A MÚSICA PRÓS BEIJINHOS NA BOCA

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Evito abordar certos assuntos por temer a associação dos mesmos a alguma exibição patética de nostalgia. O tema que move esta posta enquadra-se descaradamente nessa gelatinosa categoria. Porém, quando me acorre à ideia por algum motivo essa recordação de tempos agradáveis em que me senti feliz, não me sinto deprimido, preocupado ou mesmo melancólico. Ora, se falo de assuntos que me fazem sentir feliz agora porque hei de fugir dos que me agradaram no passado? Nunca por parecer mal, concluo.

O meu tema para este início de conversa são os slows. É verdade, aquelas músicas para dançar agarradinhos que ninguém dispensava nas festas e nas discotecas do final da década de setenta e até meados da que se seguiu.
Confesso-me um incondicional dessa onda que a malta com menos vinte anos do que eu não chegaria a conhecer, salvo raras excepções. Mas não me interpretem mal, quando era puto também não dispensava a malhas mais rasgativas da altura e até de décadas atrás. As matinés do Porão da Nau, do Rock Rendez Vouz ou mesmo do Dois (2001, no Autódromo) faziam-se de sons a abrir, sem desdenhar uma fixe dos Doors, o Cocaine versão Eric Clapton ou as bandas clássicas do rock sinfónico e do mais puro FM norte-americano, a par com The Police ou os Ramones. Sempre a abrir para abanar a carola até o som entrar pelos olhos, pelos ouvidos e pela pele.

A parte dos olhos é que nos recordava a indispensável hora em que o gajo dos discos (por norma um ganda baril) entrava com a sequência demolidora de música para os beijinhos na boca. Era o momento de todas as decisões. Uma aposta mal feita conduzia a um final de tarde a ver navios, envergonhado perante os amigos mais certeiros na opção. E era também a prova de fogo para os diversos papagaios que faziam peito até se escapulirem, mal a pista abrandava no ritmo e na luz. Zarpavam para o balcão como uns tiros e safavam-se os que ficavam, com muitas miúdas disponíveis para embalar ao ritmo do Bob Seger, do John Waite ou mesmo dos Bee Gees.

Era um momento especial para todos nós, putos dos treze aos dezassete, ansiosos por novas emoções e livres da manta tenebrosa, moralista, que cobrira o sexo na vida dos pais e, por causa da sida, ensombra as perspectivas dos mais novos também. A minha geração escapou na adolescência a uma série de papões e assumiu com naturalidade o ritual de apreciação de cheiros, de texturas de pele e de jeito para a palheta (quase tão determinante como uma cara bonita ou uma indumentária em condições). Essa prova de compatibilidade entre químicas, esse roça-roça discreto que nos moldava o desejo e ensinava a lidar com os limites ou as manias do nosso par, só os slows podiam proporcionar com tanta descontracção. Sem medos de irmãos e de pais que pudessem aparecer de surpresa ou de namorados mais estúpidos, os que preferiam soltá-las sozinhas às feras do que vencerem a falta de jeito ou de vontade para curtir e dançar.

Sinto-me um felizardo pela conjuntura que me favoreceu. E gostei muito desses dias, como adoro os que estou a viver à medida da minha vontade, dos condicionalismos normais de qualquer existência e das preferências que encaixam na minha casca pré-quarentona e perfeitamente operacional. Prestes a atingir os quarenta, livrei-me da guerra colonial, safei-me da tropa por uma contingência estatística (reserva de incorporação) e as batalhas que enfrento pela sobrevivência são mais brandas e menos dramáticas do que as disputadas pelos meus pais e, acima de tudo, pelo meus avós.
Concluo por isso que pertenço a um grupo de sortudos, na maioria, e sinto-me compelido a partilhar alguns momentos especiais que possam (ou não, estou-me nas tintas) interessar a quem os viveu e aprecie evocar.
Da mesma forma que retive na memória os episódios marcantes que, de alguma forma, contribuíram para chegar ao homem que sou, sem merdas, e os divulgo para vos ajudar a compreenderem-me melhor, assumo que as idas à discoteca nestes tempos não me entusiasmam tanto como quando, por entre a berraria que nos saltitava a conversação, surgia a oportunidade de ouro para sentir os braços suaves e gentis em volta do pescoço ou os contornos das ancas e das costas de uma pessoa tão ávida de emoções fortes como eu. Ou apenas para conversar um bocado e descobrir o romance num discurso inflamado ou na atracção que sempre se denuncia pelo espelho do olhar, ao som do Stairway to Heaven ou de outro clássico qualquer...
publicado por shark às 10:07 | linque da posta | sou todo ouvidos