mente de muitos como o sinal óbvio do descontrolo da mãe-natureza, meio grau centígrado mais quente no ar e nos oceanos (onde estas broncas em rodopio se formam).
O efeito estufa há muito deixou de ser um papão apocalíptico sem bases científicas. E mesmo que essas faltassem, os indicadores não cessam de dar à costa em turbilhão.

O pesadelo que os americanos viveram e que as condições climatéricas no Golfo do México (a temperatura da água, três graus acima do normal) parecem favorecer na repetição é apenas a ponta de um qualquer iceberg à deriva em resultado do degelo nas calotas polares. Isto não é ficção científica. É o caos a desenhar-se em directo enquanto nos refastelamos no sofá e aguardamos pela nossa pancada, sem levar a sério as mais elementares medidas de contenção do problema.
É mentira? Quantos de vós, conhecendo de perto o impacto da seca no nosso país, já afinaram os autoclismos ou reduziram o volume das respectivas descargas? E estou a referir uma catástrofe conterrânea que, embora menos espalhafatosa na acção, deixará marcas bem visíveis no país e ainda nem sabemos exactamente até onde farão sentir-se as suas consequências.
É este tipo de negligência global que dá força a idiotas como George Bush para travarem com o seu veto encapotado todas as iniciativas que possam por cobro a esta espiral de loucura.

frutos secos.JPG
Foto: sharkinho

Estamos numa boa e nem com o pandemónio a instalar-se de armas e bagagens à nossa volta (esperem só até a seca vos atingir as torneiras) nos sentimos compelidos a levar estas cenas a sério.
Perante isto, um gajo quase torce para que dobre o preço do petróleo e assim encostem às boxes os excessos que nos andam a tramar.

Há dinheiro ou (ilusão de) conforto que justifique esta hipoteca do futuro das gerações posteriores à nossa?
A resposta sincera a esta pergunta deveria bastar para encher de juízo as nossas cabeças e moldar-nos o comportamento.
Será?
publicado por shark às 00:27 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (19)
Terça-feira, 04.10.05

INCONTORNÁVEL

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Luna no Parque das Nações
Foto: sharkinho



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Luna em Praga
Foto: sharkinho



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Luna... no céu.
Foto: sharkinho


A Luna é como Nosso Senhor. Está em toda a parte... :)
(Julgavas que me tinha esquecido, gaija?)
publicado por shark às 16:06 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (9)

A POSTA NA FOTOGRAFIA (5)

As águas calmas junto à costa tranquilizaram-no ao ponto de se permitir boiar. Quase não dava aos pés, confiante na corrente mansa que o arrastava para terra. Embalado pela ondulação ligeira, olhou para o céu e sentiu-se um semideus.

Tostava ao sol, embrenhado em cogitações e fantasias, certo da sua vida fácil e despreocupada, quando o tubarão surgiu do nada e sem qualquer tipo de emoção o abocanhou.

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publicado por shark às 16:00 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (7)

A PROPÓSITO DE DRAGÕES...

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Love hurts...
publicado por shark às 15:40 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (8)

RASTOS DE MIM

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Foto: sharkinho

Posso morrer amanhã. Não faço ideia. E por isso preciso deixar ditas as coisas que nunca poderiam ficar por dizer.
Porque o tempo avisa-nos da sua correria, mas nós fazemo-nos esquecidos e deixamos sempre para o dia seguinte as tarefas que achamos possíveis de realizar na boa. Amanhã ou depois.
Mas não é assim que a coisa funciona.

Recuso a noção da vida como um dado adquirido, como uma companheira leal e dedicada que temos por certa ao nosso lado e nada fazemos por conservar. Está ali e pronto.
Não. Eu prefiro acreditar no tal piano de cauda que pode mesmo aterrar-me na mona e mandar-me desta pra melhor. Ou pior, feito num harmónio que mal consiga tocar as notas baixas da sobrevivência precária. Prefiro encarar de frente a minha condição de mortal construído com materiais muito flexíveis mas de resistência duvidosa, menos rijos do que a maior parte do que me rodeia.
Parece pessimista? Não é.

Até poderei estar a blogar na plena posse das minhas faculdades daqui a vinte anos. O que direi nessa altura poderá ser dito tarde demais para produzir o efeito que hoje alcançaria. Rejeito a possibilidade de me arrepender então. Antes opto por arriscar falar demais, por deixar no que escrevo, no que digo e no que faço a marca da minha passagem por este mundo e a da passagem dos outros nos cruzamentos da minha. Poucos(as) seguem ainda no mesmo trajecto que eu, lado a lado, por uma data de razões que este blogue algures explicou ou explicará. E é a essa minúscula multidão que devo o penhor da minha gratidão, as palavras que agradecem o bem que o seu amor me faz e o quanto se revelam determinantes aos meus olhos.

A minha felicidade é avessa à solidão e esta é o meu maior terror. Só me protege o amor e é esse que me esforço por louvar, aqui e noutros suportes (como a vida que se faz lá fora). Sou grato a quem me ama e a quem me oferece o pretexto, a própria pessoa, especial, para também eu conhecer de perto o arrebatamento da paixão. A minha alegria é feita das emoções que me fazem sentir vivo como deve ser.
Feliz porque tenho com quem me partilhar, com quem chorar, com quem rir às gargalhadas em noites bem passadas e com quem fazer o melhor amor que o mundo conheceu. Esse sou eu. Um gajo capaz de morrer amanhã, cujas pegadas não sejam sopradas pelo vento, confiadas ao esquecimento por não haver quem sinta saudades quando me ausentar de vez. Por não haver quem me queira recordar. Essa é a morte verdadeira para mim.

