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CHARQUINHO

Sedento de aprendizagem, progrido pelos caminhos da vida numa busca incessante de espíritos sábios em corpos docentes. (sharkinho at gmail ponto com)

CHARQUINHO

Sedento de aprendizagem, progrido pelos caminhos da vida numa busca incessante de espíritos sábios em corpos docentes. (sharkinho at gmail ponto com)

04
Jul12

A POSTA NO REINO DO FUNGÁGÁ

shark

Se há questão que se mantém em aberto entre os seres humanos, embora numa espécie de banho Maria morno, é a da escolha entre a Monarquia e a República. Volta e meia, monárquicos e republicanos esgrimem argumentos na defesa da sua dama (com mais entusiasmo destes últimos porque o seu ícone até tem as maminhas ao léu), o modelo de liderança dos subgrupos, das tribos a que chamamos nações. A coisa até já descambou em conflitos armados entre as pessoas.

Contudo, no reino animal a discussão é mais feroz e espanta-me ainda não ter assumido proporções alarmantes.

 

Ao que vi no meu percurso pela fauna portuga, o binómio Monarquia/República não existe e isso acontece pelo mesmo motivo que deixa de fora a democracia como opção. A bicharada não quer votar e prefere tratar o seu líder por Vossa Alteza.

Porém, o consenso acaba aí. Nas ruas é fácil de perceber a disputa acesa pelo trono no seio de diversas espécies do reino animal, sendo públicas tais divergências.

Em poucas centenas de metros é possível, por exemplo, encontrar dois reis dos caracóis.

E a avaliar pela dimensão das respectivas cortes, orgulhosamente expostas à vista de qualquer plebeu, não será pelo número que a questão ficará decidida. Os analistas chamam a atenção para a enorme influência dos orégãos de comunicação social neste particular.

 

Mas existe uma outra espécie onde são ainda mais os galos para um só poleiro: os reis dos frangos multiplicam-se pela cidade e os respectivos súbditos, fanáticos, fazem-se imolar pelo fogo (pela brasa, mais concretamente) em quantidades astronómicas na luta encarniçada pelo poder que se faz sentir pelas redondezas num macabro odor a churrasqueira a que nenhum transeunte parece ficar alheio.

Consta até que alguns frangos mais leais ao seu monarca se fazem empalar num estranho ritual que vi mencionado como espeto e que deixa clara a coragem e o espírito de sacrifício que são incutidos desde o berço nos aviários deste país.

 

Um trono cuja disputa dá sempre porcaria é o dos leitões. Talvez por se tratar de um movimento juvenil de apoio à causa, o empenho dos jovens suínos no reclamar do ceptro atinge foros de uma irreverência descontrolada, ao ponto de o conflito estar já a estender-se ao reino das sandochas e sendo de prever também aí o surgimento de herdeiros de uma das coroas mais ambicionadas, sobretudo na região centro do país.

No chiqueiro agitado por esta luta fratricida a esperança é imensa e a confiança traduz-se numa lógica simples: vença quem vencer, o triunfo será sempre dos porcos.

 

O Fim da História ou a Última Amêijoa

 

Esta tensão permanente entre as monarquias animais já produziu episódios deploráveis. De acordo com fontes próximas das várias realezas, os interesses em causa são tão importantes que está a eclodir uma guerra surda entre as monarquias das diferentes espécies, sedentas de projecção. É esse fenómeno, ainda de acordo com as mesmas fontes, que estará na origem daquilo a que apelidam de boatos sem fundamento como o da gripe das aves (ninguém viu um único frango espirrar) e o contra-ataque da peste suína, havendo quem sugira que só por lapso ficaram alegadamente loucas as vacas e não os caracóis.

De resto, diversos anónimos destacam como mais um exemplo dessas formas de subversão a que está a afectar os inúmeros pretendentes ao trono de reis do marisco, o papão das toxinas que, citando fontes próximas das principais marisqueiras, não passará de mais um simples rumor. Em declarações que não quis gravadas, um anónimo exaltado afirmou à minha reportagem: Isso não passa de propaganda falsa. Dizem que algum marisco tem toxinas? É mentira. Desafio toda a gente a olhar atentamente para uma travessa de amêijoa à Bulhão Pato, qualquer travessa, mesmo que afirmem estar cheia de toxinas. E depois digam-me na cara que viram lá alguma toxina, uma que fosse!

 

Toda esta celeuma em nada afectou as monarquias mais sólidas, apesar de alguns pontos fracos beliscarem aqui e além a imagem do soberano incontestado. Contactámos o rei da selva que nos confirmou não existir de facto qualquer tipo de contestação ao seu poder, acrescentando um desabafo: “O único ponto fraco na minha imagem enquanto soberano incontestado é mesmo o Sporting, mas felizmente a malta daqui ainda só ouviu falar do Eusébio…”.

Sua Majestade igualmente sacudiu a juba em tom de reprovação relativamente à péssima conduta de outros monarcas e que tanto enfraquece as coroas, fazendo alusão a um alegado rei dos burros que por ali andou a matar elefantes.

 

Também no reino dos mares o líder é absoluto e ninguém ousa disputar o trono do tubarão, nem existe alguém que para o futuro próximo o preveja.

A chatice é que ele já foi por diversas vezes avistado a desbundar no regaço de uma República: a da Cerveja.

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