POR UM CANUDO

Mergulhou na imagem que lhe oferecia o telescópio de um local no Universo onde podia sentir-se em paz. Deixou-se levar pelo brilho das estrelas, pelo passado da luz, até onde o espaço o envolvia num abraço imaginário e o protegia de males sem sentido algum na ordem natural daquele local que espreitava, estava lá, e o deslumbrava com danças de gases e de detritos, com a beleza de momentos de um tempo que não era o seu mas parecia.

Era isso que o atraía para aquele buraco de fechadura por onde se reservava o direito de observar os locais e os tempos que nunca poderia experimentar de outra maneira, limitado pela lentidão do progresso que lhe abria janelas para o espaço mas o fechava entre portas no chão.

Navegou por aquela pequena mas tão rica parcela do espaço tão distante que entretanto poderia já nem existir tal e qual, como um velejador solitário na imensidão relativa de um oceano qualquer, isolado das influências perniciosas do exterior.

O espaço que agora via era o espaço no qual vivia a bordo da sua insanidade permanente que os outros acreditavam intermitente porque ele entretanto aprendera a fingir, por detrás de silêncios oportunos, alguns momentos genuínos de lucidez.

Fugia para aquele observatório que lhe servia um modo de vida ilusório porque apenas lhe desviava a atenção de cada medo, de cada papão, que o atormentava na outra vida que o obrigava a caminhar pela realidade terrena, os trocos da existência pequena que o arrastava para longe do seu mundo extraterrestre de fantasia que sonhava enquanto fugia, enquanto espreitava as utopias que jamais poderia alcançar naquela evasão temporária que era afinal uma ingénua manobra de diversão.

 

Tentava fugir de uma prisão implícita na liberdade condicional que a vida lhe permitia, a viagem aos mundos que nunca descobria com o seu equipamento amador e inventava no interior da sua mente que era guiada por um enredo de ficção.

Alimentava a ilusão nos raros momentos de sossego que a vida a sério lhe permitia, enquanto voava, enquanto fingia que o mundo perfeito estava ali mesmo, quase ao alcance da sua mão estendida à do alienígena entretanto enviado para o salvar.

publicado por shark às 22:42 | linque da posta | sou todo ouvidos