Domingo, 11.09.05

EM PLENA ACELERAÇÃO

pelas ancas.jpg

Nunca experimentei o amargo sabor da derrota nas questões do coração. Coincidência, dir-se-á, e eu direi talvez. Mas os factos estão à vista e declaram-me vencedor. Sempre no final da disputa, a conquista é uma luta, é para mim acenada a bandeirola de xadrez.
Corro por gosto no campeonato da paixão, acelero até quase me despistar. Nunca aconteceu, porém. E jamais desistiria a meio dessa intensa competição, cioso do meu quinhão, firme no querer. É minha à partida a chegada no primeiro lugar.
A felicidade é o meu trofeu.

A vida é uma corrida e o tempo escasseia para as vitórias no amor. Tenho pressa de sagrar-me campeão. Contudo, a única glória que procuro é a certeza de fazer alguém feliz, o combustível que alimenta o bólide em que me transformo quando existe um objectivo que valha a pena alcançar. Porque alio a vontade ao poder da minha fé.

A vaidade não me cega quando ostento assim os galões. Dados adquiridos não existem para mim e em cada dia está em causa a revalidação do que preciso merecer. Trabalho de manutenção, nos bastidores, máquina afinada com precisão. O culto dos meus amores.
Um prazer a que me entrego com inteira devoção.

Acumulo esta experiência e aviso a concorrência: o passado já morreu.
O presente é todo meu. O futuro até ao fim.

E sorrirá só para mim.
publicado por shark às 12:25 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (4)
Sábado, 10.09.05

CINCO MINUTOS OU MAIS

red1.JPG

O turista europeu ficou sentado nos degraus de madeira diante da loja. Nenhuma das pessoas em seu redor ficou de pé. A explosão varreu a rua como um bafo incandescente do demónio, os estilhaços voaram sem destino em quase todas as direcções. O som de vidros partidos durou alguns segundos para lá da deflagração. Depois, os gritos sobrepuseram-se a todo o tipo de sensação.
Ainda sentado, o turista percorreu o chão à sua volta com o olhar e viu muitos restos das pessoas que animavam a rua com as suas existências poucos minutos atrás.
Não percebia o que acontecera e sentia-se enfraquecer. Pousou a mãos nas pernas e não as reconheceu como suas, esfaceladas. Viu um jorro vermelho que julgava ter origem no corpo inerte mais próximo do seu. Depois viu um jovem que gritava palavras de ordem ou pedidos de socorro, não tinha a certeza pois não as ouvia.

O jovem rebelde, filho daquela terra manchada de dor, berrava o ódio que sentia. Excitado pela visão infernal que o cercava, enlouquecia e esquecia que a morte ainda pairava ali. Queria saudar uma vitória, rara alegria, não pensava e sorria perante a devastação e o horror.
Caminhava, punho erguido, por entre o caos. E ignorava a cólera garantida por parte da facção hostil.
Deteve-se a poucos metros de um loiro, talvez alemão. Patético, desfeito, sentado nos degraus em frente das ruínas de um estabelecimento onde nunca mais o iriam atender.
O jovem não reprimiu uma gargalhada, nervoso. Descontrolado, deixou-se dominar pelo choque e pelo absurdo da situação e riu até quase lhe falhar a respiração.
O turista, artéria dilacerada por um estilhaço de metal, tombou sobre o lado direito sem emitir qualquer som. Ainda não havia entendido o que se passara quando a hemorragia lhe esvaiu o tempo que restava e o pesadelo chegou ao fim.

O soldado chegou entretanto ao local. A rua estendia-lhe diante dos olhos um tapete feito de gente mutilada, moribunda, gente azarada que o acaso escolheu para ceifar. Deus não seria que nenhum Deus permitiria uma carnificina assim. Perturbado, o soldado vomitou.
Quando recuperou o controlo, estranhou o som das gargalhadas e decidiu investigar. Com prudência, passou a vista de relance pelos telhados que restavam em busca de um atirador emboscado e depois avançou, dedo tenso no gatilho, por entre o tapete vermelho estendido à sua passagem em nome da libertação de alguém.
Porém, a mensagem de liberdade não o sensibilizava e eram opostas as razões que o colocavam naquele cenário cruel. O riso do rapaz, histérico e despropositado, entrou-lhe na alma com a força de um trovão. Passo a passo, o soldado tomou posição num ponto de onde não poderia falhar.

