VERÃO QUE PASSA NUM INSTANTINHO

Uma das coisas que mais apetece postar durante a chamada silly season é uma silly posta. Apenas mais um texto que não interesse a ninguém, acerca de algo sem jeito algum, mais óbvio ainda na inutilidade do que os seus antecessores. Não é tarefa fácil, acreditem, a pessoa tentar transcender-se seja no que for e acima de tudo num qualquer ponto fraco, o tal ponto que temos todos imensa dificuldade em ver porque só os camaleões conseguem revirar os olhos no ângulo necessário.

Nem mesmo a visão periférica, largamente ampliada nos indivíduos do meu género nesta época estival, nos pode valer na detecção desse ponto de vista que a própria não alcança.

Resta-nos portanto a benesse da contemplação.

 

Dizem que é uma arte, conseguir falar durante horas sem dizer grande coisa. Claro que nessa perspectiva somos um país de artistas, sempre dotados na expressão oral das melhores impressões. Claro que por escrito tem menos mérito, a pessoa não está frente a frente e por isso evita uma série de constrangimentos que inibem alguns dos melhores papagaios na hora de vestirem as palavras com a magia do som.

A voz é como que o pincel, o cinzel, do comunicador da treta (dos tais que enchem chouriço com um presunto às costas) e produz sempre mais impacto na audiência do que um texto como este, particularmente vocacionado para frustar quem busca uma moral da história, um conteúdo que possa representar a mais-valia que é o imperativo moral de quem prende a atenção dos outros e lhes rouba parte do tempo com a sua intervenção.

Esta é uma silly posta porque estamos no pino do Verão. E toda a gente foi de férias e eu não. 

 

Dizia eu que o calor parece exercer um efeito de dilatação dos globos oculares masculinos, pelo menos os que ainda não deixaram de todo de gostar da fruta por tantas horas investirem no seu próprio visual. A simples ideia de passar horas a olhar para um gajo, mesmo sendo o próprio, já constitui um factor de desmotivação para quem nasce e sabe irá morrer com os olhos cada vez mais esbugalhados pela beleza tão refrescante de muitas imagens típicas do Verão. Mas há gente para tudo e eu queria mesmo era falar de cenas banais como uma silly posta exige ou acabo por me desviar do assunto.

Se a pergunta que vos assola o espírito nesta altura é "mas qual assunto?" temos a coisa bem encaminhada em termos de coerência e uma posta, tal como uma season, pode ser silly mas continua obrigada a respeitar determinados padrões. Reparem como a frase anterior brilha no firmamento da inutilidade, no rococó do palavreado inócuo que visa simbolizar a vacuidade que esperamos encontrar nesta (como em muitas outras) épocas do ano.

 

O fio condutor de um texto como este só pode ser o fio dental, isto ainda a propósito do fenómeno do reviralho ocular que aflige os da minha espécie e que já devem ter percebido nem é problema para ninguém e por isso mesmo despe bem esta posta de preconceitos contra o preenchimento do vazio com doses maciças dele mesmo. Até poderia ser um pensamento giro de filosofar, mas lá está: isso retira à silly posta toda a razão de ser porque belisca a sua essência naquele delicioso refego das nádegas que podem, em casos extremos, conduzir o incauto veranista a um torcicolo difícil de explicar a quem o acompanhe na altura nesse passeio marítimo tão repleto de focos de destabilização do ponto de vista. E essa perda do fio condutor no discurso, esses segundos letais de desconcentração, acaba por estar na origem de alguns conflitos de interesses com quem, por inerência da condição, impõe rédea curta para as vistas largas e não tolera nem perdoa a falta de discrição.

E num momento de desvario isso pode provocar um efeito terrível nos globos oculares do observador por instinto. Falha-lhe nessa altura o instinto de preservação, obliterado em absoluto pelo cruzamento com prioridade num caminho de curvas acentuadas até à colisão frontal com o olhar furioso da sogra que funciona como o candeeiro ou o sinal de trânsito que descobrimos à bruta num dos lados da cabeça distraída com o processamento exaustivo das imagens recolhidas no viveiro do imaginário mais à mão.

E esse já se sabe qual é no Verão, tanta fruta descascada que apetece fazer uma salada para combater a obesidade que tanto deslutra o macho lusitano em função dos padrões estéticos em vigor. 

 

No Verão as pessoas tendem a aligeirar a roupa, as refeições e até as ideias que possam de alguma forma atrapalhar a concentração naquilo que verdadeiramente interessa nessas alturas e que é coisa nenhuma em concreto e montes de coisas só para entreter. A malta precisa de descontrair e não dispõe de qualquer receptividade para os assuntos sérios que deveriam eles próprios alugar um apartamento em Armação de Pera ou no sudoeste da Gronelândia para descansar. E se tiverem que vir à berlinda que sejam rápidos, concisos e de rápida digestão para não adiarem a hora de ir à água que é das mais convenientes para o usufruto da visão melhorada por magia pela luz e pela cor e pelo movimento que as pessoas pulverizam no horizonte banhista do observador mais atento às questões de pormenor.

O Verão é tempo de calor.

 

E eu saio desta posta com a satisfação do dever cumprido, do objectivo alcançado neste esforço de integração por parte de alguém que bloga sem poder contar com a leveza e a descontração de um facebook ou outra coisa assim muito mais estival e sem espaço para encher chouriços a sério no meio de tanto barulho das luzes acerca de tanta coisa imbuída do mesmo espírito deste texto que vos deixo, embaraçado pela simples hipótese de alguém o ter levado a sério a ponto de o ter lido até este triste fim.

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publicado por shark às 22:20 | linque da posta | sou todo ouvidos