A POSTA QUE A ESTES NÃO CONVENCEM A VOTAR

Foi-me ensinado em pequeno que o Estado era uma espécie de manto protector que se estendia sobre a Pátria lado a lado com a mão de Deus que acabava, no entusiasmo doutrinário dos professores da altura, por ser quase a mesma coisa.

Provavelmente não existia uma realidade mais pura do que esse Estado que acumulava miséria em bairros de lata mas não se poupava a esforços para fortalecer a evangelização que já era uma tradição secular nas colónias, espalhar a fé à bruta por Deus e, por inerência, pela Pátria que era um Estado e por isso acabava, na cegueira imperialista dos seguidores do apóstolo de Santa Comba, por ser quase a mesma coisa, como acima referi.

 

Era divinal, esse Estado que me foi ensinado desde o embrião glorioso nas gentes de Viriato, passando pelo anjo milagreiro que ofereceu a D. Nuno uma quadratura perfeita para nos explicarem essa ligação tão próxima entre a santíssima trindade e os gloriosos líderes do passado da Nação que, curiosamente, nunca fazia alusão nos manuais de História ao seu pedaço amputado que os espanhóis hoje chamam Olivenza, aterrando essa viagem pelo conhecimento da visão sagrada do que constituía afinal a herança desse Estado na viagem aérea de dois bravos que pareciam ter esgotado no início do Séc. XX os exemplos de heroicidade dos portugueses que nos explicavam porque valia a pena respondermos à chamada na idade certa para empunharmos uma G3 em sua defesa.

 

O Estado não mentia nem ocultava e certamente também não pecava porque de outra forma perderia a bênção do Cardeal Cerejeira ou a conivência do respectivo sucessor na ligação inequívoca da fé na Igreja com a esperança nos dias melhores que o Regime adiava sem qualquer medo da contestação minoritária desses filisteus que até os americanos combatiam na terra dos outros, perfeitos para serem pintados ao povo como os maus de uma fita censurada que só a Revolução de Abril permitiu exibir em tela panorâmica com cravos vermelhos desenhados nas cortinas que faziam parte da solenidade dos grandes cinemas de então.

 

O Estado perdeu nessa altura a ligação ao céu e o povo seria quem mais ordenaria e até deixou de ser pecado assistirmos aos onze ou doze anos a sessões de esclarecimento acerca de planeamento familiar, a par com tantas outras maravilhas que esse outro Estado que era sagrado por um falso motivo e agora oferecia coisas impensáveis como reformas na velhice, um sistema de saúde gratuito e, nessa altura era muito importante para este cidadão, um sistema de ensino misto e livre de reguadas que simbolizavam a disciplina até ao dia em que se revelaram uma forma de repressão.

A Liberdade embebedava e o Estado que agora era de todos menos de Deus parecia um manto protector que se estendia sobre o Povo mãos dadas com o Movimento das Forças Armadas que nos garantiria a paz, o pão e os direitos dos trabalhadores contra os lacaios do capitalismo, esses fachos repugnantes e parasitas que os padres ajudavam na exploração da classe operária e tudo isso agora terminara porque o Estado era o Povo e esse, claro está, não estava no país (que Pátria soava fascista) para enganar ninguém.

 

Passaram uns anos sobre essa conversão do Estado à sua versão laica que quiseram ensinar-nos a respeitar não por temor a Deus ou à PIDE mas apenas porque só podia ser assim.

O Estado de Direito garantia-nos uma gestão imaculada, uma governação quase tão sagrada como a que nos pintaram em miúdos e na qual o Estado seria sempre e sem qualquer hipótese de engano o equivalente a uma pessoa de bem. E este último conceito toda a gente teve o cuidado de nos ensinar muito bem, a honra e a palavra, a seriedade que fazia distinguir os bons cidadãos daqueles que nos ensinavam a olhar como bandidos, como marginais que nos roubavam e nos enganavam e mereciam estar todos encarcerados por serem uma ameaça para a população séria e trabalhadora que já nem precisava ser devota para merecer o seu lugar no paraíso que desceu do céu sob a forma da perpetuação do sistema de cunhas que tão bem funcionara no esquema anterior e agora poderia funcionar ainda melhor sem essa carga pejorativa teórica da moral cristã.

 

Novos (e antigos) representantes do povo, gente como nós e assim, instalaram as vidas nessa estrutura tão bem pensada, o Estado, e nas imensas regalias juradas eternas para os servidores públicos de tantos interesses privados que acabaram por desviar o dinheiro e a atenção de quem o deveria controlar até descobrirmos todos que a Pátria, a Nação, o País, aquilo que prefiram chamar-lhe, estava num estado deplorável que o tal Estado que era sagrado não soube evitar.

 

Eu, que fui ensinado em pequeno e depois em mais crescido a acreditar que o beneplácito de Deus ou a fiscalização das autoridades competentes que dantes não lhes escapava um rebelde comuna mas nisso das contas nunca foram exemplares, tenho razões para me sentir defraudado com essa organização chamada Estado que me prometeu Mercedes em suaves prestações a perder de vista no mesmo horizonte da minha velhice agora cada vez mais desamparada em matéria de segurança social. Sinto-me enganado, sem dúvida, pelo povo que desordenou nesse Estado e criou as condições para agora me ver arrastado pelo turbilhão da crise à mostra quando o tal manto protector de repente encolheu e nos destapou os pés de barro no país das maravilhas onde os milagres deixaram mesmo de acontecer, excepto a impunidade adivinhada para os que nos tramaram e agora dizem que não há dinheiro para nada apenas porque sim.

 

Mas nunca conseguirei sentir-me tão revoltado como se tivesse estado na pele de um dos alunos a quem a tal pessoa de bem que é o Estado entendeu negar a miúdos, à última da hora, um prémio pecuniário prometido pelo mérito escolar superior sem nenhuma outra razão plausível que não apenas porque não.  

publicado por shark às 17:25 | linque da posta | sou todo ouvidos