A vida é o espaço que me foi destinado para dar conta de mim nas pessoas que o destino encaminhou para um rumo paralelo ao meu. As pessoas que me interessam, interessadas pelo que tenha de bom para lhes dar. As pessoas que me querem amar, generosas, para elas as prosas que consigo debitar. Mais a certeza do meu melhor, reservado a quem o saiba merecer, dentro dos critérios que estabeleci e aceito sem reservas negociar. Cedências. E outras exigências consentidas pelo amor.
Uma equilibrada permuta em que ninguém saia a perder.
Eu sonho conseguir o equilíbrio em mim na gestão razoável de um coração inesgotável enquanto receptáculo do amor, o de pai também. Também sonho ultrapassar um dia a mais exigente fasquia e perceber, no fim, que amei alguém até esse suspiro final da minha paixão. Tenho a razão e pretendo prová-la em vida, para deixar a quem me suceda um mapa bem traçado do que vale a pena cultivar. O tesouro da amizade e do amor, dos prazeres que a vida nos dá, de bandeja, coisas divinais. E ao alcance do mais comum dos mortais.

Luto pela conquista do amor e ainda com mais ardor quando está em causa a sua preservação. Um amor verdadeiro não se pode substituir, apenas se disfarçam as mazelas resultantes da sua inexplicável extinção. Tapam-se os buracos na alma com remendos de euforia para colmatar as lacunas de emoção. Eu recuso aceitar males menores. Quero amar a sério até ao fim, é esse o estandarte que carregarei enquanto respirar e que me identificará na última morada, depois.
Agora está na hora de me embebedar de paixão, de mergulhar no espaço que a vida me dá e sentir nas veias o sangue a pulsar. Acelerado pela chama que me orgulha atiçar.

Agora está na hora de amar.

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publicado por shark às 01:32 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (34)
Domingo, 02.10.05

COSTELA ALENTEJANA

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Foto: sharkinho

Desde que me conheço sou um apaixonado pelo Alentejo. Sempre afirmei, aliás, que se pudesse ter escolhido um ponto do país de onde ser originário seria algures na planície alentejana.
Estou-me positivamente cagando se estou de alguma forma influenciado pelo facto de amar uma mulher daquela terra. Não é apenas disso que se trata e espero que as palavras que escreverei o confirmem, hoje e no futuro. E mesmo que seja disso que se trata não vejo nada de errado o sigo o meu caminho com a mesma passada.

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Foto: sharkinho

O Alentejo é o único local do nosso do país e do planeta (dos que já pisei) onde me sinto em ligação directa à terra, onde entendo o que me une ao universo que me rodeia, aquilo que sou. Só senti algo de similar na savana dos países africanos banhados pelo Índico que tive a felicidade de conhecer.
De resto o horizonte é parecido, na interminável alcatifa amarela pintalgada de verde aqui e além, mais o branco ocasional do casario caiado com brio e vaidade, e no tapete dourado com árvores isoladas a colorir de esperança a imensidão que nos oferece a paisagem de Masai Mara (Quénia).
São terras que exercem sobre o nós o poder que as cidades abafaram sob camadas de asfalto ou de betão que nos afastam da essência e nos mergulham na desorientação.
Parte da infelicidade latente dos citadinos reside aí.

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Foto: sharkinho

E as pessoas, sim. Os alentejanos são únicos e especiais. Mexe comigo a profundidade do seu sentir, expresso nas canções que me turvam de lágrimas o olhar e embargam a voz. Seduz-me a forma simples como encaram o destino em tudo o que tem de mau e apreciam o que de melhor lhes dá. Encanta-me o seu orgulho pela terra que os viu nascer. Enche-me de alegria o seu talento natural para acolher, o jeito espontâneo para serem excelentes anfitriões. Sempre me senti bem vindo na parcela do território nacional com que mais me identifico, do estado de alma (o Alentejo é Fado) à gastronomia (como o simples se pode requintar...) passando, sem dúvida, pela intensidade das emoções que aquelas gentes transmitem a todo o instante quando falam das coisas da vida, tudo exponenciado pela sua natureza sentimental. Pela forma bonita como cultivam o amor que nos dão.

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Foto: sharkinho

Sinto-me ligado ao Alentejo como se estivessem nessa terra as minhas raizes mais profundas, como algo embutido em mim à nascença. E agora mais do que nunca, claro está, e outra coisa não seria de prever. Assumo-o sem complexos ou hesitações.
Ademais, no meu Sul existe agora um mar de razões para sublimar esta atracção.

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Foto: sharkinho
publicado por shark às 17:18 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (63)
Sábado, 01.10.05

A POSTA A MEIAS (Live from Queijos City)

a dois.JPG


Em pleno Alentejo (where else?), enchemos o peito de cor e de luz. A vida corre serena por estas bandas, mas acontece com a intensidade do sentir desta terra que me seduz.
A terra e as pessoas. O amor espalhado pela planície sem fim, nos olhares que se perdem no horizonte por detrás do rosto de quem queremos absorver a cada instante.
Sabe bem ser feliz.
A dois.

Sharkinho

Serpenteámos com a estrada em direcção ao céu. Azul, muito azul, infinito azul. Mais a cal branca de uma ermida perdida no alto do monte, com uma imagem de Nossa Senhora a abençoar o local e as suas gentes. Pedem-se graças, materializadas em velas e flores.
E em redor a terra queimada, castanhos em diversas tonalidades, numa imagem asfixiante de sede e de pó.
Belo e agreste, imenso e selvagem, intenso e sereno, o Alentejo entranha-se nos poros e enche-nos a alma de paz.
E nós, duas gaivotas em terra firme, demo-nos as mãos, voámos sobre a planície e trouxemos connosco aromas de sal e de mar.

Mar

ermida ao sul.JPG
publicado por shark às 15:44 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (23)

Sim, sou eu...

Mas alguém usa isto?

 

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