FILHO ÉS PAI SERÁS

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Foto: Shark

O homem sentou-se à minha frente para tratar de um assunto profissional, mas eu tenho o hábito (nem sempre compensador) de conversar sobre outros temas enquanto cumpro o expediente. É a minha forma de mostrar interesse por quem me sustenta os vícios e de tornar menos impessoal a relação com as pessoas que sirvo.
O homem, cuja sucessão de azares fui conhecendo ao longo dos anos por via de alguns serem alvo da minha intervenção no sentido de minorar as respectivas consequências, começou por alimentar um assunto banal mas depressa lhe li no olhar um misto de tristeza e de indignação.

Adivinhei que não seria um contacto breve, caso puxasse por ele. Contudo, a sua aposta insistente nos meus serviços (postos à prova em diversas ocasiões) justificava da minha parte a consideração necessária para lhe conceder uma oportunidade de desabafar um pouco as suas mágoas.
Inquiri-o nesse sentido e ele, ávido de expurgar o que o afligia, agarrou a oportunidade sem pestanejar.
A sua dor, visível, derivava de problemas com a filha única que um casamento desfeito lhe deixara como legado principal. Eu conhecia-lhe o apego à menina (agora maior de idade) e calculei que a situação seria sem dúvida perturbadora para aquele pai.
Resumiu-me, sem pormenores, o facto de uma zanga com ela ter resultado na suspensão de contactos entre ambos dois meses atrás.

Do meu lado da secretária senti o impacto da sua tristeza, que tentava em vão camuflar com um tom indignado de quem se sente alvo de uma injustiça. Um pai e uma filha de candeias avessas. E eu, pai de uma menina e alvo potencial de uma situação análoga num futuro próximo demais, senti na pele o choque de me imaginar na sua pele. E eu, filho de um casal a quem claramente defraudei as expectativas, senti também o constrangimento de quem pode invocar uma data de razões mas não deixa de estar na origem de um desgosto daquela natureza.

Tempos atrás, este blogue foi palco de uma situação que ainda hoje me embaraça e constitui talvez o maior calcanhar de Aquiles ao alcance de quem me queira atingir na credibilidade da bonomia que gosto de reconhecer em mim. Envolvia um conflito sério entre mim e a minha família, na sequência do qual produzi um desabafo com contornos excessivos que derivaram do que na altura interpretei como uma agressão.
Apaguei essa manifestação na sequência da perda do meu anonimato, o que permitiria identificá-los como protagonistas da situação. E isso eu nunca quereria que acontecesse, pois se assumo as minhas falhas como filho nunca correria o risco de os magoar dessa forma, dando-lhes a conhecer o que na altura senti e escrevi (e que ainda está acessível em diversos pontos da internet).

Acabaram infelizmente por ter acesso a esse desabafo inócuo que as circunstâncias transformaram numa desnecessária punição para as suas culpas no cartório e para a minha incontinência verbal indesculpável. Ainda assim, e apesar da profunda tristeza que terão sentido em face de uma prosa que nunca lhes daria a conhecer em caso algum, encontraram uma forma de ultrapassar a questão e hoje mantemos uma relação menos próxima e efusiva mas dentro dos padrões normais de qualquer ligação dessa natureza.

Não sei o que me espera amanhã, na relação de proximidade e de confiança que tento construir.com a minha filha que, por diversas razões, será provavelmente (como no caso daquele homem sentado diante de mim) a única que criarei e cuidarei até ao dia em que assuma as rédeas da sua vida. Contudo, não alimento uma expectativa optimista pois não sou flor que se cheire em matéria de feitio e ela herdou muitos dos traços que o caracterizam.
Não estou livre de que também a mim o destino apresente uma dessas facturas que até já pude experimentar por aproximação.

Resta-me a esperança de que o amor mútuo mais a minha infindável tolerância de pai nos impeça sempre de irmos longe demais, de violarmos regras sagradas que os laços de sangue devem acautelar e assim chegarmos a uma situação de ruptura temporária ou mesmo definitiva.
Devo aproveitar ao máximo estes dias felizes do amor incondicional e livre dos braços de ferro associados à conquista da sua independência que adivinho, pela minha própria experiência, tumultuosa.

Quero acreditar que saberei, como os meus pais, encontrar sempre um espaço para o perdão depois de reconhecidas as minhas culpas, as minhas limitações, as decisões erradas e tudo quanto armadilha o bom desempenho que, por princípio, qualquer pai anseia.

Resta-me amar a minha filha e lidar com as suas revoltas e amarguras no futuro em que me confrontarei com o papel de intérprete da sua desilusão pelos aspectos em que a defraudar, adivinhando-lhe, naquilo em que tanto se assemelha ao pai, as garantidas reacções intempestivas.
publicado por shark às 23:22 | linque da posta | sou todo ouvidos