A ULTIMA PEDRA

A passagem do tempo parece limpar, como o vento, o rasto deixado, na areia da memória, por algo que não terá passado de uma história das que nem valem a pena recordar.

Com a ajuda das ondas do mar, a brisa soprada pelo tempo vai apagando, vai varrendo do solo os resquícios da desilusão remanescente, vai tornando irrelevante a marca indelével de um momento que se deseja impossível de repetir.

O passado cheio de vontade de partir para o esquecimento absoluto, abandonado no edifício devoluto onde se acumula o entulho, perdido num canto ocupado pelo barulho da cacofonia de sons imaginários de muitos acontecimentos secundários deixados para morrer num espaço afectado pela surdez.

O presente dominado pela lucidez que no passado falhou a sua missão e deixou turvar a visão da realidade ao ponto de quase justificar uma saudade disparatada nesta altura em que já pouco resta, pois nada dura para sempre quando não presta, quando se usam materiais de construção aldrabados.

E no futuro restará apenas a última pedra, poupada aos trabalhos de demolição entretanto desembargados.       

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publicado por shark às 14:16 | linque da posta | sou todo ouvidos