A POSTA NO ACTOR PRINCIPAL

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Dois tipos de mulher e homem, lutadores, conquistaram desde sempre o meu respeito e a minha admiração. Os que pugnaram pela liberdade e os que o fizeram pela justiça. Mas também reservei sempre um lugar no meu coração para os que reuniram a coragem ou o desespero necessários para lutarem pelo amor ou apenas pelo direito a olharem para o espelho sem asco da figura nele reflectida. Por um ideal dos que valem a pena.
É cada vez mais difícil nestes dias encontrar esses seres extraordinários, mulheres e homens de valor, honrados e capazes de, confrontados com tal escolha, preferirem uma morte com dignidade a uma vida de subserviência, de medo ou de vergonha.

Repugna-me a ideia de me soar ridícula a defesa de valores que a nova doutrina que caridosamente apelidamos de progresso parece tornar obsoletos, despropositados. Enoja-me a cobardia, a futilidade, o encolher de ombros perante a forma como hoje se verga a espinha e o carácter em função de proveitos materiais, de poder relativo, de conquistas obtidas à custa da traição a princípios que me recuso renegar.
E isso faz-me sentir aos olhos dos outros não um homem respeitável mas uma incómoda aberração.

Sinto-me tão desenquadrado do meu mundo como lhe pressinto a hostilidade, coberta pela pele de criaturinhas incapazes de abraçarem uma causa nobre, uma postura leal ou apenas algum pudor que as impeça de abdicar a pretexto algum das coisas que nos podem orgulhar.
Vejo pessoas de bem cederem perante a impotência que o comportamento dos seus semelhantes, na maioria invertebrados, instilam em cada dimensão da vidinha que a modernidade impõe. Sem alternativas, alinham. Para não sucumbirem às mãos dos que rastejam aos poucos para as rédeas de um poder, o do dinheiro, ao qual não interessam de todo os escrúpulos, a honra, o brio e acima de tudo a rebeldia. Qualquer forma de rebeldia, uma ameaça latente à mediocridade mansa que deve prevalecer como principal bastião de todo o sistema.

Na pele de mercador, confronto-me a toda a hora com essa pressão exercida sobre todos quantos se indignam contra a mentira, o embuste e a ausência de respeito pelos direitos mais elementares das pessoas. Tento em vão desafiar essa tendência para o deixa andar, para a padronização, para a vulgarização do abandalhamento dos costumes. Não porque me sinta superior a alguém, pois não sou perfeito e tenho a minha quota de cedências e de outras culpas no cartório, mas porque não me revejo numa sociedade em rota descendente no que respeita ao que abraço como uma forma correcta de estar na vida.

Aproxima-se o dia em que vou perder essa guerra, de uma forma ou de outra. Resta-me escolher se a derrota será feita da capitulação perante a necessidade de me integrar, submisso, para poder sobreviver nesta selva sem princípios ou se, em alternativa, consistirá na minha deserção desta merda agressiva em que se transformou quase tudo o que enfrento num quotidiano dito normal, mesmo à custa de um inferno feito de bancos credores, de um Estado castigador e da exclusão social inerente ao colapso financeiro de qualquer cidadão.

A vida é feita de escolhas, claro, e eu sou livre de fazer as minhas, mesmo condicionado pelas repercussões das mesmas no destino da filha que me compete criar. Mas confesso que não vislumbro nesta fase um final feliz para este guião que tenho de escrever sabendo que desempenharei, queira ou não, o papel de protagonista.
publicado por shark às 01:50 | linque da posta | sou todo ouvidos