A POSTA NUMA BOSTA PROTEGIDA PELA FÉ (EM CINEMASCOPE)

Nunca deve ter passado pela cabeça dos dinossauros que um dia iriam extinguir-se. Eram grandes, eram fortes e o planeta parecia feito à medida para nada lhes faltar (tirando uma ou outra alteração climática mais acentuada que lhes podia dar cabo das hortas e da criação).

Ainda não sabemos bem como, mas a maioria aponta para o céu a explicação. Terá sido intervenção divina, um calhau grande o bastante para virar a superfície da Terra do avesso e cobrir a atmosfera com o pó que os privou da luz do sol e abriu caminho ao império dos mamíferos dos quais nos destacámos depois de uns tempos a estagiar com o resto do macacal.

 

Os dinossauros, coitados, foram apanhados com as calças na mão e acrescentaram um saber que de pouco lhes valeu na altura: tamanho não é documento.

E lá andaram os antepassados das ratazanas a disputar território e recursos com o resto da bicharada estranha desses dias e algures surgiram os símios e os dinossauros devem dar duas voltas no fóssil quando constatam os minorcas que lhes sucederam na fila para uma calhauzada qualquer. Ou uns mísseis bem ogivados, também se chega lá assim.

Tal como os anteriores inquilinos desta esfera azul enquanto não acabamos de a pintar de outras cores, não nos passa pela cabeça que a extinção seja uma possibilidade a considerar.

Soa quase herética tal profecia pois qualquer religião com bom senso soma dois mais dois e arranja sempre forma de haver sobreviventes no dia do Juízo Final.

Os dinossauros perderam-se pela falta de fé, no fundo...

 

Nós, antes pelo contrário, até já fazemos filmes nos quais enfrentamos telescópios nos olhos os calhaus enormes que nos possam ameaçar e ganhamos!

A esperança é a última a morrer e mesmo o seu funeral será filmado pela Paramount Pictures (os tais sobreviventes que a fé cuidará de salvar, lembram-se?), pelo que os inventores dos coletes à prova de bala nada terão a temer, pelo menos na sua minoria.

Nisso, os dinossauros não tinham o que lhes valer. O perigo caiu-lhes em cima sem que tivessem sequer tomado consciência da ameaça que a grande fisga cósmica lhes catapultou. E os mais agnósticos poderão até arriscar que nem a fé lhes valeria em tais circunstâncias e se calhar nessa até têm razão.

Claro que nós, tão eternos e tão alegadamente únicos seres vivos do universo e arredores, criados à semelhança de Deus (aí, os dinossauros e a Lili Caneças não poderiam competir), temos uma fé à prova de imprevistos e já temos as ameaças possíveis todas catalogadas. Ainda elas mal acabam de se manifestar e já alguém está a proceder ao registo, análise e comentário detalhado em horário nobre nas televisões. Nada nos surpreende, pois acreditamos piamente na inevitabilidade da sobrevivência de mais do que (logo elas) as baratas mesmo em caso de holocausto nuclear.

Aliás, Hollywwod já previu a ocorrência em películas como o famoso The Day After, tudo sob controlo no reino dos cenários.

 

Tudo isto a propósito da fanfarronice com que todos percorremos o nosso tempo no nosso espaço, certos de que por muita trampa que produzamos jamais ficaremos soterrados (enterrados?) sob a mesma como o Samuel (Beckett) tão bem teatralizou.

Podemos envenenar os rios, abater as árvores todas, intoxicar a atmosfera com todos os dejectos gasosos que conseguirmos soltar como lastro, como um rasto que o progresso justifica e a nossa magnificente e esplendorosa existência impõe. O medo não nos assiste nem relativamente aos calhaus caídos sobre o toutiço (a todos? Não, uma pequena mas irredutível aldeia gaulesa...) nem aos holocaustos nucleares, nem às alterações climáticas.

Somos invulneráveis, insubstituíveis, todo-poderosos senhores do planeta que Deus limpou de lagartos de maiores dimensões para nos oferecer um paraíso para pintarmos de fresco com a nossa natureza de térmitas talhadas para roer os próprios pilares de sustentação da vida.

 

Toda a bicharada do Mesozóico, mesmo que defecasse em simultâneo, não conseguiria melhores resultados na transformação disto tudo numa gigantesca (à nossa pequena escala) instalação sanitária a céu aberto por mais que se tente esconder.

Chamamos-lhe evolução, mas eu não vejo grande diferença entre a bosta imensa de um brontossauro do jurássico e a merda produzida pelos actuais broncosauros de um período que a indústria cinematográfica e a Ciência só poderão, no futuro dos amanhãs que sorriem na tela, retratar como a era do patético.

Inferior.

publicado por shark às 01:05 | linque da posta | sou todo ouvidos