O jornalista ferido, manga da camisa enrolada na cabeça para estancar o sangue que escorria, fotografava sem interrupção para não ter que pensar as imagens captadas. Registava por dever o que a razão lhe dizia para ignorar, instinto de sobrevivência obliterado pelo espírito de missão.
Rostos de muitas raças e certamente de várias nações, máscaras inexpressivas de vítimas que desconheciam tal condição, mortes súbitas gravadas na mente e na película em instantâneos de terror.
A lente captou um momento de agitação. Um jovem moreno que ria a despropósito no meio da rua e perto dele um soldado que pouco depois disparou, gatilho premido em simultâneo com o obturador.
O jovem, atingido na nuca, parou de rir e tombou como uma marioneta sobre os corpos desfeitos de outras vítimas de ocasião.

O jornalista não viu quem o agrediu com uma coronha, mas adivinhou, ainda antes de ficar prostrado de bruços, meio desmaiado. O soldado vingador apercebeu-se do sucedido, mas não desistiu de primeiro rolar o corpo do rapaz para cima. Certificou-se que o inimigo estava morto, a única garantia de que não voltaria a emitir qualquer som. Depois, dominado pela ira, avançou alguns metros até junto do repórter que rastejava sangrando no pó.

A segunda explosão interrompeu a sequência que se previa. Chegaria do céu, desta feita, como se apenas do céu pudesse chegar um final para aquela violência. Alheio à presença de tropas amigas nas imediações do alvo determinado, o piloto de caça soltou o seu perdigueiro feroz e este farejou o sangue com a sensibilidade de um tubarão. Um míssil apenas, mas bastaria para extinguir toda a vida que restava no perímetro do atentado letal.

Minutos depois, uma criança pequena, maltrapilha, passeou sem nojo ou emoção por entre a pasta de entulho com pessoas. Procurava outra criança que conhecia e que sabia estar ali no momento em que tudo aconteceu. Encontrou-a, o que restava, mais aquilo que procurava, bem firme entre os dedos crispados pelo espasmo final.
Com um sorriso de felicidade, desdentada, correu pela rua fora com o peluche chamuscado na mão, o trofeu que cobiçara quando com a outra criança se cruzou, nem cinco minutos atrás, e foi procurar um canto sossegado na esperança de brincar, sem medo da morte, cinco minutos que fosse. Ou mesmo um pouco mais...
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publicado por shark às 17:39 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (7)
Sexta-feira, 09.09.05

ENGUIÇO QUEBRADO

palco de fe.JPG
Foto: sharkinho

Dizem que é perigoso alardear a felicidade que sentimos, pois isso poderá atrair invejas e outro tipo de maldições. Não acredito. E mesmo que acreditasse teria a obrigação de reunir a coragem necessária para enfrentar esses papões.
Acabo de atravessar um dos períodos mais complicados das minhas quatro décadas de presença nesta vida que algum milagre me concedeu. E hoje, ao fim de um chorrilho de más notícias, desilusões e muitos dias de aflição, recebi um sinal positivo que me renova a fé nos dias melhores.

A esta reviravolta no meu humor também associo o facto de sair quase incólume da situação. Sem perder o que mais falta me faz, no meio do meu desgosto e das minhas reacções de animal ferido pelas contingências que o destino (ou o mau olhado que acima sugeri) me preparou.
Sinto-me capaz outra vez. Capaz de agir em conformidade com o que espero de mim e o que me merece quem me prova todos os dias a sua estima pelo tubarão.

Ao longo do ciclo de coincidências inoportunas, revelações indesejadas, ameaças veladas e azares em catadupa que agora encerrou vivi tempos que não desejo repetir. Valer-me-ei das lições que entretanto aprendi e recuperarei a força gasta pelo amor na minha protecção. Para que a desdita ou a combinação de males menores não voltem a fazer-me vacilar. Seja contra quem ou o que for.

Hoje sinto-me feliz e partilho convosco sem medos a minha alegria. Amanhã logo se vê.

