AMOR AMIGO

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Foto: sharkinho

O amor é uma emoção tão vasta que se subdivide em inúmeras categorias, sendo que nos encaixamos numa delas consoante o par. Existem muitas tonalidades no vasto espectro que se percorre entre o amor e o ódio, o outro extremo das mais violentas emoções.
Cada uma delas alberga quem ama, em função do tipo de relação estabelecida.
Esta gradação do amor não corresponde de todo a um sinal de maior ou de menor diante de cada nível aplicado, pois a intensidade pode variar em qualquer das categorias existentes ou por inventar.

As possibilidades são infinitas e dependem apenas do esforço de coordenação e do arrebatamento da paixão de cada um de nós. Os apreciadores do amor platónico, contudo, devem evitar os amantes latinos, desenfreados. Mas isto apenas em teoria, já que uma das principais características de qualquer tipo de amor é o seu cariz aleatório.
Por norma, as pessoas tendem a aproximar-se de quem ama da mesma forma. Por uma questão de compatibilidade de ritmos e de caracteres, buscamos gente como nós. Ou tal e qual o arquétipo da pessoa ideal que traçamos na nossa expectativa.
Por norma, toca-nos algo de muito diferente daquilo que esperávamos e nem sempre para pior.
Contudo, o amor vence todas as barreiras, a ciência comprova-o e a observação empírica também, e acabamos por nos moldar ao objecto da nossa paixão.

Alguns amores são complicados de viver. Pelas circunstâncias, pelas limitações de diversa ordem, pelos compromissos anteriormente assumidos com alguém. Ou simplesmente pelo feitio dos intervenientes.
Existem amores para a vida entre cromos que mal se podem ver. E podem esgotar-se num fósforo as mais alucinadas paixões entre personagens perfeitamente compatíveis à partida.
Mas essa compatibilidade mede-se como?
No dia-a-dia de cada relação. O que, como todos sabemos, consiste numa ínfima parcela do nosso tempo e, na maioria dos casos, confinada ao período em que as pessoas estão mais exaustas e partilhada com um bom naipe de obrigações e/ou distracções acessórias.

É uma missão quase impossível, desgastante, que pode exaurir o cabedal e a paciência aos mais bem intencionados. É que as limitações não são tidas em conta no momento de fazermos exigências ao outro ou de cedermos às suas.
É um desafio para os mais empenhados e resulta bem para alguns. É um fracasso garantido para os menos entusiastas no culto de uma relação, seja ela de que nível for.
Pelo meio fica uma maioria de desistentes e outros tantos lutadores.
E cada parceria desenvolvida em torno deste objectivo, construir uma relação com base no amor, possui características próprias que resultam da combinação de pessoas.

Para além de imprevisível, o amor é impossível de definir de um modo universal. Veste-se de muitas formas numa infinidade de peles e de corações. Sente-se, como a fé, descreve-se, como um ritual, e é sagrado como as Escrituras.
Eu rezo quando amo, porque a minha definição do amor equivale à minha definição de Deus. Entendo o amor como uma necessidade absoluta, sem o qual se instala um vazio impossível de colmatar com mezinhas ou panaceias.
Vivo o amor como uma esperança, a de me tornar através dele um homem (uma pessoa) melhor e de contribuir na mesma medida para a evolução positiva de quem me ama.
E por isso acredito nos sacrifícios por amor, nos sapos engolidos, nas entregas não correspondidas, na capacidade de contornar todas as barreiras que qualquer amor sempre acaba por encontrar algures pelo caminho.
Acredito na reconciliação que só o perdão faculta.

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Todavia, todos os crentes possuem em si um pecador potencial. Às vezes deixamos de ver, vacilamos, beliscamos a nossa fé. Às vezes abdicamos de amar por instantes, turva-se a visão com a bebedeira da emoção e o caldo entorna assim. Às vezes pode implicar o fim, precisamente porque, tal como o Deus que a maioria adora, às vezes o amor parece ter distracções.
A criança que chora sem ninguém prestar atenção. A pessoa que sofre em silêncio sem alguém que lhe valha. A solidão emocional, como um buraco negro que se cria e suga toda a energia existente em seu redor.
É nesse estado que deixamos quem nos ama, quando nos momentos maus nos alheamos de resgatar o sofrimento, de acarinhar sem esperar troco, de oferecer santuário, protecção.

E é por entre essas feridas abertas à infecção, rasgadas pela ausência, que penetra o mal (o demo itself, para visualizarem melhor). Não existe exorcismo à altura, é erva daninha, doença sem cura. A única vacina é inoculada na relação à nascença, pela força de uma crença, pela vontade indómita de agarrar a certeza de um amor sentido, mesmo perante a fraqueza de um ideal traído.
É eterno, o amor, se cuidada a sua assistência e a medicação. Fármacos de paciência, internamentos de convalescença (uma espécie de luas de mel), cirurgias radicais se necessário para extirpar a maleita que se instala nos espaços em branco (problemas, pois…) como uma cárie por tratar.

Voltando ao raciocínio inicial, os poucos que chegaram aqui, não está nas tonalidades a raiz do problema pois não existe racismo num amor verdadeiro, nem aos daltónicos estão vedadas as delícias da paixão.
Qualquer que seja o teor do arranjo e o calibre dos protagonistas, o ponto da escala em que se situa cada um, tudo depende apenas da vontade e da solidez na estrutura que é feita da amizade que sustenta a verdade de cada relação.
Tão próxima do amor que nos confunde de tão íntima e tão cúmplice a sua ligação nascida para vencer todas as batalhas, a amizade engloba todos os ingredientes de que o amor necessita para aprimorar o caldinho.

Posta por escrito, a amizade seria como uma Bíblia ou um Alcorão para o amor se guiar, como um facho para iluminar o discurso, uma muleta para amparar ao longo do percurso minado por aves de rapina, contradições, crises de fé e imensas tentações.
É o sustentáculo natural e constitui na borrasca a derradeira mas também a mais eficaz tábua de salvação de uma relação a dois.
A confiança traída, a esperança perdida, o amor que se esgotou ou simplesmente adormeceu. A amizade é o aríete que rebenta o portão da fortaleza feita da teimosia e da estupidez, é a catapulta que eleva acima das muralhas erguidas por um desgosto qualquer a nossa vontade de unir destinos ao longo de um sempre curto lapso de tempo.

A amizade é o último baluarte de qualquer relação amorosa e quando se assume séria e intensa pode superar em solidez e em pujança muitas versões do amor farsola que por aí se vê.

Ah, e o sexo, convenhamos, faz muita faltinha também.

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publicado por shark às 19:41 | linque da posta | sou todo ouvidos