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Obriguei a vida a libertar-me aos poucos de uma série de grilhões e de empecilhos que me atrofiavam. Essa missão ainda não se completou e acabo por gerir a existência como uma espécie de revolução inacabada. Como aquela que comemoramos, contra a vontade dos que prefeririam a carta branca para impor regras em benefício próprio e de um reduzido séquito de compadres e de serviçais.

Era um puto quando aconteceu o 25 de Abril, sorte minha. Poupei anos em Caxias ou uma vida de merda, clandestino num exílio qualquer. O meu contacto com o cariz bafiento e hediondo do regime fascista (bois pelos nomes, claro) circunscreveu-se à porrada que os professores davam na escola, com o beneplácito do Estado, da Igreja e da família, e a mais meia dúzia de pormenores a que um chavalo dava pouca importância.
Retive o que interessava, dos meus passeios em chaimites e da observação da euforia colectivista que enlouquecia a vizinhança.

Grupos, clubes, comités e associações nasciam por todo o lado porque todos queriam fazer coisas. Todos queriam o seu quinhão da liberdade conquistada e do poder que o povo nunca cheirara, excepto na versão (vam)pidesca que lhe irrompia pela porta de casa em madrugadas de terror.
Coisas a que ninguém dá valor, por soarem ficcionadas. Mas a ficção fazia-se de pessoas perseguidas, torturadas, sem licença para exprimirem os pensamentos que a maioria recalcava no plano secreto dos medos justificados. Coragem do desespero, a que movia algumas pessoas pelo underground das ideias proibidas.

Quem não alinhava (amochava) sentia na pele e na vida as consequências inevitáveis que os bufos ou os senhores inspectores impunham em nome de um ideal doentio, de uma vergonha para qualquer nação civilizada.
Só descobri essas verdades depois, mas julgo que aprendi a lição.
A minha rebeldia, exibida em todos os palcos que pisei, seria certamente a minha perdição no futuro alternativo que a Revolução me poupou. Assim, acabou por constituir o mote para o pouco que dei de mim à luta pela consolidação dos valores que só a liberdade garante.

A minha liberdade não é negociável. Nem aceita passiva a mais pequena limitação, se injustificada. Apenas a disciplina que reconheço necessária para impedir o desgoverno das multidões e a rédea solta para oportunistas, facínoras e medíocres.
Só neste aspecto a democracia me falhou (bom, a lei do aborto e a eleição do Cavaco também me ficaram atravessadas…). Eles andam aí e contornam sem problemas todos os débeis mecanismos de controlo que acabam por lhes legitimar os abusos, quando manipulados com estratagemas que não passam de ratoeiras para quem se veja no meio do caminho dos múltiplos poderes feudais, o caciquismo que abunda em todas as dimensões do quotidiano.

A minha liberdade serve para falar sem mordaças, amar sem reservas, pensar sem espartilhos e escrever sem temer o lápis azul. Sem o papão de uma guerra colonial estapafúrdia (que a minha Pátria é, sempre foi, Portugal mais as ilhas. E Olivença, do ponto de vista do Direito Internacional, enfim…).

Tenho para mim como certa uma existência sem papões mandões que pretendam controlar-me a cabeça e a vontade que ela consegue produzir.

E por isso não esqueço a gratidão devida a quem me ofereceu este dado tão adquirido que até parece eterno.
Não é. A liberdade pode perder-se de muitas formas e na maioria dos casos só percebemos que a perdemos quando batemos com a mona nas grades insidiosas, de aparência inofensiva, que nos cercam cada movimento, cada pensamento, cada manifestação de vontade própria. A ilusão em que nos embebedam enquanto refinam a sua maquinaria instalada na democracia para nos subverterem pela ambição, até cuspirmos veneno de cobras.

A luta continua e eu não deixo cair o chavão.
A nossa velha Revolução anda a precisar de obras.
publicado por shark às 00:00 | linque da posta | sou todo ouvidos