A POSTA BEM MEDIDA

Inconscientemente ou não acabamos por definir a nossa relação com os outros depois de medida a distância a que os colocamos sobre uma escala imaginária. Ou seja, para entendermos com clareza o papel e a relevância dos outros para nós basta situarmos cada pessoa num ponto da tal escala (imaginemos uma régua ou uma fica métrica, por exemplo).

A ideia é fácil de concretizar, sobretudo depois de colocadas no seu lugar meia dúzia de pessoas que façam parte do nosso círculo mais restrito de companhias (os filhos estão excluídos pois o grau de proximidade que sentimos é “colado” e não se requerem medições). Passo a especificar.

 

Começo por definir melhor os contornos da imagem a partir do qual poderão acompanhar o raciocínio: a pessoa coloca-se de perfil e a fita métrica está no chão. Depois pode ir colocando, com o poder da mente, as pessoas com as quais se relaciona em função de um critério subjectivo da proximidade a que nos sentimos de cada pessoa em causa.

Claro que existem variáveis de acordo com o género (a pessoa ficar de perfil tem ligação com esta diferença) e outros factores que nos distinguem e a técnica de medição (utilizemos uma escala em centímetros para facilitar a compreensão da cena) acabará por ser influenciada pelo peso dessas incógnitas, mas com as necessárias adaptações qualquer um/a conseguirá aplicar a coisa (ou o coiso) ao seu caso concreto.

 

Depois de alinhados como em formatura na parada, devemos percorrer com o olhar (é com o pensamento, mas assim fica mais realista) todos aqueles rostos que temos por mais familiares. Um aviso: o equipamento de medição pode tornar-se desconfortável quando percebemos que a distância a que colocamos cada pessoa pode constituir um embaraço inesperado. É o caso quando chega a hora de colocar o chefe ou qualquer outro superior hierárquico, pois enquanto para alguns de nós a única distância ansiada é a equivalente à distância a percorrer entre o pouso dessa pessoa e o nosso posto de trabalho, para outros a distância para alguém com esse estatuto não pode ultrapassar o comprimento da própria língua para que esta consiga aceder com facilidade às botas ou ao fundo das costas do outro, ao ponto de, nesta perspectiva, os superiores poderem situar-se num ponto da escala de medição mais próximo do que o dos seus próprios amantes e/ou cônjuges.

 

Mais centímetro, menos centímetro

 

As pessoas amadas ficam sempre ao alcance da mão, embora no caso de amantes a distância nunca possa ultrapassar, tendo em conta o perfil, a que vai da pessoa à ponta dos mamilos ou, tendo pila, a que vai da pessoa à ponta da dita cuja (a medição não pode ser efectuada no modo stand by, tem mesmo que ser em on – mesmo que uma e outra distância quase coincidam).

Por outro lado, um/a amigo/a verdadeiro/a ficará sempre no ponto acessível a um abraço mas com uma distância ligeiramente superior à da medição acima descrita, para evitar confusão de estatutos que poderá adulterar os resultados e as conclusões possíveis de tirar.

 

Outra das armadilhas (chamemos-lhe ilusões de óptica para haver uma tábua de salvação) deste processo de avaliação simples da nossa distância aos outros é a aparente contradição entre a proximidade efectiva e aquela que desejaríamos manter em dado momento relativamente à pessoa. Exemplo clássico é o da vizinha boazona que, na prática, está colocada a uma distância equivalente à existente entre as portas de nossas casas mas basta entrar connosco ao mesmo tempo no elevador para de imediato a colocarmos num ponto da escala em que até conseguimos cheirá-la (a fita métrica, no caso em apreço). A vizinha boazona é uma aberração estatística, neste contexto, não podendo ser-lhe atribuído um cariz mais do que aleatório e, naturalmente, oscilante em função das circunstâncias específicas e, lá está, dos relevos nos perfis em apreço.

 

Uma introspecção com conta, peso e medida

 

Ainda assim, a medição de relevâncias acaba por nos fornecer indicadores claros acerca do que os outros significam para nós, pelo menos em matéria da proximidade que lhes queremos atribuir.

Naturalmente, pessoas aparentemente com idênticos estatutos (por ser igual o vínculo que nos une às mesmas) podem estar nos antípodas da nossa escala de medição individual. É o caso dos nossos professores do liceu, sendo natural que enquanto o professor de Matemática seria colocado mais ou menos na Austrália a curvilínea professora de Inglês encaixaria como uma luva no ponto atribuído à vizinha no exemplo acima.

Aqui vemos como é possível utilizar a escala para entendermos a atribuição de importância em função das matérias de estudo preferidas e isso diz muito da pessoa.

 

Este último aspecto transporta-nos de imediato para a validação científica do método em causa que, embora de alguma forma comprometida pelos inúmeros imponderáveis, se concretiza de forma empírica quando meditamos acerca da distância a que estamos colocados relativamente a algumas pessoas que podem fazer parte, pelos estranhos desígnios do acaso, da nossa existência e depois observamos o posicionamento das mesmas numa abordagem espontânea.

Para o efeito são requeridos equipamentos complementares capazes de fornecerem o rigor que em qualquer ciência se impõe.

Se quiser observar com exactidão o posicionamento dos/as seus ex deverá ter à mão um par de potentes binóculos.

E se pretender, num gesto ousado, referenciar a sogra o Planetário será o seu melhor ponto de vista. 

publicado por shark às 16:05 | linque da posta | sou todo ouvidos