Domingo, 05.12.04

CONFLITO DE GERAÇÕES

- O tipo foi ao estrangeiro na boa, regressou quando quis, foi dar uma palavrinha à juíza e ainda lhe sobrou lata para ir à bola e lançar um livro nas calmas...
- Estás mesmo velho, pai. Não me digas que ainda és do tempo em que ser arguido era uma vergonha...
publicado por shark às 15:29 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (5)
Sábado, 04.12.04

A POSTA DETERMINADA

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O autor, na sequência do esforço intelectual para produzir esta posta...

Discuti o assunto pela primeira vez nos tempos do liceu, no contexto da disciplina de Sociologia. Na altura as respostas foram pouco esclarecedoras, até porque existiam duas correntes de opinião distintas que se antagonizavam.
De um lado estavam os que defendiam a preponderância dos factores genéticos, a hereditariedade e afins. Do outro, os que advogavam a influência decisiva dos factores externos (exógenos?), o ambiente circundante que nos molda feitios e decisões.
Abundam os argumentos, até porque a questão é recorrente. Recordo-me até de um spaguetti de nome Lombroso que media os crânios dos condenados com vista a estabelecer um padrão. Este foi-me apresentado, já na faculdade, por um professor que não escondia o seu entusiasmo pela teoria da medição das carolas. Até na forma do rosto seria detectável a maior ou menor propensão para a criminalidade de um indivíduo, o que tornava suspeito (em teoria) qualquer irmão gémeo de um marginal.

Confesso que não afino por esse diapasão. Rotular implica estigmatizar. E se filho de peixe sabe nadar é porque num ambiente aquático não lhe restam alternativas. E se quem sai aos seus não degenera, isso não implica necessariamente um desprimor caso se verifique o contrário.
O ambiente será então o factor determinante? Parece mais fácil de assumir, mas nesse caso teríamos demasiadas excepções à regra para a consolidar. Não são raros, nem surpreendentes, os casos de filhos de perigosos bandidos, a cara chapada dos progenitores, que se revelam cidadãos exemplares. E vice-versa. Lá se vai o padrãozinho catita do cientista social...
Claro que seria estúpido catalogar TODOS os indivíduos nascidos em determinados ambientes e condições sob um mesmo epíteto. Como seria imbecil considerar inabaláveis as conclusões dos estudiosos que apontam para a certeza de determinados traços fisionómicos corresponderem a personalidades específicas, a história dos fleumáticos e dos coléricos e por aí fora que tanto estimulam os analistas da nossa mona. São certezas tão válidas como as que recolho da leitura diária do meu horóscopo ou da previsão meteorológica para amanhã ou depois.

Até porque a estatística não passa de um mero indicador, sobretudo quando estão em causa as pessoas. Se o outro comer o bife todo, eu fico com metade dos créditos mas também acumulo uma fomeca desgraçada.
Daí, mantenho uma posição prudente e jogo na tripla. Sem uma resposta convincente, ignorante assumido em matéria de determinismo, gostava que alguém mais esclarecido me explicasse em português corrente porque não sou abastado como a minha tia (tão parecidos os nossos crânios e afinal...), porque não sou cadastrado como um puto da minha criação e, acima de tudo, porque é que não tive ‘uma semana favorável’ como afirmou a astróloga Maia e porque sistematicamente saio de casa armado em toino com o guarda-chuva na mão e tenho que voltar atrás para ir buscar os óculos de sol? Ou vice versa?
publicado por shark às 12:58 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (8)
Sexta-feira, 03.12.04

