A POSTA LAURO ANTÓNIA

É fácil depararmos-nos com becos sem saída quando percorremos o labirinto da introspecção, uma espécie de aventura em corredores armadilhados ao estilo Indiana Jones e a Razão Perdida com a subjectividade a fazer o papel do vilão daqueles com muito bom coração mas um nadinha desviados, todos nós, do caminho melhor.

É uma metragem que queremos longa e por isso nos deixamos perder no decorrer de mais uma deambulação pelos tais corredores que parecem parados quando não interessa, afinal, avançar porque podemos encontrar, nós todos, as respostas tão explosivas que podem estragar o final feliz para o herói atrevido e mesmo para o mau no interior, o agente sabotador das melhores intenções a que chamamos, enquanto batemos em retirada, um mecanismo de defesa natural e por isso mesmo absolutamente desculpável.

 

As culpas são um dos rostos malévolos que trocam as voltas, que perturbam o sentido de orientação racional e nos deixam à toa como ratos de laboratório numa experiência desenhada à medida de chimpanzés. A inteligência acaba sempre atingida pelo fogo cruzado, tão natural, dos mecanismos de defesa, protecção instintiva da pessoa, contra a artilharia pesada da consciência que pode mudar o lado da barricada consoante o alvo a abater.

É uma guerra talhada para ser perdida, o rato à toa nos labirintos da vida em busca de um queijo sempre a mais porque dizem fazer mal à memória e os caminhos que não encontramos, lojas de conveniência racional, são os pontos de fuga ideais para uma desculpabilização montes de esquecida e por isso reconhecidamente eficaz.

 

A película não anda para trás e cada cena tem que resultar à primeira ou pode ficar uma vida inteira às escuras dentro da caixa metálica, opaca, de uma bobina, uma imagem muito mais intensa e dramática do que a obtida com o argumento fácil da cópia digital. É analógica a batata quente a crepitar no colo desertor da mentira piedosa ou de qualquer outra jogada manhosa à maneira para salvar no último instante a pele imaginária do amor (im)próprio de cada actriz ou actor, corta como um cutelo no filme de terror em que passamos a vítima quase inocente, tão nua e desprotegida à mercê de uma condição que funciona como uma mina anti-pessoal, a verdade crua e malvada que pode tornar inviável a mudança de cena suave no processo de transição para a absoluta negação da imagem que nos perturbou.

 

Insistimos na certeza de que aquele filme já acabou e por isso não faz sentido a obrigatoriedade de realizar uma espécie de sequela onde o mau da fita é mesmo a cara chapada daquele que antes, numa reacção mais a quente, protagonizava a pessoa muito boa mas apanhada na fogueira ateada pelas circunstâncias, essas incógnitas, essas variáveis que funcionam como contexto ideal, como cenário mutante em função do ângulo mais interessante, mais favorável da actriz ou do actor. São truques de realizador experimentado, de produtor bem sucedido de fitas que servem apenas para desviar a atenção, tão bem resulta a prestidigitação que a mente aponta de imediato o míssil do ilusionismo contra as fileiras desguarnecidas de vontade a sério de vencer.

A guerra é travada para perder, nem que a bala nos atinja apenas de raspão, porque avançamos com as certezas assentes num alçapão automático, redentor, à prova de bala e mesmo de amor disparado à primeira vista, rajadas de setas lançadas por um cupido moderno que faz de fuzileiro zarolho nos momentos de comédia que a vida acrescenta só mesmo para o público desanuviar.

 

A saída airosa para escapar do tal beco que a perdeu, no labirinto onde não se esqueceu a deixa que facilitava a fuga milagrosa para o prémio de consolação, o túnel escavado no subsolo da prisão onde urge deixar a verdade encarcerada, por troca com uma sósia, a dupla na realidade maquilhada como uma tábua de salvação no mundo faz de conta das térmitas que gritam acção mas a pessoa entende que já rascunharam no guião o seu happy

 

(THE) END.

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publicado por shark às 01:39 | linque da posta | sou todo ouvidos