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As três idades da mulher, por Gustav Klimt

De quando em quando, volto ao tema. É tão recorrente quanto inevitável. Resultado de pouca apetência para o disfarce, de sermos mais dados à transparência que à performance ficcionada de um nick.
Andamos por aqui, anos a fio, a desfiar contas de rosários que, na vida real, não contamos a qualquer um. Desmascaramo-nos nas palavras que partilhamos com olhos estranhos. Confessamos mágoas e amores e registamos anseios, numa ilusão febril de garantir que perdurarão para a posteridade. A nossa mais a dos milhões que a eles terão acesso.
Despertamos sensações de doce calor nas emoções alheias, fazemos amigos e inimigos virtuais, somos sujeitos a julgamentos de quem acha que nos conhece pelas mostras de carácter que nos lê. E que podem ser tão verdadeiras quanto a marca de uma camisola da contrafacção.
Há de tudo e para todos os gostos, nesta democrática sociedade de classes que decalcamos para aqui.
Não invento uma pessoa fabulosa por detrás do que aqui escrevo, tal como não o faço na realidade analógica que me acolhe os dias. Dá-me gozo ser eu própria a personagem que represento, em qualquer dos casos. Com virtudes e muitos pecados capitais. Nem melhor nem pior do que ninguém. Just me.

Desconfio que sou composta de fraquezas e delas faço a força que me sustém. Encaixo peças de contradições e extremos incompatíveis, que fazem de mim um puzzle muito pouco fácil de entender.
Sou tantas vezes anjo quanto pecadora, padeço de soberba e ira mais vezes do que gostaria mas não tenho inveja de ninguém e a gula, só se fôr de uma refeição com muitas velas e um bom vinho, à mistura com a companhia perfeita. Da avareza nada sei, ocupada que estou em garantir a subsistência e desbaratar o resto nos pequenos prazeres que fazem com que valha a pena viver: uma cerveja gelada numa esplanada com os pés na areia, um fim-de-semana inesquecível num pequeno hotel perdido no cimo do monte, uma tarde de sal na pele e mar no olhar, enroscada em alguém muito especial. Emociono-me, tantas vezes, com a humildade, as crianças, com as Causas. Mas também com um céu rasgado de cores naquele momento em que a noite se espreguiça de mansinho ou uma música que nos desliza pelos sentidos. Noutras ocasiões, sou uma estátua de gelo.
Confesso a preguiça. Opto, sempre que posso, por saborear o remanso das manhãs ou deitar cedo com um (muitos) livro(s) à cabeceira e usufruir do luxo do descanso, sem culpas.
E pratico a luxúria com despudor. Quando me deixo ir, drag around pelo turbilhão de dois corpos em sincronia perfeita. Sempre que dedos de seda me percorrem a curva do pescoço e se quedam esquecidos por entre o meu corpo ou um sussuro morno me sopra os lábios e os cabelos. Em todas as vezes que o brilho de um olhar antecipa o arrepio e um beijo no interior dos pulsos desencadeia uma tormenta.

Vivo pois, vivo e sonho muito, à minha medida, sem complexos ou condicionantes, por muito que mos tentem impôr. E curto à brava observar os outros, descodificar intenções, ler-lhes os olhos, intuir a verdade e honestidade tanto como a fraude.
Dou de barato a maledicência e a dor de corno e faço o que me dá na gana, sempre e quando entendo que o quero fazer. É assim desde que, muito cedo, descobri que não há grilhetas capazes de domar a força de uma vontade. Foi assim que me ensinou quem me pôs no mundo, me abriu os olhos à injustiça, me mostrou o valor de reclamar direitos e cumprir deveres.

É este, hoje, o tributo que lhes presto. O do orgulho em ser como sou.
E é esta, a liberdade que canto neste dia. A minha.

Mar
publicado por shark às 00:00 | linque da posta | sou todo ouvidos