JOGOS SEM FRONTEIRAS

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A maioria das pessoas que conheço não tem pachorra para jogar xadrez. Bocejam por reflexo, mal se sugere uma partidinha. Nã, isso é muito lento, leva horas. Pois é. Reconheço no xadrez ao mais alto nível (que não é o meu) a sonolência de quem tenha coragem para assistir ao efeito estátua que deriva do excesso de concentração. Porém, a minha paixão por esse jogo é imensa e passa pela sua analogia intemporal com a realidade, o que tentarei resumir para leigos e entendedores.
Destaco, no entanto, a principal característica deste jogo de estratégia que prendeu a minha atenção desde os oito anos: no xadrez a batota é impossível. E em nada depende dos caprichos da sorte ou do azar.
Quando dois opositores se sentam diante de um tabuleiro aos quadradinhos, ou são adeptos do Boavista prontos para assistirem a mais um jogo pela televisão (em vez de peças, o tabuleiro pode ter umas cervejolas fresquinhas), ou trata-se de um par de praticantes dessa modalidade onde se começa em perfeita igualdade de condições (o Valentim Loureiro não aprecia, felizmente, os desportos de mesa).
Começo por chamar a vossa atenção para o facto de o objectivo do jogo ser encurralar o Rei. Não exactamente comê-lo, mas apenas confinar as suas madurezas a um regime de prisão domiciliária que lhe esvazia as tentações do poder.

De facto, começa aqui uma das contradições deliciosas deste jogo. Sua Majestade, o alvo da cobiça das peças contrárias, não passa de um cepo inútil cuja escassa mobilidade (de apenas um quadrado em todas as direcções) obriga o jogador a zelar a todo o instante pela segurança do monarca. No Reino Unido, à preocupação com a segurança (rodoviária também, no caso concreto) acresce a fiscalização antecipada dos trajes escolhidos pelos delfins para curtirem nas suas festarolas imbecis.

As Torres, uma a cada ponta na fila mais recuada, só se movimentam em linha recta e são fundamentais para a protecção da realeza. Quando a coisa dá pró torto, a família real pira-se para o interior das muralhas e ordena ao arauto a marcação de uma conferência de imprensa, onde se destacam as obras mais meritórias do reino e se desviam as atenções da retirada.

Os Bispos, um de cada lado do poder, só se movem na diagonal. O segredo da sua força está na visão periférica: o adversário julga-os concentrados nos que se passa à sua frente e eles a mirarem, por cima dos seus ombros, olhar de camaleão, a casa à direita ou à esquerda que ocuparão de acordo com as diferentes conjunturas que o jogo proporcionar.

Os Cavalos, também aos pares (lembram-se do fabuloso Citroen 2 CV?), possuem a vantagem de serem os únicos capazes de fazerem uma curva a meio da corrida. Movem-se em éle. Literalmente. Discretos, podem fazer toda a diferença nas mais inesperadas circunstâncias. Mas tal como acontece com as restantes peças do tabuleiro, também se abatem e não existe União Zoófila que os proteja.

Falta a arraia miúda, a carne para canhão, o zé povinho do tabuleiro que faz sempre de mexilhão nos jogos a sério. Para o Peão (são oito de cada lado, antes de iniciada a carnificina) em frente é que é o caminho. Só se movem na diagonal (como os bispos) quando é para comerem outra peça. Avançam um quadrado de cada vez, excepto na sua primeira jogada na qual lhes é permitido avançarem o dobro do caminho (depois amocham, são metidos no seu devido lugar).
São-lhes permitidas duas fantasias, mas raramente as concretizam: atingirem a última fila do lado oposto do tabuleiro e assim obterem o reconhecimento que se dá aos heróis, uma imediata promoção na hierarquia, ou comerem a Rainha (o que confere alguma notoriedade entre os paparazzi, mas por regra muito efémera). Excepção feita, por exemplo, ao Reino Unido que acima citei e no qual a probabilidade de comer a Rainha é ainda mais remota e assume, para a maioria dos Peões, o contorno de um martírio. Nem pela Pátria lá iriam...

E a propósito da Rainha, não será inocente o facto de ela a peça (realmente) mais importante de qualquer tabuleiro de xadrez. Move-se em qualquer sentido ou direcção, sem limite para a distância a percorrer. O marido (el-Cepo), não passa de um papagaio a quem se atribui demasiada importância e é ela quem faz tudo acontecer à sua volta. Ataca, defende, trabalha, faz as compras, cuida dos Infantes e ainda tem de sobrar tempo para dar um jeitinho ao palácio e gerir as contas da casa...
publicado por shark às 15:14 | linque da posta | sou todo ouvidos