A POSTA NA MUDANÇA

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Há cedências que não estou disposto a fazer para fugir à inevitável solidão que feitios como o meu necessariamente acarretam. Existe um limite a partir do qual me sinto no direito perante os outros e no dever perante mim próprio de dizer basta e de enveredar pelo meu caminho, pela minha razão, mesmo sabendo que essa opção acarreta muitas vezes o afastamento definitivo de pessoas que me acompanham ao longo de segmentos mais ou menos compridos desta recta sem medida definida que é a vida de cada um.

Dessas obstinações que me caracterizam há uma que se tem destacado com frequência ao longo da minha presença na blogosfera: a incapacidade de virar a cara para o outro lado quando me sinto atacado por alguém. Uma estupidez, claro, que já me causou diversos desgostos, arrelias e preocupações.
Mas parece que esta forma de nos revelarmos, em postas e em comentários que nos vão definindo aos olhos de quem nos lê (observa), peca por distorcer de alguma forma alguns pressupostos da vida que acontece para lá deste suporte virtual. Reagimos de forma diferente, algo extremada, a impulsos que certamente nos passariam ao lado numa mesa de café.

Pelo menos é essa a ideia que tenho de mim e da falta de razoabilidade de algumas das emoções a que me permiti no convívio com esta nossa comunidade virtual. Estão registados alguns desses episódios na memória arquivada do que aqui se passou. E na minha memória também. Os amores, os ódios, os desprezos e muita admiração pelo que a maioria das pessoas se revelava capaz de produzir até dada altura, em que a blogosfera pareceu entrar numa crise colectiva de inspiração que afastou muitos “clássicos” do seu instinto blogueiro original.

A vontade de (nos) comunicarmos foi sendo progressivamente substituída pela proliferação de quezílias “públicas” (na dimensão social do relacionamento que aqui se produz) e mesmo pelo transporte de inimizades “de fora” para o quotidiano desta cena.
Não faltam exemplos do mal estar que se instalou nas relações entre muitos/as blogueiros/as, ou entre estes/as e os seus comentadores, a propósito das merdices mais disparatadas que, quantas vezes, assumiram proporções muito mais sérias do que seria normal.
E é difícil a pessoas como eu resistirem à tentação de alimentar as picardias, de enfatizar a dimensão das palavras (que não passam disso mesmo) que me eram dirigidas ou dirigia a alguém.

Por isso, e como a (re)conheço muito parecida comigo nesse domínio, fiquei agradavelmente surpreendido com a reviravolta que se produziu no discurso da Mar que agora encontramos na sua nova dimensão a solo e que subscrevo sem hesitações como uma vitória dela sobre um instinto estranho que se apodera de nós quando nos sentamos diante do monitor para interagirmos com quem nos aprecia ou detesta.
E o teor das suas últimas postas só por si bastaria para me fazer repensar a minha própria atitude perante esta realidade que tanto tempo e energia me consumiu até à data.
A vontade expressa pela Mar no novo amanhecer que pinta o Ponto sem Nó é uma vontade que pretendo partilhar e incentivar na parte que lhe toca. Porque é a que melhor serve os interesses de todos quantos partilhamos esta forma de comunicar.
É uma alternativa que só pode enobrecer quem a abraça e deve fomentar reacções análogas da parte de quem possa ter alguma reserva ou disputa que, a sério, a sério, devem sempre ser resolvidas fora do âmbito desta realidade virtual.
O objectivo de quem bloga, o sentido que tudo isto possa fazer, não passa pelo dispêndio de energia e de motivação em ataques e respostas sucessivas que em nada contribuem para nos engrandecer ou mesmo para satisfazer alguma necessidade intrínseca.
Serve apenas para tornar desagradável este suporte e para catapultar mais pessoas para fora desta realização colectiva. Saímos todos a perder, afinal.

Por tudo isto, porque de uma nova realidade se trata, renovo hoje o convite para conhecerem a dimensão que a nossa colega escolheu para o seu “regresso” à blogosfera.

E tiro o chapéu à coragem e a lucidez que lhe terá sido necessário reunir para, em pleno calor de uma “refrega”, inflectir o seu discurso daquela forma (juntando-lhe pedaços de si que melhor a definem aos olhos de quem pretenda conhecer-lhe melhor a essência). Tentarei seguir-lhe as pisadas nesse aspecto, tendo já dado alguns passos nesse sentido.

Mas para já, limito-me a registar com agrado e a enviar os meus parabéns pelo que espero ser o reinício de um percurso que o Espelho Mágico comprova, o charco acrescenta e agora anseio ver abraçado em pleno no Ponto sem Nó.
publicado por shark às 09:31 | linque da posta | sou todo ouvidos