Bom fim-de-semana a quantas(os) o passem à distância deste meio que nos reuniu. E os meus votos de que com as minhas palavras consiga distribuir por quem as lê a mesma esperança que este dia me renovou. E um bom dia, também!
publicado por shark às 11:18 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (20)
Quarta-feira, 07.09.05

A POSTA DISPARADA

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Disparo com o meu olhar balas de desejo. Arma apontada ao centro da minha atenção. Toda tu. Um alvo feito de perfeição.
Atingida de raspão pela vontade de te chamar a mim, tocada de passagem pelo corpo que me denuncia o festim. Na alma também. O meu sorriso a confirmar.
Rasgo com os meus dedos os caminhos de sal na tua pele humedecida. Chamo-te minha no abraço que nos cola. No meu corpo que se enrola ao teu como se o quisesse absorver. A química letal. E o olhar apaixonado, semicerrado, afrodisíaco natural.
Quando me sentes em ti.
Rebento de prazer quando germina a semente da tentação que me despertas. Depois de escutar a tua voz, adubo, explosão. A mais bela expressão de um rosto coberto de maravilhas e de emoções.
Depois recarrego a arma com beijos, as minhas balas de gratidão.

E aponto ao coração, para te matar de amor.
publicado por shark às 23:51 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (40)
Terça-feira, 06.09.05

PRISIONEIRO DA SOMBRA

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Foto: sharkinho

Aberrante, aquele local parecia encaixado no cenário com o único propósito de realçar a pobreza franciscana da paisagem que o rodeava. O mar ajuda sempre a compor o boneco, mas a zona primava por uma esterilidade que se reduzia a um aglomerado disperso de calhaus negros e sem vida, até onde a vista alcançava solo firme. Excepto ali.
Tão disparatado como um oásis no meio do areal sem fim, o arvoredo explodiu de entre o tapete de rocha e recreou umas centenas de metros quadrados de paraíso, na única mancha verde visível a quilómetros, para além do próprio mar em dias de muito sol.

Aquela zona costeira não fazia parte do florescente litoral que atraía muitos estrangeiros para o país. Sem praias, com um clima hostil, como se a natureza aproveitasse aquele espaço para ensaiar as punições com que tentava vergar a soberba humana, pouca gente tendia a fixar-se em tais paragens.

Mas sempre houve quem buscasse no inóspito a resposta para as perguntas que o comportamento dos outros nos suscita e na solidão a paz que as multidões parecem nunca conseguir conservar. É desespero de causa, a fuga enganosa para um ermo assim.
Todavia, algures no século XVI, umas quantas famílias plantaram um conjunto de casas à beira da falésia, determinadas ninguém sabe pelo quê a criarem raízes por ali. Como as árvores surgidas do nada, inclinadas para terra como que sopradas pelo mar. Mas era o vento que as empurrava a todo o tempo, o mesmo que trouxera um punhado de gente apenas com o propósito de fugir. De quê, ninguém sabe. Nem nos registos mais antigos, quase dos dias do primeiro lote de povoadores, se encontrariam referências à verdadeira motivação do grupo de pioneiros que escolheram desbravar a aridez de uma terra por baptizar.
Baptizaram-na uns cinquenta anos depois, quando a décima habitação construída, mais uns barracões para resguardo dos artefactos de pesca, lhe justificaram um nome. Vila Aparecida. Do nada, deveriam acrescentar, agora que o tempo passado sobre a data da fundação já permite extrair a mais clara das conclusões: ninguém quer morar num sítio assim.

Continuam a ser poucos os que ficam, excepção criada apenas pelo grupo de pessoas associadas à manutenção do velho e quase inútil farol. Algum iluminado cacique impingira, no glorioso ano de 1834, a ideia de proteger a navegação dos temíveis rochedos que haviam despedaçado, no ano anterior, o casco de um importante galeão. Saíra cara à Coroa a factura daquele naufrágio, tão cara que justificaria a construção do mais imponente e absurdo farol da história da nação.
Ninguém navegava em águas tão hostis. Apenas umas quantas embarcações desnorteadas, fustigadas por um temporal, que o mar decidia empurrar naquela direcção, de nada lhes valia a luz intensa que anunciava a presença próxima da morte, dada como certa naquela armadilha de rochas afiadas e letais. Vila Aparecida era nome de maldição entre os velhos lobos-do-mar. Sobretudo os poucos da terra que sobreviviam à faina impensável que insistiam manter, gerações de homens tragados pelo oceano, fama de bravos e insanos que pouco proveito extraiam das águas revoltas com barquinhos de brincar. Servir-lhes-ia de algum consolo a luz não muito distante, ilusão de salvamento que raramente chegava a acontecer.