COITUS ININTERRUPTUS

festas campo maior 163.jpg


Jogar às escondidas é uma actividade a que sempre dediquei alguma atenção e entusiasmo. No meu Bairro do Charquinho chegava a envolver cerca de cinquenta putos como eu, ao serão, numa algazarra infernal.
Levávamos aquilo a sério, pois envolvia garotas e todas as ocasiões para exibirmos os nossos talentos naturais eram esmifradas até ao sabugo.
Regra geral, o último a chegar ficava no coito. O coito era o local onde o que procurava fechava os olhos para contar até cem para dar tempo aos que se pretendiam esconder.
Mas o coito, sempre tão apreciado, era também uma espécie de fortaleza que o procurador tinha que proteger contando apenas com a sua atenção. A ideia era gritar o nome do(a) avistado(a) antes que este(a) atingisse o coito e dissesse um, dois, três. Se nos distraíamos à procura dos outros, seguindo pistas falsas ou ilusões ópticas, era um fartar vilanagem na retaguarda.

Os primeiros a serem descobertos eram os preguiçosos e os chicos-espertos. Escondiam-se o mais próximo possível do coito. Uns porque lhes faltava a pachorra para buscarem um esconderijo melhor mas mais distante. Outros porque tinham a mania que imitavam na perfeição um candeeiro de rua. Gente doida, claro está.
Os últimos a aparecerem, os que nunca praticavam o coito, eram os mais espertos e os que melhor dominavam a arte de se camuflarem. Julgavam-se vencedores, por serem sempre os mais astutos, mas davam secas de horas ao resto do pessoal e perdiam sempre o melhor da animação.

E depois havia os mais burrinhos, os atrevidos arrogantes e os cobardes, que quando tinham a desdita de vestirem a pele do que procura ficavam a dois metros do coito para terem a certeza de que não se deixavam enganar. Não procuravam ninguém, apenas aguardavam algum distraído que se deixasse apanhar. Ficavam histéricos com a emoção, sempre que isso acontecia. Acreditavam-se no centro das atenções.
Não raras vezes, já todos os outros dormiam a sono solto nas suas casas ainda o panhonha do coito andava a falar sozinho pelas ruas, gritando os nomes dos ausentes, procurando fantasmas, assombrado pela paciência que os outros jogadores exibiam, supostamente escondidos nas trevas até às tantas da matina.
Traídos pelo incumprimento das regras do jogo (que ninguém precisava de escrever, pois todos as conheciam), pela sua forma batoteira de jogar, pagavam o preço em notas de ridículo e alguns trocos da mais profunda desilusão. Quando se percebiam nessa triste figura, sozinhos no coito e cheios de vontade de brincar, coravam de vergonha e tinham vontade de desaparecer.
Mas no serão seguinte estavam lá outra vez e a estratégia era a mesma...
publicado por shark às 20:21 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (13)

POSTA PRA DESANUVIAR

Às vezes apetece-me disparatar. Depois respiro fundo, assobio para o ar e tento manter a compostura. Nem sempre sou bem sucedido.
publicado por shark às 18:40 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (18)

TRINTÃO EM RUÍNAS

rc-logo.jpg

Sei que tenho exagerado um pouco na promoção do rapaz. E nem sou o padrinho oficial do puto, pois o Monty abarbatou-me o título e a função.
No entanto, caiu-me no goto a arte (e o engenho) com que ele enfrenta o desafio de blogar. Não me restam dúvidas de que para lá do cromo blogueiro está uma pessoa com características ímpares e especiais.
Daí, ser-me-ia impossível ignorar o facto de o jovem João Pedro da Costa entrar hoje no grupo de elite que são os trintões.
Parabéns para ti, chavalo, e para todos quantos tenham o privilégio de contigo privar.
publicado por shark às 14:35 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (37)

