A POSTA QUE PODIA SER AINDA PIOR

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Como já tinha acontecido tempos atrás (aqui), o charco volta a um tema da nova era da blogosfera: a posta animalesca.
A posta animalesca é um novo género literário nascido no seio da nossa comunidade virtual. Esta nova tendência reflecte um pouco a vida lá fora, onde a falta de tomates também pauta e as pessoas inclinam-se com naturalidade para os subterfúgios que lhes permitam passar impunes pelas suas acusações, difamações e outros palavrões que não irei aqui reproduzir por respeito a quem nos lê.

Na essência, o animalesco caracteriza-se pelo recurso abundante à simbologia animal. Os autores desta nova vaga distinguem-se pela forma subtil como disfarçam as suas invectivas de lobo rafeiro, cobrindo-as com o manto diáfano da lã por tosquiar. Como uma camada suplementar de pele, a citação de diversas espécies de bicho confere ao autor(a) um escudo protector contra as consequências das suas atoardas.
Por exemplo: se no charco dissermos que determinado papagaio não passa de um cão amestrado que usa a língua por sistema para compensar as óbvias lacunas na erecção intelectual, os leitores incautos poderão sentir-se tentados a maravilhar-se com os conhecimentos deste blogue em matéria de zoologia.
Outro exemplo: se em alguma posta referirmos que existe uma ave rara cujo “sucesso” se baseia na exibição de frangas depenadas, frutas descascadas e outros chamarizes de papalvos (espécie em extinção, originária do delta do Nilo), seria legítimo que se assumisse que nos referimos a um estudo recente da National Geographic.

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Contudo, o fascínio desta nova corrente blogueira reside precisamente na descodificação desses signos vocacionados para camuflar a identidade dos visados enquanto os insultam em simultâneo. O verdadeiro dois em um, muito prático no contexto da escrita breve requerida por uma posta.
Ou seja, quando chamamos camelo a um figurante secundário de uma peça ranhosa (normalmente trata-se de cotas em crise de meia idade assoberbados com pesados quando possuem apenas a carta de ligeiros) é evidente que não visamos o animal em si (seria insultuoso para os bichos) mas sim a atitude e/ou o porte de um arraçado de dromedário qualquer. E nesta última frase já podem constatar a influência dos autores animalescos na escrita moderna.

Mas não pretendo tornar esta posta numa espécie de ensaio maçador para me armar ao pingarelho, dissecando os autores como rãs (ou sapos, se preferirem). Até porque este é um espaço sem pretensões de qualquer ordem nessa matéria.
E por isso mesmo, vou já inflectir o discurso e abordar uma alternativa ao animalesco que acima referi. O grotesco (ou burlesco inferior) também serve os propósitos do chico-esperto comum (ou carapau de corrida, na vertente zoológica).
Neste caso, o autor cospe palavras ao céu e aguarda que estas não regressem ao seu rosto sob a forma de escarradelas alheias. A imagem não é bonita, bem sei, mas corresponde ao sentimento profundo de asco que nos desperta o contacto com essa corrente alternativa.
Um exemplo: se no charco afirmarmos que uma dupla blogueira tem construído a sua presença neste meio à custa de expedientes ordinários, fotos alheias ou textos de outrem sistematicamente reproduzidos para dar a pala, ninguém pode acusar-nos de apontar o dedo a este ou àquela. Sem nomear os visados, só eles e quem já lhes tenha topado o esquemazinho de merda, I love you very much and I would like that you were just like the strangers in our lovely pictures, consegue perceber a quem nos dirigimos. E mesmo assim não pode afirmá-lo com toda a certeza, pois nunca falta quem possa enfiar qualquer carapuça lançada à confusão.

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O grotesco, como o animalesco, consiste afinal num expediente destinado a colmatar as falhas ao nível da formação pessoal de quem bloga, nomeadamente no domínio da capacidade de improviso e da criatividade para conceber um insulto com alguma inteligência. Senão vejamos: é fácil chamar ratazana pindérica a uma fulana qualquer, aproveitando alguma referência recolhida numa posta sua (que ilustre a familiaridade da autora com o ambiente natural desses roedores abjectos). Da mesma forma, não custa nada afirmar que um palerma qualquer (note-se que “palerma qualquer” pode aplicar-se de forma indiscriminada a qualquer palerma) mete dó pelo esforço notório em mostrar-se à altura daquilo que salta à vista ser areia demais para a sua camioneta (ainda a questão da carta, acima referida), levando-o a incorrer em excessos solidários que em nada o dignificam. A gente até sabe o que são necessidades e entendemos o espírito de sacrifício implícito, mas vemo-nos obrigados a retorquir na mesma moeda quando nos presumimos alvos “anónimos” das bocas e das graçolas de um palhaço (o recurso a ofícios vários pode substituir o animalesco na intenção subjacente – vide o exemplo do padeiro, do polícia ou de outras figuras conotadas com a assistência técnica em falta, forma indirecta, ou com a figurinha patética do visado, a forma directa).
É esta a explicação para a adesão, por vezes involuntária, de muitos blogueiros às novas ondas que brotam de forma espontânea nos diversos viveiros naturais de hipócritas que proliferam nesta comunidade que deveria, afinal, albergar apenas quem possuísse qualquer argumento de jeito para justificar a insistente manutenção da sua irritante presença virtual.

E não vou alongar-me mais no assunto, até porque estou certo de que acabarei por voltar ao mesmo e ainda com maior rigor descritivo.
Ficam estas notas para contribuir para o melhor entendimento deste fenómeno por parte de quem ainda não lhe tenha captado as peculiaridades sui generis, com o meu pedido de desculpas pelo exagerado tempo de antena que concedi, excepcionalmente, a este tema enfadonho.
Portei-me, parafraseando alguns autores de terceira linha, como um tubarão muito cabrão.

E ainda agora a procissão vai no adro, como se pode presumir da frase feita com que encerro esta posta e para a qual ofereço uma solução na imagem logo abaixo, adaptada de um exemplo concreto da nossa praça.

Não é com vinagre que se apanham varejeiras.

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publicado por shark às 11:29 | linque da posta | sou todo ouvidos