A POSTA NA REDENÇÃO II

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Foto: sharkinho

Hoje confessei a alguém um gesto indigno da minha autoria. Sou um homem orgulhoso, por vezes arrogante até. Não me é fácil reconhecer, independentemente das circunstâncias e das atenuantes, os erros que cometo e os pecados que pratico. E isto acontece porque valorizo em demasia a imagem que crio nas outras pessoas e desgosta-me destruir essa imagem (que corresponde à minha intenção, mas é traída pela acção) num momento de desvario.

E se exponho desta forma aquilo que entendo como uma vergonha para mim, mesmo não especificando os contornos do que fiz, é porque não deixo de apontar o dedo de vez em quando a quem me magoa ou me desilude. E existe a tal questão da superioridade moral que, na prática, nem quando se possui deve ser esgrimida ou perde de imediato a sua condição superior. Eu não possuo nem quero possuir. Quero assumir o meu estatuto de gajo comum, capaz de fraquejar como os outros sob determinado tipo de pressão. Só este equilíbrio no deve e no haver me concede a “liberdade” de me queixar quando me sinto atingido pelos actos, palavras ou omissões das outras pessoas.

É mais tranquila a posição de quem se assume falível, de quem não tem uma pala a defender. Só assim nos podemos dar ao luxo de sermos nós próprios, com grandezas e com misérias, sem merdas, tal e qual somos capazes de nos revelar. Damos e levamos, na porrada da vida. Sem vaidades ou falsas questões, sem o direito de julgar os outros por também nós podermos enfrentar um juízo menos bom. Telhados de vidro, afinal.
Eu também tenho os meus.

E aí coloco-me no mesmo plano de qualquer outra pessoa, sem nada a ganhar ou a perder na assumpção das minhas forças ou das minhas fraquezas. Sou o que sou e resta-me investir no que de melhor tenho para oferecer aos outros e evitar a todo o custo resvalar para a faceta menos positiva que o meu carácter por vezes expõe.
Compete-me extrair as devidas conclusões, identificar com clareza a natureza do meu papel e reconquistar a confiança de quem se sinta afectado pela minha intervenção, concedendo aos outros idêntica oportunidade quando me vejo na pele do agredido em vez da do agressor.

A vida é complicada. E curta demais para nos embrenharmos em divergências pedrada-a-ti, pedrada-a-mim, sobretudo entre pessoas com laços difíceis de quebrar. A tolerância, de mão dada com o respeito e o bom senso, pode servir de plataforma de entendimento. Para isso basta eliminar o falso pressuposto da superioridade moral que nos afasta dos outros na resolução de problemas que, orgulho de lado, podem resolver-se com base na proximidade que, a não existir, nem permitia que se colocasse a questão.

Por as pessoas envolvidas se estarem nas tintas umas para as outras.
E só isso pode inviabilizar o perdão.
publicado por shark às 12:39 | linque da posta | sou todo ouvidos