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A blogosfera duplica de tamanho a cada seis meses. Já existem mais de 35 milhões de blogues e surge um novo espaço a cada segundo que passa. Um por segundo!
Isto implica que a blogosfera está sessenta vezes maior do que há três anos.
Contudo, existe quem defenda que a blogosfera é uma espécie de parente pobre na Internet. E mesmo quem não é apologista dessa teoria acaba por relegar para segundo plano o papel desta comunidade, com a Imprensa (sempre tão ávida de divulgar os sites, esses parentes próximos) à cabeça do silenciador colectivo que olha para os blogues como algo de irrelevante no contexto da net.

No entanto, esta é uma das 50 mil postas publicadas na última hora pelo produtivo grupo que integramos. São números colossais, impossíveis de ignorar sob qualquer perspectiva.
A blogosfera está a tomar conta da Internet e não é uma moda passageira como muitos aventaram.
Ninguém se iluda com o fim de alguns blogues de referência e o de uma infinidade de outros que apenas se viram encerrados pelo processo de selecção natural ou por mero cansaço de quem os fazia acontecer. Isso faz parte do processo de amadurecimento daquele que, no meu modesto entender, constituirá um dos mais poderosos meios de comunicação desta década.

O que fazemos, postar/comentar, é um acto puro de liberdade de expressão. É, se quisermos extremar posições, um baluarte dos valores que a democracia representa. A reacção hostil dos vários poderes é sintomática.
Se nos países onde a repressão faz escola o controlo da blogosfera surge como uma opção inadiável, isso representa o reconhecimento da ameaça que representamos. E ameaçamos contrabalançar a manipulação informativa por parte de quem possui interesses obscuros a defender. A saber: o poder financeiro (que não conseguiu até à data impor-se aqui como noutros suportes virtuais); o poder político (que vê expostas as mazelas sem poder evitar a respectiva divulgação e arrisca ver brotar movimentos pontuais de cidadãos anónimos em torno de causas potencialmente embaraçosas); o poder dos media (dominado pelos dois anteriormente referidos e que tenta atabalhoadamente manter uma relação de amor-ódio com este novo factor na permanente guerra de audiências que anima e conduz a Comunicação Social).

É a reacção da Imprensa que mais me preocupa. Seria natural o nascimento de sinergias entre estas duas formas de comunicar, traduzida até na crescente proliferação de Jornalistas no nosso meio (e de blogueiros/as no deles). Porém, a Imprensa foge da divulgação da blogosfera como o diabo da cruz. Nas televisões insistem em apelidar de “site” os poucos blogues que se vêem obrigados a citar por força do impacto da sua intervenção. Nos jornais, raramente a blogosfera ocupa mais do que um espaço exíguo numa página secundária qualquer.
Esta opção contraria (tenta contrariar) o inevitável: a blogosfera representa, mais do que muitos jornais e apesar de alguns embustes que se produzem no nosso seio (como no deles), um veículo mais credível (e acessível) de informação em muitas áreas do que a Imprensa escrita.

Esta mini teoria da conspiração que se subentende pelas minhas palavras é gerada pelos factos que citei e alimentada por outros sobejamente conhecidos entre nós, episódios pontuais de reproduções jornalísticas sem citação da fonte. E um blogue é (ou pode ser) uma fonte tão legítima como qualquer outra, devendo ser citada nessa condição. Se assim não acontece, à sombra do anonimato que alegadamente nos descredibiliza nesse particular, é porque dá jeito manter discreto este fenómeno que construímos de borla, com a teimosia e a persistência de carolas empenhadas (regra geral) em produzir um trabalho em condições e que justifique o tempo e a atenção que nos são dedicados.

O Charquinho não se engloba sequer nos blogues directamente afectados pelos factos a que fiz referência. É rara a nossa incursão por temas que possam perturbar o dolce dire niente que reina neste país em visível degradação social e económica (o nosso inenarrável parlamento e a aflição bem patente no desnorte da acção governativa são um espelho da gravidade da situação). E somos inexpressivos para a estatística.
Mas a questão de princípio, a Liberdade que esta actividade simboliza, pode a curto prazo ver-se ameaçada pelo esforço conjugado de quem a entende como um mal a combater. Porque esperneamos sem que alguém possa impedir que tal aconteça, porque podemos denunciar o que está mal e opinar acerca de rigorosamente qualquer matéria sem nos expormos aos “castigos” que a sinceridade acarreta noutros meios mais à mão dos poderes.

Não é uma questão menor, vista nestes termos. É uma soma de pequenos indicadores que justificam alguma atenção e suscitam crescente reflexão (organizada) por parte de quem pretenda entender a blogosfera como um pouco mais do que um passatempo inconsequente.
O futuro que nos está reservado em matéria de liberdade de expressão passa seguramente pela protecção dos direitos e pela imposição dos deveres de quem bloga. Se a anarquia e a impunidade não servem os propósitos seja de quem for, os mecanismos de controlo aplicados sem uma discussão séria com a intervenção directa dos visados acabarão por nos condicionar sob um jugo de regras e de punições que desencorajem os mais bem informados e, acima de tudo, os mais afoitos a divulgar o que possa prejudicar os interesses de quem mais ordena.

E num país em vias de bana(na)lização dos maus hábitos, com Abril a definhar aos poucos na sua expressão democrática (mediática?), não é ao povo que me estou a referir.


(Se calhar este texto torna-me elegível como alvo potencial de uma implacável atoarda do nosso Grande-Guru num blogue e/ou num jornal de grande expansão. Do alto destes vinte meses de blogosfera o meu quarto de hora de fama vos contempla)
publicado por shark às 11:51 | linque da posta | sou todo ouvidos