A POSTA QUE LHES TROIKARAM A MAIÊUTICA

O mais recente sarilho grego, curiosamente nascido dos caprichos de uma criação sua – a democracia, parece bem encaminhado para ser o último acto do pesadelo comunitário em que a zona euro subitamente se tornou.

No momento em que escrevo estas linhas, na terra do Onassis há um líder da esquerdalha a tentar formar governo, já com aviso prévio de tomadas de posição tão vincadas como a nacionalização de toda a banca.

E de repente as respirações ficam suspensas por todo o Velho Continente, temendo-se a qualquer momento a transição menos suave do estado de choque dos mercados para o início de uma indisfarçável apoplexia.

 

A coisa vista deste lado do naufrágio, cada vez mais perdido por um perdido por mil, até pode parecer de pouca monta. Mas a avaliar pelo pânico mal camuflado da malta que (des)manda os cenários possíveis criam filmes de absoluto pandemónio com ondas de choque impossíveis de prever na sua dimensão, nomeadamente no que respeita àquilo com que se compram os melões.

Os gregos, como nós, não têm jeito para lidar com dinheiro em demasia e a coisa piora quando ao dinheiro a mais se acrescenta o que não se tem e alguém nos empresta.

Os milhões foram manteiga em nariz de cão, lá como cá, e depois surge a fase da casa onde falta o pão e toda a gente protesta mas ninguém tem a razão. Os gregos entenderam somar aos de rua o protesto eleitoral e podem muito bem ter enterrado o país nas urnas (há aqui muita coerência implícita), com a composição de um parlamento demasiado colorido para a necessidade de uma postura tranquila, cinzentona.

 

Temos mais uma vez instalado o pânico nas hostes e até de golpes militares se fala quando se esboçam futuros capítulos desta caldeirada helénica, tamanha a incapacidade de uma Europa aos tremeliques conseguir suster o eventual colapso nas suas mais temíveis repercussões.

A Grécia está provavelmente apenas a antecipar um desfecho inevitável, mas se há fio condutor nas decisões europeias é o da prioridade em adiar. Ganhar tempo parece ser a única resposta dos decisores e nesse particular os gregos, apressados, perderam.

Como Portugal perderá, pelas contas dos entendidos que nelas se enganaram, por tabela.

 

Mas Portugal não é a Grécia, eles é que sempre se deixaram embeiçar pela Filosofia e foi um dos melhores entre eles nessa arte quem lhes impingiu a cena de dedicarem mais empenho ao seu desenvolvimento pessoal do que à obtenção de riquezas.

E por isso, em última análise, se houve bronca com dinheiros por lá a culpa só pode ter sido do Socrátes.

publicado por shark às 23:59 | linque da posta | sou todo ouvidos