A POSTA COM BICHO

Lembro-me dos bichos-da-seda. Era o assalto às sapatarias em busca de uma caixa adequada ao milagre da criação em miniatura que nos dava para assistir, todos os anos, como uma moda que ninguém queria interromper.
Lagartas horríveis, cheias de patas, molengonas. Que depois teciam um casulo esbranquiçado, parecido com um pequeno ovo, acabando por eclodir sob a forma de uma espécie de borboletas desenxaibidas e sem piadinha nenhuma. Depois restavam as caixas de sapatos vazias, ou quase, com uma espécie de teias de aranha e os ovos vazios no fundo a fomentarem sem sucesso saudades dos bichos que desapareciam antes mesmo de lhes atribuirmos um nome qualquer. Pouco comunicadores. No fundo das caixas, restos de folhas secas. E essas é que me trazem os bichos-da-seda à memória.
Lembro-me de ser um dos muitos que forravam os finais de tarde da avenida Grão Vasco, em Benfica, muitos pais e muitas mães e imensas filhas e filhos, todos atarefados na recolha do sustento para as lagartas da caixinha. Empoleirados nas árvores, os putos mais diligentes ou os pais mais persistentes, depois de um dia de trabalho, à procura da melhor folha para nutrir os seus exemplares de criaturinhas feiosas que a natureza tão bem sabe produzir.
Vaidade dos pais afoitos, com os putos orgulhosos da colheita exposta em tons de verde vivo sobre o fundo das caixas de sapatos sem a tampa com buracos para os bichos poderem respirar. Sorriso sereno nas bocas dos velhos que acorriam à zona de propósito para assistirem ao agitado ritual. Pássaros desorientados pela confusão, espantados para as copas dos eucaliptos à entrada da Mata, à espera do sossego que lhes trazia a partida do sol e das famílias entusiasmadas que rumavam a casa com a felicidade nos olhares.
publicado por shark às 13:14 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (15)
Quinta-feira, 02.12.04

CUSTOU-NOS MUITO A CRIAR

Tenho pouca afinidade com o país vizinho. Ou seja, para mim nuestros hermanos não passam de parentes menos afastados do que os italianos e mais afastados do que os brasileiros, para só citar parte da família. Nada me move contra a generalidade dos espanhóis, desde que se trate de pessoas de bem. Admiro a forma como têm desenvolvido o seu país desde a adesão à União Europeia. Respeito o denodo com que defendem os seus interesses. Que vivam felizes e prósperos por muitos e bons.

Contudo, olho para o passado e vejo uma tendência inegável para a usurpação do nosso território (ainda não está formalmente resolvida a questão de Olivença e o resto foi sempre na base da força bruta). Olho para o presente e constato uma tendência visível para se apoderarem do controlo da economia portuguesa (a mudança progressiva dos grandes centros de decisão para Madrid é uma evidência. O peso crescente das empresas espanholas e respectiva pressão sobre o nosso tecido empresarial é outra). E quando olho para o futuro das relações entre os dois países vejo pelo menos um sinal inequívoco de sarilhos vindouros: os famosos transvases.

Assumo-me, pois, algo desconfiado quanto ao país dito irmão. O recente episódio do Prestige avolumou a minha precaução quanto aos interesses de Portugal que uma atitude radical por parte de Espanha poderá um dia afectar. Porque são os interesses do meu país que urge acautelar e não me fio na frágil autoridade da UE nesse domínio.
A península ibérica só existe no plano da Geografia. É actualmente ocupada por duas nações distintas na língua, nos costumes e em todas as diferenças que nem uma federação instituída em prestações suaves poderá algum dia destruir. Os laços que nos unem são imensos como o são os aspectos que nos distinguem e consolidam enquanto duas realidades que não podem nem devem misturar-se.

A soberania simbólica é uma fantasia de papel. A Grande Europa só prevalecerá enquanto não existir uma convulsão que lhe desperte os múltiplos umbigos nacionais da sua aparente hibernação. Nas lições cruéis do passado ou nos acordos hipócritas do presente não vislumbro qualquer benefício real no iberismo apregoado pelo Pata Negra no Tapornumporco.
E prefiro jogar pelo seguro quando está em causa uma identidade que custou tantos séculos (e vidas, também) a consolidar.
publicado por shark às 16:58 | linque da posta | sou todo ouvidos | cuscar sem medos (15)

Sim, sou eu...

Mas alguém usa isto?

 

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