A POSTA DE SEGUNDA

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Atirou-se à pequena multidão que sobrelotava a carruagem com a gana de um jogador de futebol americano. Entrou à justa, pouco antes de se fecharem as portas nas quais o seu corpo se espalmava com a pressão dos outros corpos em excesso.
Tentou lutar por um pouco mais de espaço naquela confusão de cheiros, de ruídos e de vidas apertadas num ciclo infernal. Com jeito e educação, perante os que se mostravam simpáticos e bem intencionados, e à cotovelada, impondo o corpanzil, quando se confrontava com a renitência ou com os maus modos de alguém.

Entretanto, o comboio não partia da estação. Algum azarado esperneava entalado um pouco mais adiante e o maquinista apercebera-se da situação, adiando a viagem para outro ponto onde mais gente aguardava (agora em vão) uma boleia para a aflição de esgotar as horas num emprego de merda qualquer.
E ele, com dificuldade na respiração, insistia em fincar os pés no chão e procurava desesperado algo a que se agarrar. Adivinhava a solução para o problema, a reabertura das portas, e calculava as escassas hipóteses de conseguir manter-se no interior da carruagem se tal viesse a acontecer antes que tivesse a sorte de avançar uns centímetros e de se agarrar ao lugar como uma lapa.

O murmúrio dos resmungos começava já a apoderar-se dos utentes atrasados quando as portas se reabriram.
Aflito, sentiu os pés perderem o contacto com o piso à medida que a mole humana adquiria vida própria e reagia ao excesso de passageiros como um corpo a uma infecção. Alguns mais afoitos, os que se viam encostados à força contra o lado oposto da composição, fixavam as mãos onde podiam e faziam força para trás até a força se propagar aos que lutavam pela permanência mas não haviam obtido um posicionamento favorável para a assegurar.

Era o seu caso, incluído no lote dos que, mais perto da porta, assumiam o estatuto de outsiders naquela batalha pelo espaço vital na vida em hora de ponta. Naquele instante sentiu-se a mais na vida das outras pessoas, desanimado pela sucessão diária de uma estranha guerrilha urbana que se impunha pela sede de conquista de um espaço seu no meio da confusão.
A sobrelotação que tudo e todos lhe faziam sentir. A mulher em casa que o convidava a sair. O patrão que ameaçava despedir. Os amigos que já não o contactavam, saturados da sua depressão e respectivas consequências. A ausência de uma solução, escorraçado como um cão. A mais, na sua ideia e nas reacções do mundo inteiro mais o céu, anónimo na angústia e entregue à solidão.

Infeliz, aceitou o estranho clique que se produziu no recanto qualquer da sua mente enfraquecida ou do corpo saturado de lutar.
Deixou-se arrastar para fora, colaborou até.

Percorreu o cais em direcção à dianteira do material circulante que o rejeitara como saliva alheia, cuspido à bruta para o exterior. Depois parou, alheado do sururu que se instalara junto do utente entalado pela porta e que se recusava a abandonar a sua vaga, perante a indignação dos felizardos lá dentro.
Ficou especado a mirar os carris, perigo de morte, anestesiado pela dor do seu estatuto de suplementar em todas as dimensões da sua vida que parecia contrariar a das outras pessoas. Sempre a mais no cenário, como uma verruga maçadora e dispensável no quotidiano de quem partilhava o seu tempo e lhe aturava a existência atormentada pelos fantasmas interiores. E também pelos de fora.

A vida parecia mandá-lo embora, farta de lhe amparar a queda livre, o mergulho no vazio de uma consciência alucinada, largada ao abandono diante do precipício mais à mão. Gritava apelos, pedidos de ajuda, mensagens em garrafas na doca seca de um monólogo. Ninguém as recebia, ninguém o percebia, cada um por si na guerra do costume. Sem espaço nem tempo para (mais) um maluquinho, outra vítima da doença social.
Era um excedente, afinal. Dispensável, como se sentia, incapaz de alinhar na tendência e de se deixar levar pela corrente de gente cada vez menos próxima pelos efeitos perniciosos da sua contestação ao que lhe parecia mal na sua perspectiva desenquadrada.

Era circular o raciocínio e parecia destinado a conduzi-lo como uma marioneta a um desfecho sem nexo, a uma forma de extinção abrupta da sua presença no seio de uma realidade tangível na qual a sua presença era apenas virtual. Um pé dentro e outro pé fora da vida, um passo simples a dar para tudo acabar de uma vez. As palermices que fez e o preço alto a pagar pela sua condição excedentária, detalhada nas facturas que da vida recebia pela mão dos outros que incomodava. A felicidade que atrapalhava com as suas questões, com a sede de saber o que se passava em si de tão perturbador para as outras pessoas.

Quando o comboio partiu, resolvido o problema, ficou parado a olhar para a escada rolante em direcção à saída para o exterior. Depois olhou para o relógio e calculou que ainda conseguia chegar a horas à repartição.

Pousou a mala no chão e concentrou-se nas paredes do túnel onde a luz dos faróis já anunciava uma nova oportunidade para embarcar, a fornada seguinte sobre rodas, a caminho de um destino traçado pelas reviengas do passado que a maioria não deixava de lamentar.

Encheu o peito de ar e preparou-se, como qualquer cidadão, para efectuar a melhor abordagem à situação. Reservado o seu espaço à distância do próximo passo.Com calma e sabedoria, baixando a fasquia que colocara demasiado elevada, mas ainda assim muito perto do céu.

Pouco tempo depois, quando o comboio entrou na estação, já sabia por antecipação que um lugar seria seu.
publicado por shark às 11:04 | linque da posta | sou todo ouvidos