ROOM SERVICE

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O hóspede, ainda em cuecas, preparava-se para vestir uma T-shirt (tinha-a precisamente enfiada na cabeça, tapando-lhe a cara e a visão) quando soou o barulho da porta do quarto que se abriu de surpresa.
Escutou uma interjeição de espanto, enquanto se esforçava por desimpedir a cabeça, e depois uma sucessão de pedidos de desculpa numa língua que não a sua.
Tinha acabado de ficar só no quarto, minutos antes, e não contava de todo com aquela intrusão.

Contudo, quando finalmente pode mirar quem assim o surpreendera, a sua boca rasgou-se num sorriso perante o que viu.
Sentiu-se apanhado de surpresa em mais do que um aspecto, pois a beleza da mulher que agora hesitava na soleira da porta entre ir ou ficar desmentia-lhe um estranho pressuposto. Na sua ideia, as mulheres da limpeza encaixavam num perfil diferente, num ícone de matronas feiosas que, de todo, não correspondia a um sorriso tão belo e a um corpo tão perfeito como o que se desenhava no interior da farda de trabalho da divertida criatura.

Incentivou-a a ficar, ultrapassando com a simpatia o embaraço da situação. A culpa era sua, que não cuidara de colocar a etiqueta no lado de fora da fechadura para indicar a sua presença no quarto.
“Não se preocupe, esteja à vontade que eu até estou quase de saída…”
E ela não se preocupou, antes arrastou o equipamento para o hall de entrada, fechando a porta nas suas costas, facto que não passou despercebido ao ocupante do trezentos e trinta e um.

Começaram a conversar, ela a arrumar e ele a acender o primeiro cigarro da manhã enquanto reparava melhor, discretamente, no milagre que o acaso lhe trouxera no início de um dia que começando assim nunca poderia ser um dia mau.
Ela era uma mulher encantadora, bem disposta, uma conversadora agradável. E não dissimulava o quanto a divertira a situação e o quanto lhe agradava a reacção do hóspede apanhado de surpresa daquela forma.
Ele era um homem descontraído, pouco dado a embaraços sem nexo, e apreciador de pessoas que partilhassem essa característica.

O cariz divertido daquele primeiro contacto quebrou o gelo de forma quase instantânea e conversavam os dois de forma animada como se tivessem passado o serão anterior na palheta no bar do hotel, alheios à diferença de estatutos que a vida lhes teria imposto naquelas circunstâncias se fossem pessoas com outro tipo de feitio.
Entusiasmada, ela acabaria por suspender a labuta e quedar-se-ia de pé junto a uma das camas enquanto revivia às gargalhadas os contornos caricatos de algo que sabia poder acontecer um dia, pelas histórias que as colegas veteranas lhe contavam, mas que para si constituía uma estreia.
E a sua, ao contrário das que lhe haviam descrito, estava muito mais divertida e sem a carga pejorativa de uma reacção hostil.

O diálogo duraria escassos minutos, mas parecia ter durado horas. E de repente alguns instantes de silêncio deram a ambos a ocasião de se observarem mutuamente e de sentirem instintivamente que o tempo era curto para algo mais que pudesse dali derivar.
Foi ela quem o quebrou, quando esticou uma mão e lhe mostrou as marcas que uma porta lhe deixara nessa manhã, atingindo-a de raspão e esfolando-lhe ligeiramente a pele morena.

Ele sorriu, ciente do que aquele gesto poderia representar, e de o quanto a sua atitude nesse instante definiria o desenlace de toda a situação.
Como um cavalheiro, não hesitou.
Segurou-lhe a mão de forma gentil, olhou-a nos olhos e beijou delicadamente a pele esfolada daquela gata borralheira que protagonizava o seu conto de fadas daquela manhã solarenga de Verão…
publicado por shark às 10:34 | linque da posta | sou todo ouvidos