Na falésia, afogavam-se em lágrimas as viúvas condenadas a mirrarem sozinhas, ressequidas pela salmoura que o vento trazia das ondas e borrifava no casario.
Podia ler-se, numa crónica muito antiga de um pároco local, a história de um menino que todos os dias rumava para o amontoado de árvores, pouco antes do nascer do sol, à procura de uma caravela que o levasse dali. Vira uma, em pequeno, que acabaria desfeita em pedaços de madeira espalhados à tona. Teria sido tão grande o desgosto que o petiz chorou, afirmava o escriba insuspeito, uma semana seguida. Depois, parou de chorar. Quem por ele choraria, dez anos passados sobre a primeira tragédia, seria a mãe que o viu deitar-se ao mar em perseguição alucinada de um barco distante que só ele descortinara no breu. Era tão irreprimível assim a sua vontade de fugir. O corpo do rapaz nunca regressaria e, por indicação dos religiosos e dos políticos locais, acabaria por se erigir outro mamarracho na falésia sob a forma de uma diminuta capela. Um mausoléu, para espantar assombrações, tal e qual o velho farol agora em ruína...

Sentado na copa de uma árvore vergada, tento imaginar a figura do menino cujo trauma lhe cristalizara na alma a vontade de sair dali, olhando o mar em silêncio à procura de recortes mais escuros ainda do que o horizonte habitual. De sombras da esperança de um dia partir.
E recordo outro menino que eu fui, diariamente ao pôr-do-sol, à espera das estrelas no céu que simbolizavam a minha própria vontade de fugir, o destino alternativo à miséria de vida que me esperava ali. Naves espaciais pilotadas por mim. Ou discos voadores com pequenos marcianos que me sabiam disponível e preparado para a longa viagem. Só de ida, que o regresso não seria hipótese a considerar.
Nunca apareceram, os alienígenas ou os meus talentos inatos de explorador espacial. Mas não tive a coragem e a loucura necessárias para me catapultar da falésia rumo ao céu estrelado e ao sonho de recomeçar a existência num melhor ponto de partida. Optei pela resignação. Aprendi a arte de iluminar o vazio, sempre que surge uma verba para reparar o obsoleto mecanismo do facho que desvenda aos escassos habitantes de Vila Aparecida a realidade do seu cativeiro. Como o holofote sinistro de um campo de concentração, sem nada de bom para iluminar.

Destilo as amarguras de faroleiro frustrado na noites inúteis de vigília do vazio.
Todavia, e isto desconcerta-me, quando a máquina suspende os gemidos de angústia por lhe prolongarem a agonia, aproveito a folga forçada e a luz apagada para olhar em frente e na minha mente permitir que desfilem os contornos difusos, as sombras da minha ilusão de fugir um dia, escondidas por detrás da minha vontade rejeitada de viver num lugar triste mas ao qual sempre senti (e sei) realmente pertencer.
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publicado por shark às 12:11 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (17)
Domingo, 04.09.05

A POSTA NA FESTA

bandeiras vermelhas.JPG

Só um dos partidos portugueses conseguiria organizar um evento assim. Esforço colectivo, voluntário. Horas oferecidas pela mais ambiciosa das realizações.
Impressiona, seja qual for a perspectiva ou a ideologia. Eu não sou comunista, apenas de esquerda. Mas aprecio a capacidade de mobilização em torno de um ideal, pois é dessa mola que nascem todas as revoluções.
Deixo-vos com algumas imagens que retratam parte do que retive desta festa popular. Uma boa impressão, aliás.

ches.JPG

O rosto mais visto na edição 2005 da Festa do Avante.

