NAS RÉDEAS DO MEU DESTINO

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De repente percebemos o quanto nos afastamos da nossa essência na pele de reféns de compromissos que o tempo nos esclarece serem assumidos em vão.
Abdicamos de forma inglória até do nosso orgulho, afogados nas cedências nas quais mergulhamos em nome de um ideal que os factos desmentem e as consequências cravam nas costas da nossa esperança como facas afiadas destinadas a fazerem-nos sangrar, panaceia medieval, como se fosse esse o melhor caminho para a cura das almas traídas pelas expectativas imbecis.

É inútil acreditar, pois nenhuma crença transforma em mentiras as evidências que nos gritam a realidade que rejeitamos. Não interessa se não assumimos aquilo que a vida nos prova inevitável, pois em cada novo capítulo o livro escreve-se sozinho e ignora as fantasias na mente do respectivo autor.
Passo a passo, as certezas desmoronam-se e com elas arrastam os pilares de sustentação da mais sólida das fés.

As histórias mal contadas e as promessas adiadas em nome de um amanhã feito de novas justificações para o que ontem se deixou por concretizar outra vez. Mentiras piedosas, algumas, e o fardo arrastado quase como uma obrigação em nome do que virá depois. Talvez.
Porque era uma vez um conto de reis. Mil escudos apenas, na moeda de um passado que entretanto se transfigurou numa ilusão sem sequência, numa sucessão de explicações absurdas para tudo aquilo que passou a correr mal.

A carreira mercenária abraçada como uma missão. Crises passageiras que se ultrapassam como barreiras destinadas a oferecerem-nos uma inestimável lição. Bandeiras desfraldadas perante o adversário que na sombra alicia, congemina com os nossos a forma mais seca de nos destruir, camuflado como um farol que nos indica a salvação ou como uma cenoura diante dos olhos que nos seduz e nos arrasta aos poucos para o fim da navegação, a quilha rasgada pelas rochas submersas dos silêncios comprometedores e dos esquemas para ocultar a tal verdade que não queremos descobrir.
Aos poucos, interiorizamos o naufrágio como um final feliz.
O fim dos desgostos e a hipótese de um recomeço a partir do zero que afinal é menos um.

O momento certo para dar início à revolução. Mudança de vida, revolta gritada na coragem de um ponto final, na determinação de um adeus.
O golpe de misericórdia no poder que nos atrofia, a palma da mão vazia com a qual recebe de nós e nem se digna agradecer. Sem nada para nos oferecer, apenas o desprezo que este mercado de escravos nos dedica enquanto nos corrompe à revelia em jogadas de bastidores e nas tais promessas que nunca é sua intenção concretizar. A liberdade hipotecada em prol de uma escritura assinada em pedra de gelo no pino do Verão.

E essa sanguessuga das nossas forças desperdiçadas nunca abdica dos direitos que indevidamente adquiriu. Puta que a pariu, se nem se digna apoiar-nos nos momentos menos bons. Só somos dignos de consideração enquanto nos submetemos aos seus desígnios, à sua interpretação da forma correcta de agir, a mais lucrativa na sua perspectiva (ainda que viole princípios que nos são caros e nenhum benefício possamos recolher em troca da capitulação).
Trata-nos como meros peões, males necessários para preencher o seu alucinado tabuleiro de xadrez.

No meu sonho que se desfez do regresso aos dias de glória está a força para mudar o rumo desta história, deste livro aziago mas prestes a chegar ao fim.

E o seu último capítulo vai agora ser escrito por mim.

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publicado por shark às 12:48 | linque da posta | sou todo ouvidos