ANIMAIS NOSSOS AMIGOS

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O meu primeiro cão e o meu terceiro gato nasceram quase na mesma altura. O rafeiro, arraçado de cão de água, era minorca e cobardolas. O gato, um siamês endiabrado, era um felino orgulhoso e independente a que cão nenhum conseguiu dar a volta.
Cresceram os dois no apartamento onde eu morava e dormiam enroscados um no outro, apesar de exibirem hostilidade pelos membros de cada uma das espécies por si representadas. O cão perseguia os outros gatos que nem um doido. O gato virava-se aos outros cães, sem olhar a raças, tamanhos ou número de exemplares de dada matilha.
No entanto eram inseparáveis e assim permaneceram até morrerem aos dezasseis anos, um quase a seguir ao outro.

Esse meu cão, apesar de pequeno e medroso, cultivava um ódio de estimação. Um enorme pastor alemão albino ladrava furiosamente da janela de cima e o meu cão estupidamente retorquia. Passavam os dias naquilo.
Um dia, o vizinho e a besta saíram à rua e a besta decidiu soltar o cão quando se deparou a alguns metros do meu, distraído na calçada com uma guloseima que alguém lhe oferecera. A luta seria desigual. Eu e o meu pai, dezenas de metros adiante, ouvíamos os ganidos de aflição do nosso canídeo palerma, bola de pelo oculta pelo corpulento atiçado que o cobria.
Nem tivemos tempo de reagir. O siamês passou por nós, por entre as minhas pernas, com a rapidez de uma chita e a determinação do rei da selva. Sem hesitar, tomou balanço pelo caminho e quando chegou próximo dos dois protagonistas da zaragata lançou-se aos flancos do agressor. Com o gato pendurado de ladecos, mancha cinzenta de unhas e dentes cravados, o pastor alemão desapareceu da nossa vista e da do dono e só deve ter parado de correr no Samouco, pois o gato só apareceria quase vinte minutos depois, sozinho e sem marca alguma da escaramuça.

Ganhei nesse dia um profundo respeito pelo meu gato e aprendi uma lição de vida que nunca esquecerei. Quando a amizade é profunda, a sua intensidade equivale à de um grande amor e dispomo-nos a correr riscos, se necessário, para acudir às aflições de um(a) amigo(a). E pouco importa se esse(a) amigo(a) evidencia o género, a raça, a língua ou qualquer outra diferença que a amizade séria e o amor incondicional não distinguem, não lhes permitindo que constituam barreiras à solidez de uma relação.
Na coragem, na lealdade e na dedicação do meu gato revejo o perfil do amigo que exijo ser e o dos amigos que ambiciono ter a meu lado até ao final dos meus dias.
Cabem à larga os seus nomes e contactos numa única página, todos na letra A, da minha concorrida agenda telefónica para o ano de 2005.
publicado por shark às 10:57 | linque da posta | sou todo ouvidos