avante shark.JPG

O shark estava lá...

multidao.JPG

...e o resto do oceano também.

festa rija.JPG

Com uma pedalada notável...

avante beja.JPG

...e uma irrepreensível organização (vi com estes dois que a terra há-de comer)
publicado por shark às 21:44 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (29)
Sexta-feira, 02.09.05

A POSTA ENROLADA

sex simbol.gif

Fiquei feliz quando pude olhá-la de novo. Sentia-lhe a falta, por vezes. Do cheiro intenso, único, que a distinguia. Da sua influência decisiva no meu humor. Do fumo que parecia envolvê-la como um manto de nevoeiro numa cidade portuária qualquer. Quando a olhei não pude deixar de sorrir.

Não tardámos enrolados, ela sobretudo. Enrolada a preceito, depois de aquecida com jeito, pontas da seda nos extremos das minhas mãos. As pontas que lambi, sem pressa, mais o caminho a percorrer entre cada uma delas.
Espalhei a substância a todo o seu comprimento, lentamente, até ao momento de a enrolar, de completar o movimento que a recheava como uma lula. Depois, cobri esse recheio com uma fina película de papel, como uma couve lombarda abraça uma salsicha. E o meu apetite por ela despertou.

Peguei no isqueiro e rocei a chama numa das pontas e envolvi com o calor dos meus lábios a extremidade oposta. Dela inspirei uma obra-prima, um clássico da ficção, uma maravilhosa nave espacial, em voo picado para os mais altos planos. Depois expirei. E inspirei outra vez, introduzi-a aos poucos em mim. No meu sangue já ela corria quando a coisa me bateu.

Muito mais do que a primeira que fumei.
publicado por shark às 15:05 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (16)
Quinta-feira, 01.09.05

RASGAR COM PALAVRAS

pelas costas.JPG
Foto: sharkinho

Às vezes apetece-me rasgar com palavras este fundo branco que nos serve de papel virtual. Ou pincelar com fúria manchas de cor escritas a partir da minha vontade de agredir o branco com explosões de prosa. Cobri-lo de uma ponta à outra com algo que o envergonhe da sua inexpressividade e o faça engolir o desafio, o do vazio que se encontra quando uma nova folha nos domina o monitor.
Branca e sem nada para nos dizer. À espera do que vier. Parada.

Penso na forma adequada de enfrentar a situação, um tema à maneira ou uma história porreira. Mais uma foto catita ou uma imagem bonita para agradar a quem a possa ver. A esta folha rasgada, mal ou bem, pelas palavras tecladas por mim. Que os teus olhos acabam de ler. Nada a fazer, o fundo branco acinzentou. Salpiquei-o com o sangue preto que as palavras espalham no simulacro virtual de papel. Cortes horizontais, para que por detrás de cada linha, de cada frase, possamos imaginar um ocaso magnífico ou qualquer outro retrato que ocorra à imaginação. E disso se trata, de cada vez que enfrentamos este manuscrito electrónico na arena da criação. O branco desarmado contra o gume afiado das palavras que o rasgarão em pedaços de gente falada em português.

Podia contar-vos uma história, das muitas que as pessoas nos dão. Coisas da vida. Ou podia dissertar de forma apaixonada acerca de um tema que me seja caro. Com a convicção de quem esgrime um punhal diante da tela vazia. Podia simplesmente partilhar convosco emoções. Coisas da vida também, coloridas. Na primeira pessoa ou mesmo na condição de voyeur. Mas não o farei desta vez.
Apenas vos exprimo a minha vontade de atacar esta coisa branca que me intimida porque me afasta de cada um de vós, enquanto descubro como a preencher em condições.
E depois a dor de perceber, às vezes, que não valeu o sacrifício da folha postiça. Um remorso, por manchar de cinzento a ausência de cor, em vão, e afinal comprometer a aproximação desejada. Contigo, que lês estas palavras que espalhei pelo monitor, sejas quem fores, em busca de algo diferente que eu tenha para te oferecer em troca do tempo que me dás.

Mas hoje, nesta posta de recurso, a folha branca sou eu.
publicado por shark às 03:07 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (26)

Sim, sou eu...

Mas alguém usa isto?

 

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