A POSTA QUE JÁ SINTO O CALOR NAS SOLAS

Uma experiência que jamais esquecerei foi a que vivi ao longo do evento foleiro que para qualquer lisboeta constituiu o incêndio do Chiado.

A imagem que se agarrou a mim como uma cicatriz impossível de disfarçar foi a que apreciei no cimo do Elevador de Santa Justa e que me deu a perspectiva black & white do que ali aconteceu nesse dia: de um lado o Chiado como sempre, intacto. E do outro uma fotografia a preto e branco de uma rua qualquer de Varsóvia após mais um bombardeamento aéreo.

 

Chorei perante o que vi, esmagado pelo que senti quando um local importante da minha cidade, da minha vida, morreu à mercê das chamas porque nenhuma reconstrução é feita em sintonia com o passado que se pretende, alegadamente, preservar. As cicatrizes são feridas curadas mas as memórias daquilo que representam, da dor que acrescentam às coisas boas que a vida nos dá, permanecem e permitem-nos constatar que depois de uma experiência traumática nada fica igual.

Alternei a vista entre os dois lados daquela passagem aérea, daquele corredor por cima da fronteira entre o céu e o inferno que alternavam consoante o ponto onde concentrava a visão, o que restava e o que desapareceu, a sorte da salvação a pairar quase como uma maldição sobre o lado daquele pedaço de vida que me servia como termo de comparação com o outro, dantesco, de um azar tão grande que só podemos entender como uma expressão visível daquilo que simplificamos com a palavra mal.

 

A vida pode colocar-nos sobre essa linha de separação sem nos oferecer uma perspectiva tão clara como a do pouso que escolhemos, um grupo de amigos, para assistir tão perto quanto possível a um dia triste da nossa história de alfacinhas como nesse dia, como nunca antes, me percebi.

O mal de um lado e do outro o bem, claros e distintos, sem qualquer espécie de dúvida ou de hesitação, sem qualquer influência subjectiva ou de uma má companhia sempre a jeito para explicar os nossos equívocos e até os desvarios.

Pode até o chão arder sob os nossos pés que nos quedamos imóveis como a rã em lume brando até ser tarde demais, distraídos com a influência externa ou interna de um impulso circunstancial ou apenas embalados numa estranha, porque perigosa, espécie de fé que se traduz na postura típica de quem acredita que tudo se haverá de compor.

 

É muitas vezes assim que nos deixamos tombar para o lado que acreditamos errado, adormecidos pela rotina, entorpecidos pela fadiga, desequilibrados pela ambição. Sem pontos de referência tardamos a distinguir o que nos serve melhor e uma vez apanhados de surpresa pelas circunstâncias reunimos forças em torno dos adornos indispensáveis para a justificação para terceiros que abraçamos como nossa, a verdade forjada ao sabor da conveniência que acaba por funcionar como um biombo que nos priva do tal termo de comparação que, na maioria dos casos, só o futuro nos exibirá.

Aquilo que podia ter sido, em contraponto com aquilo que a realidade nos dá, essa realidade que vivemos em função de pressupostos, de falsos pretextos, de paredes invisíveis erguidas no labirinto em que nos lançam os diversos poderes que manipulam o destino e as convicções à medida dos seus interesses egoístas e imediatos. Pessoas e organizações que nos cobrem os olhos com a serradura que funciona como um manto de nevoeiro a cobrir o lado em que não nos acreditamos capazes de cair até sermos obrigados a inventar-nos, histórias da carochinha, noutro lado qualquer ou baixarmos ainda mais os braços ao ponto de nos preocuparmos menos com o lado onde estamos e mais com a explicação atabalhoada de como nos fizeram lá chegar.

 

Alguém foi responsável pelo que aconteceu ao Chiado, quer por interferência directa, fogo posto, quer por resultado da negligência que resulta criminosa nos factos mas desculpável no plano das omissões que, no fundo, qualquer um pode protagonizar. Na prática o resultado é o mesmo, o desastre, e restam as cinzas e o entusiasmo político e/ou financeiro que se erguem como fénix dos escombros com o entusiasmo postiço de quem quer fazer radicalmente diferente mas pinta na preservação de fachadas uma ilusão de retorno ao que estava como dantes e isso, todos sabemos, nem no plano das boas intenções é tal e qual.

De um lado vai estar sempre o bem, ou aquela terra de ninguém a que chamamos o mal menor, e do outro o mal propriamente dito, aquilo que só não dói com uma anestesia chamada hipocrisia que nem precisam ser os outros, esses malandros, a contemplarem como recurso para dourarem uma das muitas pílulas que acabamos por tomar, panaceias éticas e morais, no sentido de podermos acreditar que não transpusemos a tal linha separadora entre o tudo como dantes e a ruína inerente à constatação dos factos que nos provam que quem anda à chuva molha-se e estamos, quantas vezes, mergulhados em águas mais turvas do que nos julgaríamos capazes de experimentar.

 

O Chiado é apenas um exemplo de entre muitos outros episódios, muitos recentes, que são como um arreganhar da dentuça dos muitos males que nos acontecem e, na sua maioria, apenas porque os deixamos acontecer. Apenas porque nos deixamos entorpecer pela soma combinada de pressões ou apenas pelas promessas que são ilusões de que, discretos e atinados, seremos como as princesas e os príncipes dos contos encantados se soubermos sempre desempenhar bem determinado papel que nos impõe quem se sabe no lado mais favorável do cenário e por lá pretende ficar, absolutamente nas tintas para a ruína temporária de uns quantos que, nas suas visões rasteiras, não passam de danos colaterais em face dos benefícios para outros no futuro que é sempre o presente de quem possua os meios, o egoísmo e o despudor necessários para o poderem influenciar.  

publicado por shark às 16:49 | linque da posta | sou todo ouvidos