AMOR PALAVREADO

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Foto: sharkinho

Fujo das palavras que nos descrevam, sinceras, por temer lançar às feras a carne que me apetece escrever.
Persigo em vão as frases adequadas, sempre que percorro as tuas nádegas com a sofreguidão de um olhar em busca da salvação na linha do horizonte que ocupas por inteiro. Está em ti o meu milagre, onde a vista se estende ao comprido na planície de lençóis onde serpenteia o teu desejo cor da pele como um rio incandescente de lava e de mel.

Um corpo ardente, gasolina para a fogueira em que me transformo quando espalho sobre ti a minha epiderme arrepiada, ao rubro pela fricção. E na verdade descubro em mim a vontade de te amar assim, nas mais altas temperaturas, emoção em queimaduras de terceiro grau ou mais além.
Quase enlouqueço pela tua loucura, quase me esqueço no tempo que dura o tempo perdido à espera da próxima vez em que tua voz gritar que somos nós a amar e que o mundo deve quedar-se em respeito. Do lado de fora do círculo de chamas que nos isola para evitar a propagação que as palavras podem representar.
E eu calo o que sinto e o que sei, os momentos em que te amei, a toda a hora, pudesse e estamparia para a posteridade a nossa intensa realidade num desenho esboçado a carvão.

Mas escapa-me a atenção e imobilizo-me a observar, sem nada desenhar (que não sei) e são palavras o que sempre escutei na ansiedade de fazer justiça à tua importância no meu modo particular de querer libertar a felicidade que aprisionas no silêncio a que me obrigo para nossa protecção.
É quase um castigo, esta ode reprimida, esta espinha atravessada bem perto do coração que pode furá-lo como um balão e desencadear a hemorragia que adivinho se um dia o nosso caminho nos conduzir o futuro para diferentes bifurcações.

As palavras são como tesouras pontiagudas, não se querem armazenadas para utilizações vindouras em espaços onde a vida se sente e se pensa mas não se faz, fragilizados pela pressão do mutismo forçado. Porque as palavras magoam se forem caladas, quando se sentem atraiçoadas por conhecerem a liberdade tarde demais para salvarem um amor que entretanto adormecido ensurdeceu.
Acorda sobressaltado com o grito abafado de um orgasmo por entre os dedos ou na palma de uma mão pousada com carinho na tua boca. E depois as palavras à solta, endiabradas e frescas, a espalharem à nossa volta a espuma refrescante de um extintor, na sua irredutível certeza de que o amor que se fez é igual ao que se alimenta, aquele que se deveria escrever sem falta, uma emoção avessa à intrusão de quem não sabe ler nas entrelinhas a exiguidade do seu espaço de manobra.

Aquilo que sobra são restos feitos palavras que se conservam para apreciar depois, num sarau feito a dois onde a língua é soberana e a leitura não é espartana nas respectivas consequências.
São espalhadas por aqui, as palavras de amor, como tartes numa janela à espera de arrefecerem.

É favor não mexerem.
(Arde sem se ver mas queima a doer…)
publicado por shark às 12:27 | linque da posta | sou todo ouvidos