A POSTA NO INDIVÍDUO ENQUANTO PRESA FÁCIL DO SISTEMA

Dúvidas houvesse de que existem ligações cada vez mais perigosas entre os diversos poderes que numa democracia coexistem, nomeadamente e por ordem de influência o financeiro, o político e o judicial, o caso exemplar (no verdadeiro sentido da palavra) de Eric McDavid dissipa-as.

Em causa está um activista da luta pelo ambiente, um cidadão anónimo a quem calhou na rifa o martírio como aviso à navegação para todos quantos alimentem quaisquer veleidades de poderem combater pela força as empresas poluentes a quem os Estados toleram, vide a dimensão média das coimas previstas, quase todos os abusos que, na prática, nos envenenam.

 

De acordo com a esmagadora maioria da informação disponível, no âmbito de um plano de acção do governo norte-americano baptizado de Green Scare o FBI terá infiltrado uma agente na inexpressiva organização liderada por Eric com o objectivo de obter uma detenção no matter what.

E o rapaz acabou por se apaixonar pela toupeira ao ponto de alinhar (em teoria) com a sua alegada intenção de danificar propriedade privada e estatal para proteger a Natureza. Acabou traído por ela, pelos amigos e colaboradores mais próximos que cederam a acordos para o incriminarem depois de detido e pelas próprias circunstâncias.

 

A principal circunstância a pesar no destino traçado para o activista, acusado de conspiração para o uso de fogo e de explosivos para danificar bens empresariais e, muito conveniente à luz do sistema penal americano, do Estado, federais, é a da infeliz coincidência(?) de aos sabotadores ambientalistas se aplicar de forma leviana(?) o termo eco-terroristas. E todos sabemos qual é na opinião pública o eco da palavra terrorista...

O Eric foi, note-se, acusado de planear crimes. Não os cometeu e esse é um facto. Se os tivesse levado a cabo não seria com intenção deliberada de matar ou ferir alguém, a intenção era apenas danificar aquilo que entende como ameaças ao futuro do planeta que abraçou como missão defender. E mesmo esses planos maquiavélicos terão sido delineados por Anna, a tal polícia undercover que o terá arrastado para uma cilada.

 

Num país como o nosso, em que o violador confesso e inequívoco de uma criança dificilmente passará mais de meia dúzia de anos num estabelecimento prisional, a bitola de severidade das penas entre os leigos nem por isso prima pela moderação. Ou seja, perante crimes graves e particularmente violentos o cidadão comum acha sempre brandas as penas aplicadas e por isso mesmo teremos a tendência de ampliar a sanção por comparação à decidida pelos tribunais.

Ainda assim, neste país que é o nosso um culpado de assassínio em série terá como pena máxima 25 anos de prisão. E o autor de um assalto à mão armada, mesmo que acabe por ferir alguém, dificilmente ficará dentro por mais do que quinze primaveras aos quadradinhos.

Mas, e esse parece ser o exemplo que melhor se adequa a esta posta, se conduzir empresas à falência ou perto, mesmo lesando o Estado em milhões (remember BPN?), pode até nem cumprir pena de prisão a sério, nos calabouços, mas antes usufruir de uma prisão domiciliária com ou sem pulseira enquanto aguarda as diligências necessárias para protelar uma decisão final para o seu caso.

 

Eric McDavid, hoje com 35 anos, vai estar preso até por volta dos cinquenta. Apenas por ter planeado um acto criminoso que o seu Estado quis deixar bem claro não ser tolerável, nem mesmo cheio de tão boas intenções como a defesa do ambiente, por constituir uma ameaça séria para todo o sistema capitalista cada vez mais dependente do bom funcionamento da ligação entre o seu poder, o verdadeiro, e os poderes de fachada que o defendem contra a revolta dos que o possam hostilizar denunciando-lhe a escalada de prepotência e de desprezo pelas regras mais elementares que o próprio bom senso recomenda.

Quase vinte anos de cadeia por, com a ajuda entusiástica de uma ratoeira com pernas e crachá, ter ponderado a hipótese de cometer um crime que nem envolvia danos a pessoas e por isso seria um acto de sabotagem e nunca uma acção terrorista.

 

Mas o cidadão de sofá não distingue a diferença. E por isso o Eric não contou com a sublevação popular que o seu caso justificaria. Ficou indefeso e à mercê da sua condição de mau exemplo a reter, de factor de dissuasão para potenciais seguidores dessa forma de luta tão eficaz quanto o temor dos Governos e a sua ânsia de a pintarem como ignóbil o comprovam.

A reacção alérgica e, no caso concreto, obviamente concertada dos vários poderes a qualquer tipo de rebelião que lhes afecte os interesses já a História documenta de forma profusa em tudo quanto é canto do mundo, sobretudo no contexto das ditaduras.

 

E a do dinheiro nunca foi nem quer ser reconhecida pela sua propensão à clemência.

publicado por shark às 21:46 | linque da posta | sou todo ouvidos