A POSTA NUMA FICÇÃO BUÉ DE UTÓPICA

Como não me canso de referir, sou um apreciador de Ficção Científica desde tenra idade (na Idade da Pedra, mais coisa menos coisa). Gosto de perceber aquilo que preenche as expectativas dos visionários (na maioria dos casos, a FC aborda os amanhãs que disparam canhões de plasma e recorrem a transporte público de moléculas), como a ingenuidade da famosa série Espaço 1999 que previa uma colónia na Lua e afinal treze anos depois resta-nos a euforia de um laboratório com rodas na superfície marciana.

 

Os marcianos foram, de resto, os primeiros vizinhos imaginários predilectos dos autores de FC e o estereótipo mais duradouro de um ET ainda é a criatura pequena e cinzenta, com bracinhos e perninhas e uns olhos a lembrarem em simultâneo os de um ursinho de peluche e os de um tubarão bebé.

Marte assumiu, no lugar do nosso satélite natural (um rochedo seco e esburacado que nem foi preciso visitar para o descartar como habitação viável mesmo para os marcianos), o papel de palco para as primeiras conjecturas acerca da existência de vida noutro calhau que não o terceiro a contar de um sol que nem é dos mais impressionantes que hoje sabemos existirem por todo o lado que a vista telescópica alcança quando perscrutamos o céu.

 

Porém, o conceito de to bouldly go where no man as gone before (um plágio descarado dos Descobrimentos portugas) acabou por alargar o espaço abrangido pela imaginação dos criadores de FC e os marcianos tornaram-se desinteressantes perante as criaturas vagamente humanóides mas sempre calmeironas e a popular mistura homem/réptil sempre tão bem sucedida na inspiração de terror que a corrente mais pessimista, a do ET mau como facadas, com os instintos expansionistas de uma Rússia ou de uma China e armamento absolutamente devastador que ameaçavam com uma acção de despejo hostil os inquilinos desta esfera azul carregados de problemas de consciência pelo seu comportamento belicista.

De repente, a vida para lá da Terra adquiriu o colorido próprio da variedade possível em tanto Universo para explorar e os seres alienígenas pareciam provir de uma espécie de ilhas Galápagos da imaginação. Tivemos até um táxi nova-iorquino que se transformava (sim, um Transformer…) num ET de lata cheio de armamento para nos defender de outros veículos automóvel mutantes.

 

A agressividade dos extraterrestres da FC, num crescendo que acompanhava o passo dos receios que a Guerra Fria instigava nos autores, inspirou muitas versões de holocaustos possíveis com origem mais externa do que a Cortina de Ferro mas a perda de popularidade do Super-Homem e dos presidentes americanos a braços com os seus múltiplos vietnames foram confiando a cidadãos comuns a tarefa da defesa do planeta, sempre coadjuvados pelos marines que permitiam as continências aos heróis civis (sempre muito cinematográficas) e a exaltação do poderio militar que, com um arsenal diabólico de armas nucleares, passou a poder derrotar todo o tipo de invasor e respectiva tecnologia (como clássicos da estopada como o Independence Day tão bem ilustram) e ainda lavou mais branco a imagem nuclear com a eficácia atómica na luta contra a queda de meteoros do tamanho do Texas (que é maior que Hiroxima e Nagasaki juntas), no disparatado pseudo épico Armaggedon.

 

Mas nem só na quantidade e variedade dos seres de outro mundo ou nas motivações dos maus da fita a FC sofreu mutações. Outra alteração significativa dos tempos mais recentes foi a entrada em cena do pontapé na boca alienígena dado no feminino.

As heroínas capazes de enfrentarem monstros a sós mas com a mesma eficácia da melhor unidade militar vieram para ficar com a Sigourney Weaver à prova de aliens e já reúnem, em simultâneo, a capacidade de despejarem balas de metralhadora em seres de aspecto aracnídeo (mas com ares de serem construídos em peças de lego) com a inteligência superior à dos companheiros de luta masculinos.

É o caso de uma moça, Samantha Carter, que protagoniza um dos membros do SG-1, uma unidade militar terrestre que combate as tais peças de lego mais uns mistos de homem com réptil (uma tentação) e ainda arranja soluções para ET’s feitos de nevoeiro numa popular série do canal MOV que muitas horas já me consumiu.

A Sam é oficial da força aérea, preparada para o corpo a corpo contra os invasores das estrelas ou para o téte a téte cerebral com uma máquina xpto com uma válvula fundida que só a brilhante cientista guerreira consegue consertar.

E tem a vantagem (certamente alienígena, embora a série não esclareça) de ser casta e pura e nunca ceder aos impulsos machos do seu trio de parceiros no combate ao crime de quererem reduzir-nos a pó em cada novo episódio.

 

Mas o desafio mais sério colocado aos espectadores de Stargate SG-1 está em aceitar um McGyver (Richard Dean Anderson) mais entradote e que substitui os explosivos feitos com pastilha elástica pelos outros mais a sério e até é homem para destruir hordas de extraterrestres armados com coisas que disparam raios de luz equipado apenas com armas de fogo convencionais mas montes de certeiras e mais eficazes do que as fisgas improvisadas pelo jovem herói agora cinquentão que funciona como uma espécie de Francisco Louçã do grupo, ao ponto de abandonar de forma voluntária as cenas de acção nos últimos episódios da série, por manifesta incapacidade do público para vislumbrar a energia e a irreverência da juventude naquele olhar martirizado e no discurso desajustado, como é normal nos guiões de ficção cujos protagonistas e respectiva intervenção se arrastam por tempo demais.

publicado por shark às 11:46 | linque da posta