A POSTA NO RITUAL DE PASSAGEM

Uma despedida de solteiro é um ritual que aprecio. Consiste, de facto, na última oportunidade para um gajo se arrepender antes que seja tarde demais para evitar despesas judiciais e outros transtornos futuros. Isto porque a ideia é oferecer ao candidato uma última visão da liberdade tal como a viverá antes de se deixar estrangular pelos sagrados laços.
Em teoria, claro, pois tudo parte do princípio de que ao casório corresponde uma espécie de pena de prisão (que se presume) perpétua.

Seja como for, é esse o espírito que anima a celebração e as coisas tendem a assumir proporções algo descontroladas, como se o nubente tivesse que experimentar todos os prazeres proibidos do mundo num prazo de 24 horas.
Por esse motivo, uma despedida de solteiro em condições tem que reunir alguns componentes fundamentais.
A abrir, sem hesitações, uma despedida de solteiro tem que ter gajas.

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Isto explica-se por existir a estranha noção de que esse é um dos prazeres do qual o rapaz se verá privado. Pelo menos na variedade, pois se o pressuposto é amarrar-se a uma delas para a vida inteira, a falta de gaja implícita é uma falsa questão.
Ou seja, é a fidelidade (essa castração artificial e pouco eficaz que só serve para a malta olhar o matrimónio de esguelha) que se simboliza nesse acenar de um doce adeus à livre iniciativa na escolha de companhia para cada noite que se passa.
E assim é garantida a presença do mulherio na cerimónia de passagem a um novo estatuto social.

Outro elemento absolutamente essencial é a bebedeira, um must de qualquer evento desta natureza. O candidato deve ter ao dispor uma apreciável quantidade de álcool para alienar o fulano por forma a ele poder mais tarde encontrar uma justificação para a sua conduta imprópria. Os seus convidados também, para se inspirarem no sentido de ser proporcionado um momento inesquecível (e irrepetível) ao infeliz.
Assim sendo, temos mais um requisito sem o qual a coisa não funciona como tal.

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Uma despedida de solteiro, apesar de constituir um símbolo do “falecimento” de alguém, não deve ter ambiente de velório. Ninguém (excepto algum invejoso pela surra) se mostra triste perante a desdita do protagonista. Antes se exibe uma alegria mal contida. Ou melhor, um gozo dos diabos por ver tombar mais um na esparrela. Isto, claro, na mentalidade popular mais comum. Tudo na brincadeira, obviamente, pois toda a gente sabe que depois do casamento fica tudo na mesma.
Adiante.
A animação é o terceiro elemento a constar do menu.

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Por tradição, e é disso que se trata, o evento deve durar o número de horas suficiente para que o noivo chegue a casa a uma hora que depois de casado não seria tolerada. Às quinhentas, de preferência depois do nascer do sol (embora isso dependa do calibre de quem participa na festa e do rumo mais ou menos intenso do acontecimentos).
Este detalhe visa abrir os olhos ao entusiasta para o fim das noitadas de predador solitário. Na sua última noitada sem um preço a pagar no regresso a casa.
Fica bem patente neste item a crueldade inerente a qualquer despedida de solteiro, concebida para enfatizar os aspectos teoricamente negativos associados ao importante passo em vista.
Apesar de bêbedo (regra geral), o rei da festa absorve e interioriza estas perdas e não são raros os sorrisos amarelos e as engolidelas em seco quando, com uma loura numa perna e uma morena na outra, o visado se confronta com a temível questão:
Tens mesmo a certeza de que te queres meter nisso?

Normalmente não se arrependem nessa altura, muito próxima da data fatal, mas mais tarde um nadinha.

É que outro dos instrumentos dos algozes que participam neste episódio de tortura psicológica (e física também) passa pelo próprio facto de a despedida de solteiro se verificar quando já pouco ou nada há a fazer. Igreja marcada, restaurante reservado, convites enviados. Toda a máquina em marcha, imparável sem o recurso a medidas radicais. Sim, porque nem o adiamento constitui uma opção para a “vítima”, sob pena de se ver trucidado pela reacção furibunda dos pais, dos futuros sogros e, acima de tudo, da sua determinada cara-metade.
Resta ao jovem aceitar as consequências da sua decisão, mesmo que a despedida lhe prenuncie um horizonte com alguns temporais a enfrentar. Porquê? Porque nenhum gajo no seu perfeito juízo encaixa na boa essas privações que lhe serão impostas.
Com maior ou menor arte, com maior ou menor frequência, darão mais tarde conta do call of the wild de filhos da madrugada.
E as madrugadas a sós são, como qualquer um sabe, recheadas de tentações...

Todo o ritual acaba por assumir o papel de excelente pretexto para uma farra até partir, com os próprios convivas a obterem ordem de soltura (ainda que casados) para uma espécie de trégua justificada, e para sublimar o cariz de fruto proibido a todos os pecados fora do alcance (no âmbito do compromisso a assumir).
É curiosa, esta manifestação do culto de prazeres gratos a qualquer indivíduo apenas com o objectivo de o alertar para o impacto da sua perda. No fundo, para o estimular no sentido da prevaricação futura (de resto, muito tolerada por uma apreciável faixa da população).
É que ninguém pode alegar desconhecer as características masculinas mais comuns quando decide acreditar no milagre do amor capaz de transcender a natureza humana nesse particular.
Só por milagre, convenhamos…

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E é este o resultado do meu trabalho de campo deste fim-de-semana, em mais uma das muitas e variadas despedidas de solteiro em que tive a sorte de participar. Umas mais arrojadas, a roçar o deboche, outras mais moderadas, com menos excessos e uma transmissão do conceito com contornos mais subtis. Todas são excelentes (e bem esmifradas) oportunidades para o vosso amigo esqualo se revelar na sua dimensão exageradamente festiva.

E no próximo fim-de-semana, o fim anunciado da boa vida de mais um.
Outra magnífica ocasião para desgraçar o corpo e a carola do vosso amigo tubarão…


Fotos: shark
publicado por shark às 23:09 | linque da posta | sou todo ouvidos