A POSTA QUE ESTOU A FALAR PARA O BONECO

Em momentos de crise existem domínios da governação que se tornam patinhos feios ou chegam a eclipsar-se das prioridades de governantes e de governados.

Claro que me dava jeito lançar a pedra seguinte apenas ao Estado e, logo de seguida, ao Governo que confiou num Francisco José Viegas para tornar ainda mais invisível a Cultura que a simples perda de um Ministério próprio não lhes bastou como sinal do que aí vinha.

E também é óbvio que acabarei por recordar os tempos felizes e abastados em que o Ambiente, essa preocupação política tão evidente (e conveniente) quando o dinheiro não falta, existia como algo de que se ouvia falar.

Mas não vou por aí, precisamente porque parte do fenómeno de abandono da Cultura quando a crise aperta e as hierarquias se relevam entre os diferentes Ministérios e Secretarias de Estado é alimentado pela própria percepção (e consequente reacção, ou respectiva ausência) transmitida pela opinião pública.

 

É, ou dizem que é, normal que as pessoas aceitem como natural o desinvestimento na Cultura quando o dinheiro escasseia para as coisas sem as quais não podemos viver, Saúde, Administração Interna (para não ficarmos como a Grécia, blá blá blá...), Economia (por ser o viveiro de milagres mais à mão) e por aí fora até só restarem as coisas sem as quais se passa bem.

Não tenho tanta certeza, tanta fé nesse critério grunho como seria de esperar. Até porque um ano civil das famosas gorduras atacadas onde mais se amontoam (em boa medida nos tais sectores indispensáveis), bastariam para fornecer energia ao longo de muito tempo para manter vivos projectos que funcionam, numa sociedade decente, como as escolas de formação dos clubes de futebol.

 

Reparem: a formação dos clubes é uma espécie de seguro de vida para os mesmos. É o único embrião de jogadores, a alternativa à contratação a peso de ouro de vedetas estrangeiras de segundo plano que estrangula as contas das SAD e afunda na decadência as colectividades que as justificam.

Por outro lado, jovens recrutados para a prática desportiva não serão os melhores candidatos aos vícios e comportamentos que o ócio e a falta de perspectivas induzem.

A Cultura cumpre um papel equivalente. São os mais pequenos, instituições e pessoas, os primeiros a perderem quando cortes estéticos (ninharias, no contexto global) se fazem sentir.

Tal como no futebol, sem actividades culturais de âmbito local ou regional devidamente apoiadas e que abram as portas aos mais jovens para um mundo que lhes pode estar vedado por muitas razões, é quase impossível ver nascerem talentos.

Tal como no futebol nenhum craque se notabilizará se jamais puder calçar um par de chuteiras, na Cultura não irão surgir os virtuosos a quem é recusado o contacto com o instrumento ou a arte por descobrir em si.

 

Depois há a crise, com todas as suas pressões e anseios. E aos mais novos, sem acesso a algo que todos parecemos tomar por supérfluo quando o pilim escasseia, resta o quê para expressarem de forma não violenta tudo aquilo que os revolta no futuro risonho que lhes é negado, dia após dia, neste presente sem alternativas culturais que os ajudem a canalizar tudo para uma qualquer forma de expressão artística?

Enquanto escrevo sei o quanto tudo isto poderá soar fútil, pseudo-intelectual de pacotilha, lírico, o que se queira chamar a quem chame a atenção para estes luxos em tempo de crise, precisamente porque também sei o que é viver num país sem essa fonte de pessoas positivas, esclarecidas e capazes de proporcionarem a uma população enfraquecida alguns momentos de deleite como só a Cultura pode proporcionar.

 

São vistas muito curtas. E se não lutarmos pela mudança que inverta o estatuto de palhaço rico (ou de parente pobre) com que pintamos quem se dedica ao que, na prática, constitui das mais fortes argamassas para a coesão social, nem podemos adivinhar que parte da nossa identidade essa miopia acabará por aniquilar.

publicado por shark às 00:46 | linque da posta | sou todo ouvidos