A POSTA QUE ASSIM ATÉ A ANARQUIA PARECE SOLUÇÃO

Desde o início dos tempos, o critério de selecção dos líderes passou pelo reconhecimento de uma qualquer superioridade num indivíduo que se destacava por algum motivo de entre a multidão. O melhor guerreiro, o melhor caçador ou, em menor escala mas numa tradição que perdurou até aos nossos dias, o melhor comunicador.

Claro que tal como os nossos antepassados deverão ter aprendido às suas custas, o jeito para a comunicação de pouco valia na prática para a gestão muito terra a terra dos interesses de uma tribo ou clã em tempos hostis.

Curiosamente, foi esse o talento que se impôs até aos nossos dias e o rei leão foi substituído pelo bobo papagaio que, como sentimos agora no lombo, fala que é uma maravilha mas quando a coisa dá para o torto sente-se a falta de um rosnar a sério, capaz de espantar hienas e abutres que mesmo em tempo de crise nunca abdicam do seu quinhão.

 

Depois de ultrapassada a fase das mocas e das lanças e de todo esse arsenal ao dispor dos candidatos à liderança do passado, os que se impunham pela força, a coisa foi evoluindo ao ponto de os chefes deixarem de provar a sua competência no campo de batalha. A esperteza entrou em cena e os líderes começaram a mandar fazer, o que os privou de poderem exibir as suas habilidades, como a sua coragem e até, quando já começavam a soar os canhões, a sua inteligência para lidarem com os imprevistos da governação, depois de entregue a terceiros por delegação de competências a actuação física no terreno mas também boa parte das decisões difíceis a tomar.

A ideia de os líderes serem deuses, o que naturalmente os livrava da tropa, não vingou mas depressa se encontraram outras formas de legitimar a liderança sem provas dadas.

Bastava ser filho do líder anterior. E esse ser filho daquele que o antecedeu. Ficava tudo numa boa, filho de peixe sabe nadar e assim…

 

Mas afinal não era mesmo nada assim e às tantas os franceses decidiram virar tudo do avesso e entregaram o poder ao povo (pelo menos era essa a intenção), repescando um sistema porreiro que os gregos tinham bolado tempos atrás mas sem grande popularidade à época entre os que gostavam de mandar à chapada, uma tal de Democracia.

De repente, os líderes passaram a ter que se submeter ao sufrágio e aos candidatos deve ter-lhes logo ocorrido: sou um cobardolas, fui um cábula na escola (na altura não havia equivalências e assim…), a única coisa de jeito que sei fazer é dar a volta aos outros com o meu paleio. E agora?

Bom, rodearam-se de uma legião de gente que não possuindo a mesma visibilidade e o mesmo carisma até percebiam daquilo e como cenas tipo o brio, a honra, a dignidade e o amor à Pátria ainda existiam a coisa ia-se fazendo com maior ou menor dificuldade.

Claro que os líderes não tardaram a perceber que aquilo da Democracia não lhes garantia a preservação dos couratos quando metiam o pé na argola e o paleio, com a malta a ir à escola e a alargar os horizontes, não remediava as mentiras, as omissões, os abusos de poder aqui e além. E passaram a incluir no seu séquito uns espiões, uns polícias com mais caparro ou mesmo, nas democracias de fachada, unidades militares de elite para manterem o povo manso como dá jeito para mandar sem problemas, manifestações e outras desordens populares que ficam tão mal nos noticiários.

 

A república do venha a mim

 

Depois de acautelada a segurança e a preservação de si e dos seus, os líderes não tardaram a perceber que ao contrário de uma ditadura (que é um conceito muito rígido e que exige uma postura musculada que custa um dinheirão e só dá chatices à pessoa), uma democracia é muito mais flexível em sabendo como ultrapassar os seus melindres.

Se já nem precisavam provar os seus méritos, aos líderes bastava assegurarem a vitória eleitoral para poderem depois implantar nos sítios certos a sua corte, família, compadres, cúmplices e outras pessoas de confiança, legislar de forma ambígua para dar espaço de manobra a muitas interpretações e salvaguardar a impunidade no futuro, ficando este garantido para lá do período transitório de liderança por via de uns favores enquadráveis na zona cinzenta ética e moral (com alçapões populistas, etc.) e sem temor a uma Justiça sem meios e sem mecanismos funcionais para punir em tempo útil alguém do topo e esse topo é feito por uns poucos que controlam milhões com os seus, de caminho abafando as vozes dissonantes pelo controlo de uma Comunicação Social feita refém de coisas comezinhas como a necessidade dos salários por parte de quem a faz.

E esta versão do paraíso, este political dream moderno, acontece nos nossos dias e é tão apetecível que os mais poderosos líderes democráticos do planeta não hesitam em vergar pela força os tolos (sobretudo os de nações cheias de recursos naturais por explorar) que demoram demasiado tempo a perceberem como é que se faz e ameaçam estragarem-lhes o arranjinho.

 

Este mar de oportunidades para quem alcança o poleiro depois de afastados aos poucos do caminho os entraves como a decência, a lealdade e outras mariquices do género, nem sempre é de pequena vaga, como nas ruas dos países à rasca, primaveras ou quaisquer outras estações, se vê.

Alguns líderes do passado (recente) aprenderam à sua custa que existem limites para a tolerância de um povo para com os abusos de poder, qualquer que seja o regime, e essa lição parece até fácil de assimilar e de levar à prática com uma pitada de patriotismo e de bom senso e sem a desfaçatez de acharem que no tal mar de oportunidades a elite prospera e o povo… nada.

Sem alternativas sérias de poder, as populações desorientadas olham para os seus líderes tão capazes de falar como incapazes de fazer e em águas cada vez mais conturbadas, com a acumulação de temporais a indiciar uma tempestade à escala global, percebem-se entregues à bicharada porque o peixe graúdo insiste numa clássica mas comprovadamente utópica ilusão: a de que na ideia deles vai correr tudo bem.

 

Porque quem se lixa sempre, e apenas, é o mexilhão.

publicado por shark às 14:33 | linque da posta