CAPITULAÇÃO EMUDECIDA

Nada temas das palavras que tenha para te dirigir. Sim, sei que as palavras podem ferir mas não passam de balas de papel, de folhas sopradas pelo vento e condenadas ao esquecimento como todas as que sentiste na pele como agressões. Eram palavras que falavam de emoções desnorteadas, das vidas desencontradas com a de cada um de nós ao longo de um caminho que apenas o silêncio permitiria a dois.

A paixão primeiro e as palavras depois, descabidas, talvez mal escolhidas por quem as queria iguais a uma mão cheia de boas intenções que se mereciam explicadas, talvez menos com palavras e mais com acções.

Não fujas, mesmo assim, das palavras que saem de mim sem controlo, desesperadas, são palavras de um tolo, disparadas à queima-roupa fardadas de mecanismos de defesa sem qualquer tipo de ponderação. Saem da boca armada em canhão, arrogantes, e afinal revelam-se impotentes para cumprirem o objectivo ambicionado, não passam de tiros que passam ao lado do alvo verdadeiro sem o tocarem sequer de raspão.

Escuta antes o coração que não se deixa influenciar por circunstâncias, que ignora irrelevâncias exteriores à essência dos amores que entenda abraçar. O coração não sabe falar e a razão, depois de alucinada, dispara palavras em rajada que são feitas do medo de perder alguém que apesar de tudo se quer ou nenhuma palavra sairia desta boca que antes te beijaria em busca do silêncio feito trégua.

As palavras não merecem a mágoa que possam provocar, são por natureza efémeras e em nada reflectem a eternidade das mais fortes emoções, as palavras são apenas as expressões tangíveis de uma tentativa frustrada de conjugar os impossíveis, de organização de um caos que se instala no lugar dos vazios deixados pelo fim de um amor ou apenas pela ameaça pendente que obriga a vociferar e isso é equivalente ao ladrar de cães sem vontade alguma de morder.

São palavras que fazem doer, eu sei, mas não passam de armas de arremesso em desespero de causa, são feitas de pólvora seca ao longo de uma pausa que deveria servir para pensar que o melhor para os lábios seria beijarem o que a vida tem de bom.

Uma vida melhor, facilitada pela ausência de som.

publicado por shark às 16:56 | linque da posta | sou todo ouvidos